A agricultura brasileira sempre esteve sujeita às oscilações do clima, mas aquilo que antes era encarado como um fator inerente à atividade produtiva ganhou uma nova dimensão.
Diante de períodos prolongados de estiagem, altas temperaturas, irregularidade das precipitações e aumento na frequência de eventos extremos, especialistas apontam que a gestão climática se tornou uma ferramenta indispensável para a tomada de decisões no campo.
Essa preocupação é reforçada pelas previsões para o atual ciclo climático. Estudos da Organização Meteorológica Mundial (OMM) indicam que o El Niño em desenvolvimento pode figurar entre os mais intensos desde o início das medições modernas.
Simulações climáticas sugerem que sua magnitude pode se aproximar dos episódios registrados em 1982 e 2015, considerados marcos pelos impactos provocados em diferentes regiões do planeta.
O chamado Super El Niño desperta atenção porque seus efeitos se somam a um contexto de aquecimento global já consolidado. Pesquisadores destacam que esta é a primeira ocorrência de um fenômeno dessa intensidade em um planeta significativamente mais quente em razão das mudanças climáticas.
Ao abordar o tema, o secretário-geral da ONU, António Guterres, alerta que o El Niño intensificará os efeitos do aquecimento global, ampliando a gravidade dos impactos e sua capacidade de atingir diferentes regiões do mundo com rapidez.
Para o agro
Os reflexos para o agronegócio já começam a ser percebidos. Históricos de eventos anteriores mostram associação com perdas de produtividade agrícola, elevação dos preços dos alimentos e prejuízos econômicos de grande escala, que chegaram a centenas de bilhões de dólares em diversos países.
Para especialistas, a combinação entre fenômenos climáticos extremos e o avanço das mudanças climáticas tende a aumentar os desafios para a produção agropecuária e a elevar os riscos enfrentados pelo setor nas próximas décadas.
O El Niño já preocupa o campo
Embora o fenômeno El Niño ainda não esteja oficialmente configurado, o aquecimento das águas do Oceano Pacífico tropical já vem sendo monitorado e deve se consolidar em breve.
De acordo com o meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), Anderson Haas Poersch, o Brasil atravessa um período de transição, mas os efeitos mais significativos sobre a agricultura ainda não são observados.
“Nós estamos saindo de uma condição de neutralidade e acompanhando um aquecimento consistente das águas do Pacífico tropical. Ainda não podemos caracterizar oficialmente o El Niño, mas a expectativa é que isso ocorra nas próximas semanas ou meses”, explica.
Segundo o especialista, o atual período do ano também contribui para que os impactos ainda sejam limitados. “Boa parte do Brasil está na estação seca, com menor atividade agrícola, exceto nas áreas irrigadas. Mesmo na região sul, as culturas de inverno ainda não apresentam impactos claros relacionados a esse aquecimento”, afirma.
Alteração no padrão das chuvas preocupa
Quando o El Niño se estabelece, sua influência vai muito além do aumento da temperatura do oceano. O fenômeno modifica a circulação atmosférica e altera o deslocamento das massas de ar, provocando mudanças significativas no regime de chuvas em diferentes regiões do País.
“O El Niño é um fenômeno de escala global. Ele altera a circulação das massas de ar e, consequentemente, modifica o padrão das chuvas. Quanto mais intenso for o evento, mais evidentes tendem a ser esses efeitos”, destaca Anderson.
Para o centro-oeste, um dos principais impactos esperados é o atraso das chuvas regulares que marcam o início da safra de verão. “Em anos normais, outubro e novembro já apresentam precipitações bem estabelecidas. Com o El Niño, essas chuvas tendem a ficar mais restritas à região centro-sul do Brasil, enquanto o centro-oeste enfrenta maior irregularidade”, explica.
Além da redução na regularidade das precipitações, as temperaturas elevadas agravam o cenário. “O calor acelera a perda de água para a atmosfera. O produtor pode receber uma chuva isolada e acreditar que já existe condição para a semeadura, mas, se os próximos dez ou quinze dias permanecerem secos e quentes, a germinação e o estabelecimento inicial da cultura ficam comprometidos”, alerta.

Riscos diferentes para cada região produtora
Os efeitos do El Niño variam conforme a localização das principais regiões agrícolas brasileiras. Na região sul, o excesso de chuvas durante a primavera pode trazer prejuízos importantes para as culturas de inverno.
“A expectativa é de maior ocorrência de doenças devido ao aumento da umidade e à redução da radiação solar. Além disso, o excesso de chuva dificulta a colheita e compromete a qualidade dos grãos, especialmente do trigo”, afirma o meteorologista.
Segundo ele, setembro, outubro e novembro representam um período crítico. “O produtor pode enfrentar dificuldade para encontrar janelas adequadas de cinco a dez dias de tempo seco para realizar a colheita. Isso aumenta os custos com manejo fitossanitário e pode reduzir significativamente o valor comercial da produção.”
