Os eventos climáticos extremos têm se tornado cada vez mais frequentes na agricultura brasileira, impondo novos desafios aos produtores de milho e sorgo. Longos períodos de estiagem, ondas de calor e chuvas excessivas comprometem o desenvolvimento das plantas e elevam os riscos econômicos da atividade.
Segundo Mariela Mattos da Silva, pesquisadora da Embrapa Milho e Sorgo, a combinação entre seca prolongada e altas temperaturas é especialmente prejudicial durante o florescimento e o enchimento dos grãos.
“Sob déficit hídrico, a planta reduz a abertura dos estômatos para diminuir a perda de água, mas isso também limita a entrada de CO₂, reduz a fotossíntese e a produção de assimilados destinados à formação dos grãos”, explica.
A pesquisadora afirma que a menor transpiração também reduz a capacidade de resfriamento das folhas, elevando a temperatura foliar e intensificando danos metabólicos.
No milho, o florescimento é uma das fases mais sensíveis. “A seca e o calor podem reduzir a viabilidade do pólen, prejudicar a emissão e a receptividade dos estilos-estigmas e aumentar o intervalo entre o florescimento masculino e feminino, provocando falhas de polinização e redução do número de grãos por espiga”, afirma.
Onde entra o sorgo
O sorgo apresenta maior rusticidade graças ao sistema radicular profundo, melhor regulação estomática, ajuste osmótico e à característica stay-green em alguns materiais.
“O sorgo possui sistema radicular mais profundo e eficiente, melhor regulação estomática, capacidade de ajuste osmótico e, em alguns materiais, a característica stay-green, que mantém a área foliar verde por mais tempo”, destaca Mariela.
Mesmo assim, a pesquisadora ressalta que a cultura também sofre perdas durante períodos críticos de seca. “Há redução no número de grãos por panícula, antecipação da senescência foliar e comprometimento do enchimento dos grãos.”

O excesso de umidade também representa uma ameaça importante. “A hipóxia compromete a respiração radicular, reduz o crescimento das raízes e limita a absorção de água e nutrientes. Mesmo com água em excesso, a planta pode apresentar sintomas típicos de estresse”, explica.
Segundo Mariela, tanto seca quanto excesso de água afetam processos essenciais como fotossíntese, crescimento radicular, polinização e enchimento dos grãos.
Sorgo se consolida como ferramenta de gestão de risco
Para Flávio Tardin, pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo, o sorgo vem se consolidando como uma alternativa estratégica diante das mudanças climáticas. “Ele não concorre com o milho, mas atua como aliado essencial em áreas ou janelas de plantio de maior risco.”
Segundo o pesquisador, três fatores sustentam esse crescimento. “O sorgo possui mecanismos fisiológicos eficientes para suportar o estresse hídrico, como a cutícula foliar cerosa e um sistema radicular profundo.”
Outro diferencial é sua capacidade de interromper temporariamente o desenvolvimento durante períodos de seca. “Diferentemente de outras culturas, o sorgo consegue paralisar seu crescimento durante o estresse e retomá-lo quando as chuvas retornam.”
Além disso, o custo de implantação é menor. “O produtor reduz sua exposição financeira, mantém cobertura do solo, produz palhada para o plantio direto e garante liquidez comercial.”
Para as próximas safras, Tardin recomenda três pilares:
– Em vez de apostar em um único híbrido, a recomendação é diversificar os materiais.
– O escalonamento do plantio reduz a chance de que um único evento climático comprometa toda a produção.
– É indispensável investir em correção e adubação do solo e manter uma boa palhada no Sistema Plantio Direto.
Ele reforça ainda a importância do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC).

