Pesquisa identifica impressão digital química para rastrear a origem do pescado

Estudo utilizou ressonância magnética nuclear e metabolômica para identificar biomarcadores químicos da tainha, ampliando a rastreabilidade, a segurança alimentar e o valor do pescado brasileiro.

Publicado em 19 de agosto de 2026 às 06h53

Última atualização em 25 de agosto de 2026 às 13h17

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Uma pesquisa conduzida por cientistas da Embrapa e instituições parceiras identificou uma espécie de impressão digital química capaz de determinar a origem do pescado a partir de pequenas moléculas presentes no músculo da tainha (Mugil liza). A descoberta representa um avanço para a rastreabilidade do pescado, permitindo autenticar a procedência dos peixes, combater fraudes comerciais e agregar valor aos produtos da cadeia pesqueira brasileira.

O estudo utilizou a combinação de ressonância magnética nuclear (RMN) e metabolômica para identificar biomarcadores químicos capazes de diferenciar tainhas capturadas em diferentes regiões do Brasil. Os resultados foram publicados na revista científica Fishes.

Rastreabilidade do pescado ganha precisão com assinatura química

Os pesquisadores analisaram peixes provenientes da Lagoa de Araruama (RJ), da Baía de Sepetiba (RJ) e do litoral de Santa Catarina. A combinação entre a RMN de Hidrogênio e a metabolômica permitiu identificar diferenças na composição química do músculo relacionadas ao ambiente, à salinidade, ao estado fisiológico e à alimentação dos animais.

Segundo a pesquisadora Fabíola Fogaça, o perfil metabólico funciona como uma verdadeira assinatura química, capaz de indicar com precisão a origem geográfica do pescado e oferecer uma ferramenta inovadora para autenticação e rastreabilidade.

Tecnologia identifica biomarcadores exclusivos da tainha

Para chegar aos resultados, os cientistas analisaram amostras coletadas em diferentes épocas do ano utilizando equipamentos de alta resolução. O trabalho identificou 23 compostos químicos naturais presentes no músculo das tainhas, incluindo lactato, creatina, taurina e diversos aminoácidos relacionados ao metabolismo dos peixes.

Os testes estatísticos confirmaram que peixes capturados em diferentes regiões apresentam perfis metabólicos distintos. Além disso, fatores como tamanho dos animais e sazonalidade tiveram pouca influência sobre a assinatura química, aumentando a confiabilidade da metodologia.

Lagoa de Araruama apresenta assinatura química exclusiva

Um dos principais resultados da pesquisa foi a identificação de uma assinatura metabólica característica das tainhas da Lagoa de Araruama, no Rio de Janeiro. A elevada salinidade da lagoa provoca adaptações fisiológicas específicas nos peixes, deixando marcas bioquímicas detectáveis por meio da ressonância magnética nuclear.

Essa característica poderá servir como base técnica para um pedido de Indicação Geográfica (IG) da tainha da Lagoa de Araruama junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), fortalecendo a valorização do produto regional.

Pesquisa pode combater fraudes e fortalecer o mercado do pescado

Além do avanço científico, a tecnologia possui aplicação direta no setor pesqueiro. Os pesquisadores afirmam que a identificação da origem geográfica pode contribuir para combater fraudes comerciais, substituição de espécies e falsificação da procedência de pescados comercializados no mercado brasileiro.

O estudo também incorporou ferramentas de inteligência artificial na análise dos dados, demonstrando o potencial da integração entre metabolômica, ressonância magnética e ciência de dados para ampliar a segurança alimentar e fortalecer os sistemas de certificação de origem.

Ressonância magnética amplia aplicações no agronegócio

Embora seja conhecida principalmente pelos exames médicos, a ressonância magnética nuclear também é utilizada há décadas para análises químicas de alimentos. Na pesquisa com tainhas, a tecnologia permitiu identificar dezenas de compostos em uma única análise, oferecendo uma ferramenta altamente precisa para estudos de autenticidade, metabolômica e rastreabilidade de alimentos.

Os resultados estão publicados no artigo Application of Magnetic Resonance Tools for Qualification and Traceability of Mullets, no periódico científico internacional Fishes. O estudo foi conduzido pelos pesquisadores Fabíola Fogaça, da Embrapa Agroindústria de Alimentos (RJ), e Luiz Colnago, da Embrapa Instrumentação (SP), em parceria com cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). O apoio financeiro é da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

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