Um novo mapeamento da produção de cacau na Amazônia identificou 121 mil hectares cultivados nos estados do Pará e Rondônia e detalhou a distribuição territorial da cacauicultura na região. O estudo mostra a expansão da cultura principalmente sobre áreas já alteradas, como pastagens e vegetação secundária, além de apontar diferenças entre os sistemas de produção adotados nos dois estados.
No Pará, os dados foram atualizados para 2024, enquanto Rondônia passou a contar, pela primeira vez, com uma linha de base territorial da cultura. O levantamento combina sensoriamento remoto, imagens de radar, inteligência computacional e auditoria direta em campo.
O cruzamento dos dados com as bases TerraClass e Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), indica que o avanço do cacaueiro na Amazônia ocorre predominantemente em áreas previamente alteradas, e não pela derrubada de floresta nativa.
Produção de cacau na Amazônia será apresentada na ExpoCacau
Os resultados do levantamento serão apresentados em 26 de agosto, durante a ExpoCacau 2026, em Ilhéus (BA). O evento reúne produtores, técnicos, pesquisadores, empresas e organizações ligadas à cadeia produtiva do cacau.
De acordo com o pesquisador Adriano Venturieri, da Embrapa Amazônia Oriental, o estudo parte da importância estratégica da cacauicultura para a Amazônia, tanto pela geração de renda para famílias rurais quanto pelo potencial de recuperação produtiva de áreas anteriormente ocupadas por pastagens degradadas.
A pesquisa também fornece informações para atender às exigências de sustentabilidade e rastreabilidade dos mercados consumidores.
Pará concentra maior área de produção de cacau
A região Norte responde por aproximadamente 50% da produção nacional de cacau, com cerca de 148 mil toneladas em uma safra brasileira próxima de 297 mil toneladas.
O Pará lidera a produção nacional, com aproximadamente 137,5 mil toneladas de amêndoas secas, volume equivalente a 46% do cacau produzido no País e 92% da produção da região Norte.
O estado também concentra a maior área cultivada identificada pelo mapeamento. Em 2024, foram registrados 116.436 hectares de cacau em 61 municípios, contra 87.309 hectares em 2022. O aumento representa crescimento de 33,26%, ou 29.128 hectares adicionais em dois anos.
Entre os principais municípios produtores estão Medicilândia, com 35.203 hectares; Uruará, com 17.024 hectares; Brasil Novo, com 10.162 hectares; Altamira, com 7.301 hectares; e Tomé-Açu, com 6.981 hectares.
Sistemas agroflorestais ganham espaço na cacauicultura
Apesar do crescimento da área cultivada no Pará, o levantamento mostra diferenças importantes entre os sistemas de produção.
Dos 29.128 hectares incorporados à cacauicultura entre 2022 e 2024, 63% foram identificados em sistemas de monocultivo a pleno sol, enquanto 37% estavam em Sistemas Agroflorestais (SAFs), que combinam o cacaueiro com espécies florestais e frutíferas.
Para Venturieri, o predomínio da expansão a pleno sol reforça a necessidade de políticas públicas que estimulem os sistemas agroflorestais, capazes de proporcionar diversificação produtiva e serviços ecossistêmicos.
A cacauicultura paraense também apresenta forte presença da agricultura familiar. O estudo identificou 31.843 áreas produtoras, sendo que 84,65% possuem até cinco hectares e aproximadamente 74,55% estão concentradas em propriedades de até 50 hectares.
Rondônia tem mais de 60% do cacau em sistemas agroflorestais
Em Rondônia, o mapeamento estabeleceu uma linha de base inédita para a produção de cacau na Amazônia, identificando 5.340 hectares cultivados em 51 municípios.
O cenário é diferente do observado no Pará. Em Rondônia, os Sistemas Agroflorestais predominam na cacauicultura. Das áreas antropizadas mapeadas, 62%, equivalentes a 3.310 hectares, são cultivadas em SAFs. Os outros 38%, ou 2.029 hectares, correspondem a cultivos a pleno sol.
A produção rondoniense também é marcada pela agricultura familiar e pela pulverização das áreas cultivadas. Foram identificadas 38.108 áreas, com 75% concentradas em parcelas de até cinco hectares.
