O avanço do El Niño, um dos mais intensos das últimas décadas segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), traz um alerta para o agronegócio. O fenômeno, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, pode alterar o regime de chuvas e as temperaturas em diferentes regiões do Brasil, com impactos diretos sobre o calendário agrícola, o manejo do solo e a infraestrutura das propriedades.
Os efeitos, no entanto, não são uniformes. Enquanto algumas áreas do Norte e do Nordeste podem registrar períodos de estiagem, o Sul e o Sudeste estão mais sujeitos ao aumento das chuvas.
As projeções do Painel El Niño, que reúne informações de órgãos como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), indicam aumento do volume de chuvas no Sudeste até novembro deste ano. A expectativa é de normalização das condições climáticas no segundo trimestre de 2027.
Minas Gerais com excesso de chuvas e umidade
Em Minas Gerais, o excesso de chuvas pode prejudicar o solo e dificultar o controle de pragas e doenças. “O período de chuvas causa o encharcamento do solo, erosão, dificuldade para realizar plantios e colheita e a mudança na época de plantio e colheita.
Além disso, o aumento da umidade do ar ocasiona uma situação favorável para aparecimento de doenças em diversos tipos de culturas”, explica o engenheiro florestal Thiago Magalhães Meireles, integrante do Grupo de Trabalho Prevenção e Mitigação de Desastres Hidrológicos do Crea-MG.
Risco climático no planejamento
Para o especialista, o cenário reforça a importância de incorporar o risco climático à gestão da atividade agrícola. “Chuvas extremas podem destruir lavouras, estradas e estruturas de armazenamento. Por isso, é necessário conhecer as áreas mais vulneráveis, monitorar as condições meteorológicas, preparar a infraestrutura e estabelecer estratégias antes da ocorrência do evento”, explica.
“Um evento dessa magnitude, como o El Niño, afeta o país de maneira ampla. Por isso, os agricultores precisam estar atentos às estratégias de mitigação. O desafio não é apenas lidar com a falta ou o excesso de chuva, mas administrar a variabilidade e o risco climático”, pontua Thiago.
Solo: a primeira linha de defesa
A capacidade do solo de absorver e reter água é um dos fatores que podem determinar o impacto de uma temporada de chuvas intensas. Práticas de conservação contribuem para reduzir a erosão, melhorar a estrutura do solo e aumentar sua capacidade de enfrentar períodos de excesso ou falta de água.
Entre as medidas estão a manutenção da cobertura vegetal, o plantio direto, o terraceamento e o aumento da matéria orgânica.
“Essas práticas são importantes para reduzir os impactos na produção agrícola. Quanto mais protegido estiver o solo, menores tendem a ser os problemas provocados pelo excesso de água e pelos processos erosivos”, afirma Thiago.
Água: garantir em um extremo, escoar no outro
O planejamento da água também deve fazer parte da estratégia da propriedade. Sistemas de irrigação, captação de água da chuva e armazenamento aumentam a segurança hídrica em períodos de estiagem.
Já em áreas sujeitas a chuvas intensas, sistemas de drenagem e estruturas de contenção ajudam a reduzir o risco de alagamentos e erosão.
Uma alternativa é diversificar os sistemas de produção. A integração entre lavoura, pecuária e floresta (ILPF) e os sistemas agroflorestais (SAFs), por exemplo, combinam diferentes atividades e espécies na mesma área e podem contribuir para aumentar a resiliência dos sistemas produtivos diante da variabilidade climática.
Infraestrutura preparada para extremos
Os efeitos do clima não se restringem às lavouras. Chuvas intensas podem comprometer estradas rurais, pontes, instalações e estruturas de armazenamento. Em períodos de seca, a disponibilidade de água para a produção e para o abastecimento também se torna um fator crítico.
“É importante que a propriedade rural esteja preparada para esses períodos. Isso envolve projetos de reservatórios, sistemas de captação de água da chuva e estruturas de armazenamento. Nas áreas sujeitas a chuvas extremas, também é necessário investir em drenagem, contenção de erosão, proteção de estradas e adequação das áreas produtivas”, destaca o engenheiro.
