Aos 1.300 metros de altitude, em Carmo de Minas, na Mantiqueira de Minas, a Fazenda Santuário Sul nasceu com uma proposta clara: antecipar tendências e experimentar novos caminhos para os cafés brasileiros.
Com 120 hectares de área, sendo 80 hectares plantados, a propriedade reúne variedades tradicionais e exóticas, entre elas Bourbon Amarelo, Bourbon Vermelho e Gesha, além de outras 28 variedades. Os cafés são trabalhados por meio de processos Natural, Fermentado e Honey.
Para Luiz Paulo Dias Pereira Filho, proprietário da fazenda, a proposta nasceu de um desafio que exige planejamento, experimentação e persistência. “A Fazenda Santuário Sul nasceu do objetivo de estar à frente das tendências do mercado. Não é tarefa fácil começar um projeto com a proposta de trazer variedades de café de diferentes regiões do mundo para gerar um novo perfil de café brasileiro. Os cafés cultivados ali são o reflexo da nossa obstinação.”
A busca pelo diferencial
Além das variedades tradicionais brasileiras, como o Bourbon Amarelo, a propriedade reúne mais de 30 variedades exóticas, práticas diferenciadas de cultivo, como a plantação sombreada, e processos inovadores, denominados New Flavors.
A Fazenda Santuário Sul fica ao lado da tradicional Fazenda Irmãs Pereira, onde o café é beneficiado. As variedades cultivadas são monitoradas de perto para avaliar seu comportamento e buscar o melhor resultado dentro das condições climáticas da região.
O próprio Luiz Paulo acompanha as primeiras amostras de cada café, mantendo a avaliação próxima ao processo de produção. “O objetivo é seguir sempre na vanguarda do mercado e oferecer cada vez mais qualidade!”
Eugenioides: raridade que exige dedicação
Entre as experiências da Fazenda Santuário Sul está o cultivo do eugenioides, espécie considerada ancestral do café arábica e marcada pela baixa produtividade e pela elevada dificuldade de cultivo.
Enquanto o café arábica apresenta produtividade média de 50 sacas por hectare, o eugenioides produz apenas entre três e cinco sacas por hectare, conforme as observações apresentadas pelo produtor. A mortalidade das plantas também é elevada, chegando a aproximadamente 30% no plantio.
A baixa produtividade está relacionada, entre outros fatores, ao fato de o eugenioides não possuir melhoramento genético.
Na Fazenda Santuário Sul, são cinco hectares destinados ao cultivo da espécie. O manejo exige acompanhamento constante e cuidados específicos. “Todos os dias vai uma pessoa na lavoura para cuidar. Não podemos deixar entrar praga, porque esse café é realmente muito suscetível a doenças, por ser geneticamente puro e selvagem.”
Para Luiz Paulo, a dificuldade de produção é acompanhada por uma característica que desperta interesse no mercado: a exoticidade da bebida. “Ela traz algo que as pessoas não esperam, e principalmente pela sua raridade, tornando isso especial quando as pessoas vão tomar esses cafés, para celebrar momentos e compartilhar com amigos. Então, o café é especial, mas principalmente porque ele é usado para celebrar momentos especiais.”

Produção baixa, valor elevado
A combinação entre dificuldade de produção, raridade e demanda tem impacto direto na comercialização desses cafés. Segundo Luiz Paulo, existe atualmente uma demanda global por cafés raros superior à oferta disponível.
O eugenioides é um exemplo dessa realidade. De acordo com o produtor, há uma fila de aproximadamente três anos de compradores interessados no café.
A mesma situação ocorre com a Laurina, para a qual já existem contratos com clientes por cinco anos. “Há uma precificação da demanda por cafés raros no mercado global. Esses cafés realmente têm preços elevados exatamente porque a demanda é muito maior do que a oferta.”
Para o produtor, o Brasil reúne condições para ampliar a produção dessas variedades e contribuir para atender à demanda internacional. “E principalmente, Laurina também: já temos contrato com clientes de cinco anos, porque são cafés que estão difíceis de ser produzidos no mundo. Nós aqui no Brasil temos um potencial gigantesco em termos de sustentabilidade e produção, e eu acho que o Brasil tem tudo para tentar produzir esses cafés e suprir o mundo.”
Colheita e pós-colheita preservam a identidade
A produção de cafés raros exige atenção não apenas no campo, mas também durante a colheita e o processamento. A maturação dessas variedades não ocorre de maneira homogênea e a produção é baixa.
