A agricultura digital ganhou uma nova ferramenta para aumentar as chances de sucesso na adoção de tecnologias no campo. Pesquisadores da Embrapa e da Unicamp desenvolveram uma metodologia capaz de avaliar a viabilidade de softwares, hardwares e outras soluções digitais antes mesmo de sua implementação, considerando características da propriedade rural, infraestrutura disponível, perfil do produtor e aspectos econômicos.
O estudo foi desenvolvido no âmbito do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Agricultura Digital (Semear Digital) e publicado em junho de 2026 na revista científica Smart Agricultural Technology.
Agricultura digital exige tecnologias compatíveis com a realidade do campo
Embora sensores, drones, inteligência artificial e sistemas inteligentes avancem rapidamente na agropecuária, nem todas as soluções conseguem ser adotadas pelos produtores.
Segundo a pesquisadora da Embrapa Agricultura Digital, Luciana Romani, a metodologia foi criada para reduzir esse problema.
“A ferramenta apoia a tomada de decisão de produtores rurais, desenvolvedores de tecnologias e investidores. A nota de viabilidade permite avaliar se determinada tecnologia realmente será útil em um contexto agrícola específico”, explica.
A metodologia considera fatores como infraestrutura de conectividade, características geográficas da propriedade, perfil do produtor, habilidades para utilização da tecnologia e viabilidade econômica.
Estudo analisou centenas de pesquisas sobre adoção tecnológica
Para construir o modelo, os pesquisadores realizaram uma ampla revisão científica.
Inicialmente foram analisadas 814 publicações relacionadas à adoção de tecnologias digitais na agricultura, das quais 20 estudos de caso foram aprofundados.
Também foram avaliados dez indicadores nacionais e internacionais utilizados para medir digitalização no agro, incluindo o Índice de Digitalização da Agricultura do Banco Mundial e o Ambitec-Agro, da Embrapa.
Segundo a pesquisadora Thais Dibbern, da Unicamp, a análise mostrou que não existia uma metodologia semelhante à proposta.
Ferramenta amplia critérios de avaliação
Entre os diferenciais da metodologia está a inclusão de variáveis que normalmente não aparecem em avaliações tradicionais.
Além da infraestrutura tecnológica e dos custos, o instrumento considera fatores como:
- relevo da propriedade;
- disponibilidade de conectividade;
- consumo de água;
- geração de resíduos;
- questões jurídicas;
- posse da terra;
- confiança do produtor na tecnologia.
Esses aspectos ajudam a compreender melhor as barreiras que influenciam a adoção de soluções digitais no campo.
Tecnologias da Embrapa validaram a metodologia
A metodologia foi validada por 22 especialistas das áreas de agronomia, engenharia, computação e estatística, que contribuíram para definir os pesos utilizados na escala de avaliação, variando de 1 a 5.
Na etapa prática, o modelo foi aplicado em duas tecnologias desenvolvidas pela Embrapa.
Uma delas foi o aplicativo Aquicultura Certa, destinado à gestão da piscicultura. Nesse caso, a ferramenta recebeu nota 3 na avaliação dos desenvolvedores e nota 4 entre os produtores que utilizavam o sistema.
Segundo os pesquisadores, essa diferença demonstra que os usuários percebem benefícios práticos que nem sempre são considerados durante o desenvolvimento da tecnologia.
O segundo teste envolveu um equipamento capaz de contar automaticamente frutas durante a colheita. Como funciona por Bluetooth e exige pouca infraestrutura, recebeu nota 4 tanto dos desenvolvedores quanto dos usuários, indicando alta viabilidade de adoção.
Ferramenta poderá apoiar inovação e políticas públicas
Atualmente, a metodologia funciona em uma planilha eletrônica, mas os pesquisadores pretendem transformá-la em um aplicativo ou plataforma digital.
Uma nova rodada de validação deverá incorporar critérios adicionais, como facilidade de uso e impactos sobre o bem-estar animal.
Além de orientar produtores e desenvolvedores, a ferramenta poderá apoiar startups na criação de soluções mais aderentes às necessidades do campo e contribuir para políticas públicas voltadas à expansão da conectividade, capacitação técnica e incentivo à transformação digital da agropecuária brasileira.