Solo saudável aumenta a resiliência das lavouras
A construção de solos mais resilientes é apontada como uma das principais estratégias de adaptação às mudanças climáticas.
Para Arystides Resende Silva, a manutenção da palhada é fundamental. “A manutenção da palhada na superfície do solo é uma prática fundamental para aumentar a resiliência dos sistemas agrícolas.”
Segundo ele, a cobertura protege o solo, reduz a evaporação e favorece a atividade biológica.
Ciro Augusto de Souza Magalhães destaca a importância da rotação de culturas. “A rotação de culturas promove maior diversidade de raízes e resíduos vegetais, melhora a estrutura do solo, aumenta a ciclagem de nutrientes e favorece a formação de bioporos.”
O pesquisador acrescenta: “Amplia-se o volume de solo explorado pelas raízes, aumentando a tolerância aos períodos de déficit hídrico.”
Sobre a construção do perfil do solo, ele afirma: “A correção das limitações físicas e químicas permite maior desenvolvimento radicular e melhor aproveitamento da água armazenada.”
Para Eliane de Paula Clemente Almeida, um solo estruturado beneficia tanto períodos secos quanto chuvosos. “Um solo bem estruturado não apenas retém mais água durante a seca, mas também melhora a drenagem em períodos de chuvas intensas.”
Ela também destaca os sistemas integrados. “Sistemas como ILP e ILPF aumentam o aporte de matéria orgânica e promovem melhorias contínuas nos atributos físicos, químicos e biológicos do solo.”
Na avaliação da pesquisadora: “A cobertura permanente, a diversificação de culturas e a construção do perfil fazem com que o solo funcione como um verdadeiro amortecedor hídrico.”

Doenças e pragas exigem monitoramento constante
As alterações climáticas também favorecem doenças e pragas. Segundo Dagma Silva, as chuvas frequentes aumentaram a incidência de doenças no milho e no sorgo. “As precipitações favoreceram o desenvolvimento das lavouras, mas também criaram condições ideais para os patógenos.”
A pesquisadora destaca maior ocorrência de manchas foliares, ferrugens, raiado fino e antracnose. Para ela, o manejo exige planejamento. “É preciso observar o tempo e aplicar os produtos no momento certo.”
Segundo Dagma, adjuvantes adesivantes ajudam a reduzir perdas por lavagem, enquanto óleos minerais e vegetais favorecem a absorção dos fungicidas. “Os fungicidas sistêmicos ficam protegidos após cerca de duas horas sem chuva, enquanto os protetores podem ser removidos por precipitações intensas.”
Ela resume a estratégia: “É preciso observar o tempo… e o tempo certo.”
El Niño muda o comportamento das pragas
Para Simone Mendes, pesquisadora e entomologista da Embrapa Milho e Sorgo, o El Niño altera profundamente a dinâmica das pragas. “As alterações na circulação atmosférica modificam as dinâmicas populacionais das pragas e a eficiência das estratégias de controle.”
A lagarta-do-cartucho é um dos principais exemplos. “Dependendo dos extremos climáticos regionais, a lagarta altera seu ciclo de desenvolvimento, comportamento e suscetibilidade aos métodos de controle.”
Segundo Simone: “Entre 20 °C e 35 °C, a espécie reduz seu tempo de desenvolvimento e aumenta o número de gerações.”
O clima também interfere na eficiência dos inseticidas. “Algumas moléculas aumentam sua letalidade em altas temperaturas, enquanto outras perdem eficiência.”
No MATOPIBA e parte do centro-oeste, o calor tende a favorecer explosões populacionais da praga. “Nessas condições, os surtos tendem a ser mais frequentes e severos.”
Já no sul, a elevada umidade cria outro cenário. “O excesso de precipitação pode reduzir a eficiência das aplicações químicas, mas favorece o controle biológico.”
Segundo Simone, fungos entomopatogênicos e vírus apresentam melhor desempenho em ambientes úmidos. A pesquisadora conclui que a principal estratégia é a integração das ferramentas disponíveis. “Seja em regiões mais secas ou mais úmidas, o monitoramento constante das lavouras e o Manejo Integrado de Pragas devem ser priorizados para garantir a eficiência do controle.”