A expansão da cacauicultura na Amazônia tem nos Sistemas Agroflorestais (SAFs) uma alternativa para conciliar produção, geração de renda e conservação ambiental. Ao associar o cacaueiro a espécies agrícolas e florestais, o sistema reproduz processos observados na própria floresta, como a ciclagem de nutrientes e a formação contínua de biomassa.
Para Osvaldo Kato, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, os SAFs são sistemas de uso da terra que associam cultivos agrícolas a espécies florestais, podendo também envolver animais. No caso do cacau, essa lógica tem relação direta com a origem da cultura.
“O cacau é uma espécie nativa nossa, onde normalmente ele está sob o sub-bosque dessas florestas. Então, isso leva à observação de que, para o sistema produtivo, ele necessita de um pouco de sombra para ter mais eficiência de produção”, explica.
A floresta como referência
A dinâmica dos SAFs busca reproduzir alguns dos processos naturais das florestas. Mesmo em solos de baixa fertilidade natural, a vegetação mantém sua produtividade por meio da ciclagem de nutrientes. Folhas, galhos e frutos caem sobre o solo, entram em decomposição e devolvem nutrientes ao sistema.
Segundo Kato, essa lógica pode ser aplicada aos cultivos agroflorestais. A biomassa produzida pelo cacaueiro e pelas espécies associadas forma uma camada de matéria orgânica sobre o solo, que passa pelo processo de decomposição e contribui para a disponibilização de nutrientes.
“A matéria orgânica que você está adicionando vai ativar a parte biológica do solo. Todo o processo de decomposição envolve um processo biológico para disponibilizar esses nutrientes, com muito carbono incorporado no solo”, destaca.
Nesse contexto, o solo deve ser compreendido como um sistema vivo. A diversidade de espécies contribui para a produção contínua de biomassa, enquanto a decomposição desse material favorece a atividade biológica e a ciclagem de nutrientes.

Produção em diferentes momentos
Uma das características dos SAFs é a possibilidade de organizar a implantação de forma escalonada, utilizando espécies com diferentes ciclos de produção. De acordo com Kato, cultivos anuais, como milho, feijão e mandioca, podem ser introduzidos inicialmente.
Depois, entram espécies semipermanentes, como maracujá, pimenta-do-reino e banana, enquanto as espécies permanentes, como o cacau e as florestais, passam a compor a estrutura definitiva do sistema.
“A ideia é essa introdução, essa implantação do sistema agroflorestal, pensando numa sucessão de cultivos anuais, semipermanentes e as permanentes, definitivas do sistema agroflorestal”, explica.
Essa sucessão permite que o produtor tenha fontes de produção durante diferentes fases de implantação do sistema. A diversificação também pode ser planejada para que as espécies apresentem períodos de safra distintos, ampliando a possibilidade de geração de renda ao longo do ano.
Para a agricultura familiar, essa característica ganha ainda mais importância por contribuir para a segurança alimentar e para a manutenção de receitas dentro da propriedade enquanto as culturas permanentes ainda estão em formação.
Diversificação também é estratégia econômica
Na avaliação de Adriano Venturieri, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, a diversificação dos SAFs é importante não apenas sob o ponto de vista ambiental, mas também econômico.
O consórcio entre culturas com mercados consolidados, como cacau e açaí, pode proporcionar fluxo de caixa e geração de renda em diferentes períodos do ano. Essa combinação também reduz a dependência do produtor em relação ao calendário e ao preço de uma única cultura.
A existência de outra fonte de renda pode ainda dar maior capacidade de negociação ao produtor de cacau. Em períodos de queda nos preços das amêndoas, por exemplo, a renda proveniente de outra cultura pode reduzir a necessidade de venda imediata da produção.
A diversificação também funciona como uma estratégia diante das mudanças climáticas. Como as espécies apresentam diferentes níveis de resistência e resiliência a períodos de seca ou de chuvas intensas, a combinação de culturas aumenta as possibilidades de manutenção da produção e da renda.
Cacau ocupa espaço na recuperação de áreas
O avanço da cacauicultura no Pará também está relacionado à utilização de áreas já alteradas. Segundo Venturieri, a ocupação da terra na Amazônia foi intensificada a partir da década de 1970, com a expansão da pecuária extensiva.
Por ser uma espécie nativa e adaptada ao ambiente amazônico, o cacau passou a ocupar parte dessas áreas anteriormente utilizadas por outras atividades.
“O cacau é uma planta nativa da Amazônia e apresenta excelente adaptação ao nosso ambiente. Nos últimos anos, os produtores têm se aproveitado justamente dessas áreas já desmatadas por outras atividades para promover a recuperação do solo por meio de cultivos perenes, como o cacau”, afirma.
Em áreas com cobertura vegetal, o cultivo contribui para a reincorporação de matéria orgânica, a melhoria da estrutura do solo, a proteção dos recursos hídricos e a recuperação da paisagem.
Venturieri destaca ainda que cerca de 10% das áreas identificadas com cacau funcionam como mantenedoras de fragmentos florestais por meio do cultivo sombreado, associando geração de renda e conservação da biodiversidade.