Por isso, a colheita precisa ser realizada no momento adequado, buscando preservar o potencial de qualidade dos grãos. “A colheita desses cafés é muito complicada porque a maturação não é homogênea e, principalmente, pela produção baixa. Precisamos colher os grãos no seu principal momento de qualidade para que realmente justifique os preços desse café.”
O processamento no pós-colheita também tem papel importante na preservação das características desses cafés. “O processamento realizado no pós-colheita ajuda a garantir a preservação da identidade genética e o potencial máximo desses cafés.”
Começar pequeno para entender a lavoura
Apesar do potencial dos cafés raros, Luiz Paulo recomenda cautela aos produtores interessados em investir nessas variedades.
Para ele, a adaptação deve ser observada antes de uma expansão significativa do cultivo. A recomendação é iniciar com uma área pequena, acompanhar o comportamento das plantas e avaliar se os resultados produtivos e comerciais compensam os desafios.
“O produtor que quiser trabalhar com esse tipo de variedade tem que plantar pouco e entender realmente o que está fazendo, para que não tenha surpresas na produção e na adaptação dessa variedade na sua fazenda.”
A estratégia é começar com um pequeno jardim de variedades, observar a adaptação e, posteriormente, avaliar a possibilidade de ampliar o cultivo.
Uma trajetória construída na Mantiqueira
Luiz Paulo é produtor de café de quarta geração de uma família tradicional da Mantiqueira de Minas. Além da Fazenda Santuário Sul, está à frente do Sítio Senhor Niquinho e é cofundador da CarmoCoffees, empresa que atua com cafés especiais.

Sua trajetória também está ligada ao desenvolvimento da cafeicultura de qualidade na região. Ao longo dos anos, a família Pereira acumulou resultados expressivos em concursos como o Cup of Excellence.
Entre os resultados destacados estão o 13º lugar conquistado pelo Sítio Senhor Niquinho em 2020, com 88,44 pontos; o 2º lugar obtido pela Fazenda IP em 2021, com 90,14 pontos; e a classificação do Sítio Senhor Niquinho em 2023, com 87,82 pontos. Em 2005, a família alcançou 95,85 pontos.
Luiz Paulo também se tornou uma referência no Cup of Excellence, com 23 vitórias, conquista que lhe rendeu o título de “Legends”.
Mais do que os resultados em concursos, a trajetória está associada à construção de relações comerciais e à valorização dos cafés da Mantiqueira de Minas.
Por meio da CarmoCoffees, Luiz Paulo tem apoiado pequenos e médios produtores da região, com ações relacionadas a práticas sustentáveis, rastreabilidade e acesso direto aos mercados internacionais.
Esse trabalho contribuiu para ampliar a visibilidade dos cafés produzidos em Carmo de Minas e fortalecer o reconhecimento da região no mercado de cafés especiais.
Tradição e inovação caminham juntas
A tradição da produção de cafés especiais em Carmo de Minas e região está relacionada às características da área produtora e à continuidade de práticas transmitidas entre gerações.
A altitude das montanhas, combinada às condições climáticas do Sul de Minas, cria o ambiente em que a cafeicultura se desenvolveu ao longo das gerações. Nas propriedades centenárias e nos projetos mais recentes, técnicas herdadas convivem com novas tecnologias, experimentos e processos de pós-colheita.
Na CarmoCoffees, a busca por inovação está associada à criação de novos padrões e perfis de café, ampliando as possibilidades para produtores e compradores.
Ao mesmo tempo, o trabalho desenvolvido pela empresa também inclui iniciativas voltadas à comunidade. Desde 2014, o projeto social CriaCarmo beneficia mais de 200 crianças de Carmo de Minas, com ações relacionadas ao ambiente escolar, esporte e saúde.
O legado além da xícara
A trajetória de Luiz Paulo reúne produção, experimentação, mercado e desenvolvimento regional. Na Fazenda Santuário Sul, a busca por variedades raras e processos diferenciados amplia o campo de experimentação da cafeicultura brasileira.
O eugenioides representa um dos exemplos mais extremos dessa proposta. De baixa produtividade, elevada suscetibilidade e difícil manejo, a espécie exige dedicação diária, mas também apresenta uma bebida marcada pela exoticidade e pela raridade.
Para o produtor, o futuro passa pela continuidade dessa busca por novos perfis e pela capacidade de transformar experimentação em qualidade.
Na Fazenda Santuário Sul, o trabalho segue apoiado em variedades, processos e manejos diferentes, mantendo como horizonte a construção de cafés capazes de ocupar espaços cada vez mais específicos e valorizados no mercado mundial.
Fotos: Fazenda Santuário Sul