Já no centro-oeste e sudeste, a principal preocupação é o atraso no início da safra de verão. “As primeiras chuvas podem ocorrer, mas de forma extremamente irregular. Em uma parte da fazenda podem cair 30 milímetros, enquanto outra área permanece seca. Depois disso, pode haver um intervalo longo sem precipitação, insuficiente para garantir uma boa emergência da soja”, explica.
No Matopiba e em parte da região norte, o cenário também aponta para atraso das chuvas. “A expectativa é que precipitações que normalmente começam em outubro sejam deslocadas para novembro ou até dezembro. Isso reduz a janela da primeira safra e pode comprometer também o calendário da segunda cultura”, observa.
Principais impactos esperados nas culturas
Segundo Anderson Haas Poersch, praticamente todas as grandes culturas brasileiras podem sofrer algum tipo de influência do fenômeno climático, seja pelo excesso de chuva, seja pela falta dela ou pelas temperaturas elevadas.
“O principal impacto para o sul está relacionado às culturas de inverno, especialmente trigo, aveia e canola. Já para o centro-oeste e Matopiba, o maior risco está no atraso da semeadura da soja e no encurtamento da janela da segunda safra.”
Para o especialista, a palavra que melhor define o cenário é risco. “Não significa necessariamente que haverá perdas generalizadas, mas existe uma probabilidade maior de problemas, principalmente nas regiões centrais do Brasil.”
Fenômeno deve acompanhar toda a safra de verão
As projeções do INMET indicam que o El Niño deverá atingir seu pico durante a primavera e o início do verão, permanecendo ativo ao longo de toda a safra 2026/27.
“A tendência é que o fenômeno alcance seu máximo na primavera e comece a perder intensidade ao longo do verão, mas nossa expectativa é que ele permaneça atuando até o final dessa estação”, afirma.
Mesmo após o enfraquecimento do aquecimento das águas do Pacífico, os efeitos atmosféricos podem persistir. “Existe um atraso entre o comportamento do oceano e a resposta da atmosfera. Mesmo que o aquecimento diminua, seus impactos ainda podem ser sentidos durante o outono.”

Um dos eventos mais relevantes das últimas décadas
Embora ainda existam incertezas sobre sua intensidade final, os modelos climáticos indicam elevada probabilidade de um evento de moderado a forte. “Os principais modelos internacionais apontam alta chance de termos um El Niño forte ou até muito forte. Mas é importante lembrar que nenhum evento é igual ao outro, pois existem outros fatores climáticos envolvidos, como as condições do Oceano Atlântico”, ressalta.
Segundo Anderson, a combinação desses fatores pode potencializar os impactos sobre a agricultura. “A tendência é de efeitos significativos tanto pelo excesso de chuva na região sul quanto pelos atrasos e irregularidades das precipitações nas áreas centrais do país.”
Monitoramento constante é a principal ferramenta
Diante desse cenário, o meteorologista recomenda que os produtores acompanhem regularmente as previsões climáticas para reduzir riscos e melhorar o planejamento da safra. “O produtor precisa estar sempre atualizado. Hoje o INMET disponibiliza gratuitamente previsões diárias, de médio e de longo prazo, que podem auxiliar na tomada de decisão.”
Segundo ele, a confiabilidade das previsões sazonais vem aumentando. “As projeções de um a três meses têm apresentado desempenho cada vez melhor e já são ferramentas importantes para o planejamento agrícola. As previsões de três a seis meses também evoluíram bastante.”
Para Anderson, conhecer o risco é parte fundamental da estratégia de produção. “Esta deve ser uma safra de risco elevado. O produtor precisa planejar a compra de insumos, avaliar datas de semeadura e ajustar o manejo com base nas informações disponíveis. As previsões não eliminam os riscos, mas ajudam a minimizá-los.”
Principais impactos do El Niño para o agro brasileiro
| Região | Tendência climática | Principais impactos |
| Sul | Excesso de chuvas na primavera | Maior incidência de doenças, dificuldades na colheita e perda da qualidade dos grãos |
| Centro-oeste | Chuvas irregulares e temperaturas elevadas | Atraso da semeadura da soja e aumento do risco produtivo |
| Sudeste | Irregularidade das precipitações | Dificuldade no estabelecimento das lavouras de verão |
| Matopiba | Atraso das chuvas | Redução da janela da soja e da segunda safra |
| Norte | Temperaturas elevadas e chuvas tardias | Maior risco para o calendário agrícola |
Ferramentas recomendadas pelo INMET
| Ferramenta | Benefício |
| Previsões diárias | Planejamento das operações de campo |
| Previsões de 1 a 3 meses | Definição de estratégias para a safra |
| Previsões de 3 a 6 meses | Planejamento de investimentos e aquisição de insumos |
| Monitoramento contínuo | Redução de riscos e ajustes no manejo |
| Informações gratuitas do INMET | Apoio à tomada de decisão do produtor |