Produzir mais com menos já não é suficiente para definir eficiência na pecuária. O avanço da produtividade precisa estar acompanhado de rentabilidade, uso adequado das tecnologias, gestão de custos e riscos e capacidade de produzir uma carne que atenda a mercados de maior valor agregado. Essa é a análise de Rogério Coan, da Coan Consultoria e organizador do Feedlot Summit Brazil 2026, após três dias de debates sobre os rumos da pecuária de corte. O evento foi realizado de 16 a 18 de setembro, em Goiânia, GO, e reuniu 2.054 participantes do Brasil e de países da América do Sul, África do Sul e Austrália.
“Estamos na era de uma pecuária que busca competitividade e rentabilidade”, afirma Coan, justificando que o uso de tecnologia precisa estar estritamente associado ao resultado econômico do sistema e à gestão refinada.

Além disso, Coan ressalta a importância de ter atenção à carne de qualidade, com foco na produção de carne com marmoreio e cobertura de gordura, principalmente para acessar mercados em novos países. “Essa carne vai atender mercados cada vez mais exigentes”, exemplifica sobre o resultado esperado.
Olhos no dinheiro
A busca pela rentabilidade pressiona ainda mais a forma de administrar o negócio. Tanto que o primeiro dia do Feedlot Summit Brazil 2026 foi dedicado à análise do mercado e de seu impacto no negócio pecuário.
Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador do Esalq/Cepea afirma que há muitos desafios a serem monitorados por ser um ano de maior volatilidade. “Não se deve deixar de investir, mas ficar atento a essas movimentações e usar ferramentas para proteger seu patrimônio, principalmente o preço do boi gordo”, afirma.
Mauricio Palma Nogueira, da Attenagro, alerta para a qualidade das decisões. “Temos muita desinformação e proposta do produtor reduzir pacote tecnológico, sendo que o mais importante é ele buscar soluções mais sofisticadas e focar na gestão”, analisou, com base em números da série histórica revisitada.
Ele disse que a pecuária deve fechar o ano com “46% dos animais consumindo mais de 1% do peso vivo em concentrado. Quem não estiver fazendo o pacote tecnológico proporcional corre risco”.
Precisão dentro da porteira
Outro ponto discutido foi a mudança na forma de conduzir a recria. Flávio Dutra Rezende, da APTA, contestou a ideia de que ganhos elevados de peso nessa fase necessariamente resultem em animais com deposição precoce de gordura.
Segundo ele, recrias mais intensivas, com ajuste da dieta às exigências dos animais, podem ampliar musculatura e área de olho de lombo sem aumentar a gordura subcutânea. “A recria hoje exige investimento em nutrição, genética e manejo de pasto”, afirmou. Segundo ele, interromper o ganho de peso nesse período significa deixar de aproveitar parte do potencial construído nas etapas anteriores.
O tema alimentação ocupou espaço importante. Paulo Prohmann questionou a resistência de produtores à produção de volumoso e defendeu que a análise não fique limitada ao menor custo imediato. “O pasto é mais barato, mas a pergunta é: onde eu ganho mais?”, afirmou. Para ele, produzir volumoso com eficiência oferece suporte ao manejo das pastagens e maior segurança ao sistema, principalmente diante de eventos climáticos extremos.
Sua apresentação contou com o case de sucesso da fazenda Mater, apresentado por Rafaela Sutiro, zootecnista e sucessora da fazenda. “Falamos como a implantação de tecnologia agrega valor no ciclo completo”, afirmou Rafaela sobre a pressão regional por lucratividade, já que as terras são disputadas pela cultura do eucalipto.
A saúde animal foi abordada de forma preventiva por Iveraldo Dutra, da Unesp de Jaboticabal, SP. De forma prática, alertou para a necessidade de parar de aceitar “morte súbita” como diagnóstico. Dutra chamou atenção para causas que acabam sendo atribuídas automaticamente a cobra, plantas tóxicas ou enterotoxemia, enquanto, nos confinamentos, a acidose ruminal e o timpanismo aparecem entre as causas importantes.
Para reduzir perdas, a orientação é registrar quando o animal morreu, o horário e as condições do trato, o histórico alimentar e realizar a necropsia rapidamente, com coleta adequada de material. “Se eu quero resolver o problema, eu tenho que conhecer o problema”, resumiu.
A edição de 2026 contou ainda com palestrantes da África do Sul, Estados Unidos, Canadá e Argentina, que trouxeram a experiência técnica de seus países. Por exemplo, Conrad Coetzer, consultor internacional da África do Sul, abordou a biossegurança e a importância da proteção dos rebanhos. Também enfatizou a importância do uso de tecnologia, pois “temos que produzir mais carne bovina no futuro para a população em crescimento”, afirmou.
O Feedlot Summit contou com outras palestras de especialistas da pecuária, que trouxeram seu enfoque para a eficiência aplicada ao negócio pecuário e trataram de métricas para maior margem de lucro, com Antonio Chaker, do Instituto Inttegra, e liderança em movimento, com Junior Fernandes, da Grama Pecuária Eficiente.
O Feedlot Summit já está confirmado para setembro de 2027 e passa a ser pensado desde já. Para Rogério Coan, o próximo movimento dessa transformação da pecuária passará pela velocidade das decisões. Até 2030, ele projeta maior presença de inteligência artificial, machine learning e automação na rotina das propriedades.