Pará mantém forte presença dos SAFs
O Pará consolidou historicamente um modelo de produção baseado em sistemas agroflorestais, tendo como referência a tradição de Tomé-Açu. Segundo os mapeamentos citados por Venturieri, cerca de 85% da produção de cacau do estado permanece inserida em SAFs.
Em 2024, foram mapeados aproximadamente 116 mil hectares cultivados com cacau, distribuídos em 61 municípios. Em relação ao levantamento de 2022, houve aumento de 33,26% na área cultivada.
Apesar da predominância dos SAFs, o perfil das novas áreas apresenta mudanças. Cerca de 60% das novas áreas implantadas, principalmente na região da Transamazônica, correspondem ao cultivo a pleno sol, modelo que representa aproximadamente 15% da área produtiva total do estado.
Outro dado relevante é o perfil dos produtores. Cerca de 85% das lavouras de cacau mapeadas no Pará estão em áreas de até cinco hectares, reforçando a relação da cultura com a agricultura familiar.
Conservação e desmatamento evitado
A diversificação dos SAFs também pode prolongar o período de utilização produtiva de uma mesma área. Kato explica que, quando o produtor trabalha com uma sequência de culturas anuais, semipermanentes e permanentes, pode manter a área produtiva por décadas, dependendo das espécies utilizadas.
“Quando você passa a produzir uma sequência naquela mesma área, produzindo estas anuais, depois semipermanentes e as permanentes, você pode durar 10, 20, 30 anos naquele solo produzindo, até mais”, afirma.
A permanência da produção reduz a necessidade de abertura de novas áreas. Com isso, áreas anteriormente utilizadas podem entrar em processo de regeneração natural, permitindo a recuperação da vegetação secundária e de áreas alteradas ou degradadas.

Para o pesquisador, esse é um dos efeitos ambientais importantes dos sistemas agroflorestais: além de conservar a biodiversidade dentro do próprio sistema, eles podem contribuir para evitar novos desmatamentos.
Carbono e mudanças climáticas
Outro benefício apontado por Kato está relacionado à redução das emissões e ao acúmulo de carbono. O pesquisador defende o aproveitamento da biomassa disponível, evitando o uso do fogo no preparo das áreas e utilizando a vegetação secundária como cobertura do solo e fonte de matéria orgânica.
Nos SAFs, parte do carbono permanece armazenada na biomassa da vegetação, nas raízes e na matéria orgânica incorporada ao solo. “Você vê que é um sistema que reduz emissões, pode reduzir emissões, e vai acumular mais carbono”, ressalta Kato.
Para ele, esse conjunto de características faz dos sistemas agroflorestais uma alternativa relevante diante das mudanças climáticas, tanto pela possibilidade de acumular carbono quanto pela capacidade de recuperar áreas alteradas.
Os desafios para avançar
Apesar das vantagens, a expansão da cacauicultura na Amazônia enfrenta gargalos importantes. Venturieri destaca a logística como um dos principais desafios, especialmente em razão das condições das estradas e da necessidade de transporte refrigerado, o que pode tornar mais econômico enviar as amêndoas para centros como Bahia e São Paulo do que realizar o processamento local.
A mão de obra também é um ponto crítico. O manejo de SAFs exige trabalho contínuo ao longo do ano, em um cenário marcado pelo envelhecimento da população rural e pela dificuldade de retenção dos jovens no campo.
Somam-se a esses fatores as deficiências de infraestrutura básica, como o fornecimento estável de energia elétrica para conservação e processamento, além da necessidade de políticas mais amplas para agregação de valor e indicação geográfica dos produtos amazônicos.
Para Venturieri, a expansão da cultura deve priorizar áreas já desmatadas e alteradas até 2020, estratégia que contribui para a conformidade ambiental e reduz barreiras legais e comerciais em mercados exigentes.
O pesquisador também recomenda sistemas agroflorestais consorciados com culturas de alta liquidez e investimentos em tecnologia para otimizar a mão de obra, aumentar a eficiência e tornar a atividade mais atrativa para a sucessão familiar.
Um sistema que olha para o futuro
Os SAFs oferecem ao cacau uma estrutura produtiva que combina diversidade, permanência e aproveitamento dos processos naturais. Para Kato, a lógica está justamente em observar o funcionamento da floresta e incorporar esses princípios à produção agrícola.
A combinação entre cacau, espécies agrícolas e florestais permite distribuir a produção ao longo do tempo, melhorar o aproveitamento dos recursos da propriedade, favorecer a ciclagem de nutrientes e reduzir a pressão pela abertura de novas áreas.
Na visão de Venturieri, a expansão planejada do cacau em áreas já alteradas, associada à diversificação produtiva e ao uso de tecnologia, pode fortalecer uma cacauicultura mais eficiente e ambientalmente responsável na Amazônia.
PONTOS-CHAVE DOS SISTEMAS AGROFLORESTAIS COM CACAU
| Estratégia | Contribuição |
| Diversificação de espécies | Distribui produção e renda ao longo do ano |
| Ciclagem de nutrientes | Aproveita a biomassa e favorece a atividade biológica do solo |
| Cultivo sombreado | Reproduz condições próximas ao ambiente natural do cacaueiro |
| Uso de áreas alteradas | Contribui para a recuperação de áreas anteriormente desmatadas |
| Permanência do cultivo | Reduz a necessidade de abertura de novas áreas |
| Consórcio com culturas de mercado | Amplia o fluxo de caixa e a segurança econômica |
| Acúmulo de biomassa | Contribui para o armazenamento de carbono |
| Tecnologia e mecanização | Podem aumentar a eficiência diante da escassez de mão de obra |