Os resíduos da laranja gerados pela indústria de suco podem deixar de ser um problema ambiental e se transformar em fonte de compostos bioativos de alto valor agregado. É o que demonstra uma pesquisa da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que identificou métodos mais sustentáveis para recuperar substâncias com potencial de aplicação nas indústrias de alimentos, cosméticos e farmacêutica.
Publicado na revista Foods, o estudo investigou diferentes subprodutos do processamento da fruta, como cascas, sementes, bagaço, óleos essenciais e águas residuais. A pesquisa mostrou que esses materiais concentram moléculas de interesse comercial, cuja recuperação pode reduzir impactos ambientais e ampliar o aproveitamento econômico da cadeia citrícola.
Coordenado por pesquisadores do Departamento de Química da UFSCar, o trabalho utilizou princípios da Química Verde para desenvolver processos mais eficientes e ambientalmente adequados de extração e caracterização desses compostos.
Resíduos da laranja concentram compostos de alto valor agregado
Entre as substâncias identificadas pelos pesquisadores está a hesperidina, flavonoide conhecido por suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, além de aplicações em diferentes segmentos industriais.
Segundo o estudo, embora esses compostos tenham elevado valor comercial, sua presença também pode causar problemas durante o processamento industrial do suco, como obstrução de equipamentos e interferências no tratamento dos resíduos líquidos.
A recuperação dessas moléculas permite transformar um desafio operacional em uma oportunidade econômica. De acordo com dados citados pelos pesquisadores, o mercado global de hesperidina foi avaliado em aproximadamente US$ 81 milhões em 2019, com expectativa de alcançar US$ 125,2 milhões até 2026.
Além da hesperidina, o estudo identificou compostos como D-limoneno, valenceno, α-pineno, sabineno, β-mirceno e linalol, todos com potencial de aplicação industrial.
Química Verde torna a extração mais sustentável
Para analisar a composição química dos resíduos, a equipe utilizou técnicas como ressonância magnética nuclear (RMN), cromatografia líquida de alta eficiência (CLAE) e cromatografia gasosa acoplada à espectrometria de massas (CG-EM).
Um dos destaques da pesquisa foi o uso da extração assistida por micro-ondas, considerada uma alternativa mais eficiente e alinhada aos princípios da Química Verde. O método reduziu etapas do processo, minimizou impactos ambientais e permitiu recuperar hesperidina com elevado grau de pureza.
Os resultados mostraram que cada etapa do processamento industrial concentra diferentes compostos de interesse, permitindo identificar os pontos mais adequados para sua recuperação e agregação de valor.
Pesquisa amplia sustentabilidade da indústria citrícola
Além de recuperar compostos bioativos, a pesquisa também identificou soluções para desafios ambientais da indústria de suco de laranja.
Os pesquisadores verificaram, por exemplo, que a elevada concentração de D-limoneno na chamada “água amarela” — resíduo líquido gerado no processamento — dificultava sua fermentação, etapa importante para o tratamento adequado desse material antes do descarte.
Segundo a equipe, compreender a composição química desses resíduos possibilita desenvolver processos mais eficientes para seu aproveitamento, fortalecendo práticas de economia circular e reduzindo desperdícios na cadeia citrícola.
Com isso, o estudo demonstra que os resíduos da laranja podem deixar de ser apenas um passivo ambiental e se tornar uma importante fonte de matérias-primas de alto valor agregado, contribuindo para uma indústria mais sustentável e inovadora.