O agronegócio baiano é um dos mais dinâmicos do Brasil, mas ainda enfrenta desafios para transformar sua força produtiva em desenvolvimento econômico local. Um estudo conduzido pela urbanista e pesquisadora Carlla Brito Furlan Pourre, da Universidade de Brasília (UnB), mostra que municípios agrícolas da Bahia podem ampliar significativamente a geração de renda, empregos e qualidade de vida ao fortalecer cadeias produtivas e atrair indústrias de processamento.
A pesquisa foi aplicada em Baianópolis, município localizado no oeste baiano e inserido na região do Matopiba, considerada uma das principais fronteiras agrícolas do país. O diagnóstico revelou que, apesar da expressiva produção de soja e milho, apenas 20% da cadeia produtiva dessas culturas está estruturada localmente, devido à ausência de indústrias e serviços especializados.
Agronegócio baiano ainda perde oportunidades de agregar valor
Segundo o levantamento, grande parte da riqueza gerada pela produção agrícola deixa o município sem passar por processos de industrialização. Essa limitação reduz a criação de empregos, dificulta a retenção de renda e contribui para a migração de trabalhadores para centros urbanos maiores.
A pesquisadora defende que o planejamento urbano deve ser construído a partir das vocações econômicas locais, conectando infraestrutura, serviços públicos e investimentos privados ao potencial produtivo de cada região.
“A tese propõe um modelo de desenvolvimento baseado em cadeias de negócios, no qual o planejamento urbano deixa de ser pensado apenas como desenho urbano e passa a ser articulado à dinâmica econômica local”, explica Carlla Pourre.
Agronegócio baiano pode multiplicar investimentos
Como estudo de caso, a pesquisa simulou a instalação de uma indústria esmagadora de soja em Baianópolis, com investimento estimado em R$ 20 milhões.
Os resultados indicaram potencial para gerar aproximadamente R$ 48 milhões em movimentação econômica local, equivalente a um retorno de até 2,4 vezes o valor investido. A projeção aponta ainda a criação de cerca de 285 empregos diretos, indiretos e induzidos, além da geração de aproximadamente R$ 8 milhões em renda anual.
Com a implantação da indústria, a participação local na cadeia produtiva da soja e do milho passaria de 20% para 41%, incorporando novos serviços, negócios e oportunidades econômicas.
Planejamento urbano precisa acompanhar o crescimento do agro
A pesquisadora destaca que a maioria dos instrumentos de planejamento urbano existentes foi criada para grandes centros e não atende às necessidades dos pequenos municípios brasileiros.
Dados do IBGE mostram que cerca de 70% dos municípios do país possuem menos de 20 mil habitantes. Para Carlla Pourre, essas cidades precisam de modelos específicos que combinem recursos públicos, investimentos privados, financiamento ao desenvolvimento e fundos multilaterais.
Segundo ela, o planejamento orientado por cadeias produtivas permite alinhar desenvolvimento econômico e urbano, criando condições para ampliar a oferta de empregos, fortalecer o comércio local e melhorar a qualidade de vida da população.
Modelo pode servir de referência para outras regiões agrícolas
A pesquisa conclui que municípios localizados em polos agrícolas têm potencial para aproveitar melhor suas vocações econômicas por meio da industrialização e da integração entre planejamento urbano e desenvolvimento regional.
Para a autora, o modelo pode servir como referência para cidades que buscam atrair investimentos, reduzir desigualdades e construir estratégias sustentáveis de crescimento, especialmente em regiões onde o agronegócio exerce papel central na economia.