A expansão da cacauicultura para novas regiões e a valorização do produto no mercado aumentam a necessidade de profissionalização da atividade.
Para o professor George Andrade Sodré, da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), o primeiro passo para elevar a produtividade é deixar de buscar soluções isoladas e começar pelo diagnóstico da lavoura.
“O consultor deve ser um bom fazedor de diagnóstico. É como o médico clínico. Ou você sabe fazer um bom diagnóstico ou não vai conseguir chegar a um entendimento do que se passa com aquele paciente”, afirma.
Segundo o pesquisador, essa avaliação deve considerar solo, plantas, sombreamento, produtividade, doenças, disponibilidade de água e histórico da área. A partir daí, é possível definir se o caminho é recuperar o cacaual, fazer adensamento ou implantar uma nova área.
Nutrição ganha importância
Durante muito tempo, a adubação não esteve entre as principais preocupações dos produtores de cacau, especialmente em regiões de solos férteis e sistemas tradicionais como a cabruca.
Com a expansão da cultura para áreas de menor fertilidade, porém, a nutrição passou a ter papel decisivo. “O cacau responde à adubação foliar, o cacau responde à adubação de solo”, destaca Sodré.
O potássio merece atenção especial. Segundo o professor, a cultura apresenta elevada demanda pelo nutriente, e a análise de solo e de folhas é fundamental para identificar deficiências e ajustar o manejo. Zinco, cobre e manganês também podem limitar o desenvolvimento em determinadas regiões.
A recomendação é realizar análises de solo desde a implantação, considerando diferentes profundidades, e complementar o diagnóstico com análise foliar. O equilíbrio nutricional também contribui para que a planta expresse melhor características relacionadas à resistência a estresses e doenças.
Adensamento exige planejamento
Em cacauais antigos e degradados, o adensamento pode ser uma alternativa, mas não deve ser feito simplesmente aumentando o número de plantas. “Não tenha medo de adensamento, mas é preciso saber fazer o adensamento”, orienta.
A condição da área deve ser avaliada antes da decisão. Cacauais excessivamente sombreados, com baixa população de plantas ou instalados em solos inadequados podem não responder ao investimento.
Para o professor, áreas já antropizadas próximas às cabrucas podem representar uma oportunidade de implantação de novos plantios, sem necessidade de substituir o sistema tradicional. “Ao lado da cabruca, você faz um plantio novo e salva a cabruca”, resume.
A escolha dos materiais genéticos também é decisiva. Sodré defende maior utilização de clones produtivos e de mudas produzidas por estaquia, especialmente em sistemas adensados.

professor da UESC
Irrigação pode mudar o patamar produtivo
A irrigação é outra ferramenta capaz de ampliar o potencial da cultura, principalmente em regiões onde a disponibilidade hídrica limita a produção. Porém, o professor alerta que irrigar não significa apenas instalar equipamentos. “Irrigação é uma sofisticação do processo”, afirma.
A disponibilidade e a qualidade da água, a infraestrutura, a topografia, a legislação e o conhecimento técnico do produtor precisam ser considerados. O sistema também deve estar associado ao manejo nutricional, permitindo a aplicação de nutrientes por meio da água.
A estratégia pode ser ainda utilizada para sincronizar a floração em determinadas condições, submetendo a planta a um período controlado de estresse hídrico e retomando posteriormente o fornecimento de água.
Sodré também destaca a possibilidade de utilizar culturas de ciclo mais curto, como banana, mamão ou mandioca, durante a implantação de novas áreas irrigadas de cacau. A receita dessas culturas pode ajudar a custear parte do investimento inicial.
Mecanização é caminho sem volta
Para o professor, a modernização da cacauicultura também passa pela mecanização. Operações como roçagem, poda, pulverização com drones e quebra dos frutos já podem ser realizadas com diferentes níveis de tecnologia. “O futuro da cacauicultura não pode ser pensado sem mecanização e sem inteligência artificial”, avalia.
O compartilhamento de equipamentos por associações e cooperativas pode ser uma alternativa para reduzir custos, especialmente no caso de máquinas utilizadas apenas em determinados períodos do ano.
Qualidade também depende do solo
A nutrição pode influenciar características relacionadas à qualidade das amêndoas. Pesquisas citadas pelo professor mostram diferenças na composição química de um mesmo clone quando cultivado em diferentes tipos de solo.
Isso abre espaço para uma abordagem semelhante ao conceito de terroir, considerando a interação entre genética, solo e clima. Para acessar mercados de cacau fino, entretanto, a qualidade começa antes da pós-colheita. É necessário colher frutos maduros, realizar a quebra no momento adequado, conduzir corretamente a fermentação e fazer uma secagem cuidadosa.
Sodré ressalta que o cacau fino pode ser produzido também fora das áreas tradicionais, desde que o ambiente e o sistema de cultivo sejam adequados.
Gestão é o ponto de partida
Mais do que investir indiscriminadamente, o produtor precisa conhecer os custos, a produtividade e a rentabilidade de cada área. “Você falou a primeira palavra que talvez seja fundamental: a gestão. Saber quanto ele ganha e quanto ele gasta”, destaca.
Esse controle permite identificar quais áreas merecem investimento e quais precisam ser substituídas ou destinadas a outras finalidades. Também ajuda o produtor a tomar decisões mais seguras diante da forte oscilação dos preços do cacau.
Para Sodré, a modernização da atividade passa por um conjunto de ações: diagnóstico, gestão, nutrição, adensamento, genética, irrigação, mecanização e aproveitamento dos resíduos.
Novos produtores para uma nova cacauicultura
Outro desafio apontado pelo professor é a formação de uma nova geração de cacauicultores. A sucessão rural e a capacitação de jovens são fundamentais para incorporar tecnologias e garantir a continuidade da atividade.
“É preciso que uma nova geração de cacauicultores passe a existir, como existe cafeicultor”, defende. Nesse processo, ferramentas digitais e inteligência artificial podem aproximar os jovens da produção e facilitar o acesso a informações técnicas.
O aproveitamento dos resíduos também integra essa agenda. Para cada tonelada de amêndoas secas produzida, são geradas várias toneladas de resíduos, especialmente cascas. Transformar esse material em matéria orgânica, além de explorar produtos como polpa, mel e outros subprodutos, amplia a sustentabilidade e as possibilidades de renda.
Para o professor, o caminho para uma cacauicultura mais competitiva não está em uma única tecnologia, mas na combinação de diferentes estratégias. “Adensamento, mecanização, clones adequados, mudas de qualidade, uso de resíduos e formação de novas lideranças e novos produtores de cacau. Esses são os desafios para a inovação da cacauicultura.”
PONTOS-CHAVE PARA PROFISSIONALIZAR O CACAU
| Estratégia | Objetivo |
| Diagnóstico | Identificar as reais limitações da área |
| Análise de solo e folha | Ajustar a nutrição |
| Clones produtivos | Ampliar potencial e uniformidade |
| Adensamento | Aumentar a produtividade por área |
| Irrigação e fertirrigação | Reduzir limitações hídricas e melhorar o manejo |
| Mecanização | Reduzir custos e aumentar eficiência |
| Cacau fino | Agregar valor pela qualidade |
| Gestão | Conhecer custos, produtividade e rentabilidade |
| Aproveitamento de resíduos | Aumentar sustentabilidade e gerar novos produtos |
| Formação de jovens | Garantir renovação e modernização da atividade |