Janaína Marek Bezerra
Engenheira agrônoma, doutora em Agronomia/Produção Vegetal e consultora em Inteligência de Conteúdo Técnico
dra.janainamarek@gmail.com
A safra 2026/2027 de melancia ocorre sob forte influência do El Niño, classificado como “muito forte”, provocando condições climáticas opostas nas diferentes regiões produtoras do país.
Enquanto o sul enfrenta excesso de chuvas, alta umidade e temperaturas mais baixas, o norte e o nordeste convivem com estiagem prolongada e temperaturas que podem superar 40 °C. No Cerrado e Brasil Central, o cenário é marcado por atrasos no retorno da umidade e episódios isolados de calor.
Extremos regionais
| Região | Principais impactos |
| Sul e São Paulo | Excesso de chuva, encharcamento, lixiviação de nutrientes, dificuldade no preparo do solo, doenças e atraso no desenvolvimento |
| Norte e Nordeste | Seca, calor extremo, alta demanda de irrigação, estresse térmico e risco de queima dos frutos |
| Cerrado e Brasil Central | Atraso na regularização da umidade e ocorrência de picos de calor |
Área plantada exige cautela
Apesar da atratividade econômica da cultura, da rápida liquidez e da introdução de híbridos de maior valor comercial, os produtores adotam uma postura mais cautelosa.
No centro-norte, a falta de previsibilidade das chuvas favorece a concentração dos investimentos em áreas com infraestrutura de irrigação. No sul, os custos operacionais, as margens apertadas e os gargalos logísticos podem limitar a expansão ou provocar recuos pontuais.
Energia para bombeamento, fertilizantes, combustíveis e sementes híbridas estão entre os fatores que pesam nas decisões para a nova safra.
Produtividade dependerá da tecnologia
As expectativas de produtividade são bastante diferentes entre áreas afetadas pelos extremos e lavouras irrigadas e tecnificadas.
| Parâmetro | Áreas afetadas pelos extremos | Lavouras irrigadas e tecnificadas |
| Produtividade | Risco de queda por abortamento e doenças | 35 a 45 t/ha |
| Casca | Maior vulnerabilidade a rachaduras | Maior resistência e frutos graúdos |
| Brix | Tendência de redução no Sul | Maior estabilidade com manejo adequado |
No sul, o excesso de umidade favorece doenças como antracnose, míldio e podridões. Já no Norte e Nordeste, seca e calor favorecem mosca-branca e tripes, aumentando o risco de viroses.
Água passa a ser fator estratégico
O manejo da água está diretamente relacionado ao tamanho, qualidade e teor de açúcar dos frutos.
A escassez reduz produtividade, crescimento, pegamento e tamanho final da melancia. O excesso favorece lixiviação de nutrientes, doenças de solo, redução do Brix e rachamento dos frutos.
No norte, a redução dos níveis das bacias hidrográficas pode aumentar a concentração de sais na água de irrigação, elevando o risco de estresse salino. No Sul, o excesso de água compromete a respiração das raízes e exige atenção à escolha da área, ao manejo do solo e à drenagem.
O planejamento apresentado considera uma necessidade de 300 a 500 mm de água por ciclo, com menor demanda no início do cultivo e aumento durante a frutificação, podendo chegar a 25 litros por planta por dia, conforme clima, solo e espaçamento.
Nutrição e manejo fisiológico
Em uma safra de extremos, o pacote tecnológico precisa ser definido antes do plantio. O objetivo passa a ser não apenas produzir mais, mas manter previsibilidade, padrão de frutos e capacidade de comercialização.
Entre as estratégias indicadas estão:
– Híbridos de alta resiliência, com vigor radicular e tolerância a patógenos de solo;
– Adubação de cobertura, especialmente para reposição de nutrientes perdidos por lixiviação;
– Fertirrigação, com atenção a cálcio, boro e potássio;
– Mulching de dupla face, para proteção do fruto e conservação da umidade;
– Manta agrotêxtil, como barreira física inicial contra insetos vetores de viroses;
– Bioestimulantes e biorreguladores, como ferramentas de suporte diante de estresses térmicos e hídricos.
– Extratos de algas, aminoácidos, fosfitos e silício também aparecem entre as estratégias apresentadas para auxiliar a planta em situações de estresse, proteção dos tecidos, manutenção do equilíbrio fisiológico e qualidade dos frutos.
Manejo de acordo com o estresse
| Estresse | Impacto | Estratégia indicada |
| Calor e déficit hídrico | Fechamento estomático, estresse oxidativo e queima solar | Extrato de Ascophyllum nodosum, prolina e silicato de K |
| Hipóxia radicular | Asfixia das raízes e redução da síntese de citocininas | Aminoácidos via foliar e fosfito de K |
| Abortamento | Desbalanço hormonal | Bioestimulantes à base de auxina, citocinina e giberelina |
| Fungos foliares | Maior fragilidade dos tecidos | Fosfitos e indutores de resistência |
| Rachaduras e baixo Brix | Problemas na translocação de Ca | Ca e B complexados com aminoácidos e K |
Planejamento comercial reduz riscos
O equilíbrio hídrico, nutricional e fisiológico busca preservar padrão estético, firmeza de polpa e alto teor de açúcar, características valorizadas pelo mercado. Além do manejo agronômico, a estratégia comercial ganha importância em uma safra de produção irregular.
O escalonamento do plantio, com divisão da área em talhões sequenciais, reduz o risco de concentrar toda a produção em uma única janela. O adensamento pode elevar o rendimento por hectare e diluir custos fixos.
Outra estratégia apontada é o travamento de custos e a comercialização direta, inclusive por meio de contratos prévios de fornecimento, reduzindo a exposição à volatilidade dos preços nos períodos de concentração da oferta.