Entre os principais municípios produtores estão Jaru, com 832,13 hectares; Porto Velho, com 352,87 hectares; Theobroma, com 305,43 hectares; Ouro Preto do Oeste, com 297,41 hectares; e Mirante da Serra, com 260,28 hectares.
Rondônia é atualmente o segundo maior produtor de cacau da região Norte e o quarto maior do Brasil, com produção estimada em 8,6 mil toneladas de amêndoas. Mesmo com uma área menor que a do Pará, o estado apresenta produtividade média superior a 1.250 quilos por hectare.
Mapeamento combina satélites e validação em campo
Mapear áreas de cacau na Amazônia representa um desafio devido à presença de vegetação densa. Em sistemas sombreados, as copas dos cacaueiros podem apresentar características semelhantes às de florestas nativas e vegetações secundárias nas imagens de satélite.
Para superar essa dificuldade, a equipe desenvolveu uma metodologia que combina dados de diferentes satélites, imagens de radar e imagens de alta resolução espacial.
Imagens com resolução de até 50 centímetros permitiram identificar detalhes do terreno e diferenciar áreas de cacau cultivado a pleno sol daquelas integradas a Sistemas Agroflorestais.
As informações obtidas por sensoriamento remoto foram posteriormente verificadas em campo. A equipe realizou expedições em dez municípios das regiões da Transamazônica e do Nordeste Paraense, além de municípios de Rondônia.
Segundo Venturieri, a integração entre imagens de radar, satélites de alta resolução e validação em campo permitiu gerar informações georreferenciadas com elevada precisão.
Cacau avança sobre áreas já alteradas na Amazônia
Um dos principais resultados do estudo está relacionado à origem das áreas utilizadas pela cacauicultura.
As bases de monitoramento ambiental indicam que 96% das áreas de cacau no Pará e 98% em Rondônia haviam sido desflorestadas antes de 2020, dentro dos parâmetros considerados pela legislação brasileira e pelos critérios internacionais analisados.
O levantamento também apontou que apenas 3,9% do cacau antropizado no Pará e 2% em Rondônia foram implantados em áreas desmatadas após 2021.
Os dados são relevantes diante das exigências do Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento (EUDR), que restringe a entrada de commodities provenientes de áreas desmatadas após 31 de dezembro de 2020.
Nesse contexto, o mapeamento pode contribuir para a gestão de risco e a comprovação da conformidade socioambiental por empresas que participam da cadeia de exportação do cacau.
Cacau pode contribuir para a restauração produtiva
O estudo identificou ainda 11.444 hectares de cacau no Pará e 148,78 hectares em Rondônia cultivados diretamente sob cobertura de florestas nativas utilizadas como sombreamento natural.
Para os pesquisadores, os resultados indicam que a expansão da cacauicultura na Amazônia pode contribuir para recuperar áreas alteradas e gerar renda, desde que ocorra com planejamento territorial e critérios de sustentabilidade.
Além da expansão da área cultivada, o desafio passa a ser garantir que o crescimento da cadeia produtiva ocorra com qualidade territorial, produtividade e capacidade de atender às exigências dos mercados nacionais e internacionais.
Segundo Vitor Stella, do CocoaAction Brasil, conhecer a dinâmica de expansão da cultura permite identificar gargalos e direcionar políticas públicas, investimentos e assistência técnica para as regiões que mais necessitam.
Mapeamento fortalece rastreabilidade da produção de cacau
O relatório técnico “Mapeamento das áreas da cacauicultura nos estados do Pará e Rondônia: implicações para o desenvolvimento territorial” reúne os resultados do levantamento realizado por uma equipe formada por pesquisadores da Embrapa Amazônia Oriental, Universidade Estadual do Pará (Uepa) e Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG).
Além de dimensionar a área cultivada, o trabalho oferece uma visão detalhada da distribuição territorial da produção de cacau na Amazônia, dos sistemas de cultivo e das características das propriedades produtoras.
As informações podem apoiar políticas públicas, assistência técnica, planejamento territorial e estratégias de rastreabilidade, contribuindo para que a expansão da cacauicultura ocorra associada à recuperação de áreas alteradas, à conservação ambiental e à geração de renda para produtores rurais.


