A tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros deve provocar impactos distintos para as exportações de açúcar e etanol do Brasil. Enquanto os embarques de etanol para o mercado norte-americano tendem a ser praticamente interrompidos, as exportações de açúcar devem continuar ocorrendo, porém com redução na rentabilidade das usinas, principalmente nas regiões Norte e Nordeste.
A avaliação é de Murilo Mello, Head de Açúcar nas Américas da Hedgepoint Global Markets, que analisa que os efeitos serão pontuais para o setor sucroenergético brasileiro e pouco relevantes para o abastecimento nacional.
Exportações de etanol devem ser redirecionadas ao mercado interno
Anualmente, o Brasil exporta entre 250 mil e 350 mil metros cúbicos de etanol carburante para os Estados Unidos, combustível utilizado na mistura da gasolina americana.
Segundo Murilo Mello, a nova tarifa reduz a competitividade do produto brasileiro frente a outros fornecedores internacionais, tornando inviáveis as exportações para aquele mercado.
“O fluxo praticamente deixa de existir, pois outros países passam a oferecer o produto em condições mais competitivas”, explica.
Grande parte desse volume é produzida por usinas de Pernambuco e Alagoas, que concentram as vendas para os Estados Unidos. Mesmo assim, o especialista afirma que cerca de 300 mil metros cúbicos poderão ser facilmente absorvidos pelo mercado brasileiro ou destinados a outros países.
A demanda doméstica vem sendo impulsionada pelo crescimento da frota de veículos e pela elevação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina para 32%, reduzindo os impactos sobre a oferta nacional.
“O efeito será muito mais sobre preços do que sobre disponibilidade do combustível”, destaca.
Açúcar perde rentabilidade, mas exportações devem continuar
No caso do açúcar, o impacto está relacionado à cota anual de aproximadamente 150 mil toneladas destinada pelos Estados Unidos ao Brasil.
Essa cota é distribuída às usinas do Norte e Nordeste, permitindo acesso ao mercado americano sem cobrança de imposto de importação, onde os preços costumam ser significativamente superiores aos praticados no mercado internacional.
Com a nova tarifa de 25%, a vantagem econômica diminui.
Apesar disso, Murilo Mello avalia que a exportação continua sendo mais rentável do que vender o produto no mercado interno ou no mercado internacional sem preferência tarifária.
“As exportações dentro da cota devem continuar ocorrendo, mas com margens menores para as usinas nordestinas”, afirma.
Norte e Nordeste concentram os maiores impactos
As usinas dessas regiões operam com custos de produção superiores aos do Centro-Sul devido a fatores como:
- menor produtividade agrícola;
- áreas mais montanhosas;
- menor escala industrial;
- custos fixos mais elevados.
Em contrapartida, contam com vantagens logísticas pela proximidade dos portos e historicamente se beneficiam das cotas preferenciais concedidas pelos Estados Unidos e pela União Europeia.
Segundo o especialista, esses mecanismos compensam parte das diferenças de competitividade enfrentadas pelas usinas nordestinas.
União Europeia pode amenizar perdas
Uma das alternativas apontadas para reduzir os impactos é ampliar as exportações para a União Europeia.
Com o acordo entre Mercosul e União Europeia, foi ampliada a cota de açúcar com preferência tarifária para aproximadamente 180 mil toneladas, volume disputado entre os países do bloco.
Na avaliação da Hedgepoint, o Brasil possui boas condições para ocupar parcela significativa dessa cota, especialmente por meio das usinas do Norte e Nordeste, reduzindo parte das perdas provocadas pelas tarifas americanas.
Mercado brasileiro deve sentir pouco os efeitos
Embora a medida represente perda de rentabilidade para parte das usinas brasileiras, Murilo Mello considera que os impactos sobre o setor sucroenergético nacional serão limitados.
No etanol, o volume exportado para os Estados Unidos representa uma pequena parcela do consumo brasileiro e poderá ser absorvido pelo mercado interno.
Já no açúcar, a cota americana corresponde a um volume relativamente reduzido dentro das exportações brasileiras, concentrando seus efeitos principalmente sobre produtores de Pernambuco, Alagoas e demais estados do Norte e Nordeste.
Segundo o especialista, o principal fator de atenção passa a ser a possibilidade de novas medidas tarifárias por parte do governo norte-americano, que poderiam ampliar os impactos sobre a rentabilidade das exportações brasileiras.


