Bianca Ferreira
Engenheira agrônoma e supervisora agrícola – Fazenda Campo de Ouro (Piraju/SP)
biancaferreiraagro@gmail.com
Ronaldo Morini Ferreira
Engenheiro agrônomo e produtor rural – Fazenda Campo de Ouro
ronaldomoriniferreira@gmail.com
Durante os últimos anos, o mercado internacional do abacate Hass viveu um dos ciclos de expansão mais expressivos entre as frutas tropicais. Impulsionado pelo avanço da alimentação saudável, pela valorização nutricional do fruto e pela forte demanda de mercados como EUA e Europa, o Hass consolidou-se como uma das commodities hortifrutícolas mais promissoras do cenário global.
Em 2026, o setor passou por um período de acomodação nos preços internacionais, gerando preocupação entre produtores, viveiristas e investidores. Em diversas regiões produtoras, especialmente na América Latina, os valores pagos ao produtor ficaram abaixo das expectativas, refletindo um cenário de excesso momentâneo de oferta.
Apesar disso, especialistas e relatórios internacionais indicam que o movimento atual representa muito mais um ajuste natural do mercado do que uma perda de potencial do setor.

Fruta tropical mais comercializada
Segundo projeções da OECD-FAO, o abacate deverá se tornar a fruta tropical mais comercializada do mundo até 2030, superando culturas tradicionalmente consolidadas no comércio internacional, como manga e abacaxi.
A estimativa é de que as exportações globais ultrapassem 3,9 milhões de toneladas nos próximos anos, impulsionadas principalmente pela variedade Hass, que atualmente domina o mercado premium mundial.
Expansão acelerada da oferta global
A forte valorização do Hass ao longo da última década estimulou uma expansão expressiva dos plantios em diversos países. Além do México, ainda líder mundial do setor, países como Peru, Colômbia, Marrocos, Quênia, África do Sul e Chile ampliaram rapidamente suas áreas produtivas voltadas à exportação.
O Peru consolidou-se como um dos maiores fornecedores da Europa, enquanto a Colômbia avançou com novas áreas e maior estrutura exportadora. O Marrocos também ganhou destaque recentemente pela rápida expansão de seus embarques ao mercado europeu.
Grande parte dos pomares implantados entre 2018 e 2023 entrou em produção praticamente ao mesmo tempo, aumentando significativamente a disponibilidade de fruta no mercado internacional.

O que aconteceu com os preços em 2026?
O cenário observado em 2026 foi resultado direto dessa expansão global da oferta. Houve uma sobreposição de janelas produtivas entre diferentes países exportadores, elevando simultaneamente o volume disponível para mercados como Europa e Estados Unidos.
Esse movimento pressionou os preços em determinados períodos do ano, especialmente pela velocidade com que a oferta avançou. Além disso, fatores como concorrência crescente, custos logísticos elevados, maior exigência de qualidade e oscilações cambiais também contribuíram para ampliar a pressão comercial.
Na Europa, principal destino do Hass exportado por diversos países, a entrada simultânea de grandes volumes aumentou a competição comercial e reduziu margens temporariamente.
Ainda assim, analistas internacionais reforçam que esse comportamento não deve ser interpretado como retração estrutural da demanda global.
Consumo mundial continua avançando
Mesmo diante do ajuste de preços observado em 2026, o consumo global de abacate continua em expansão consistente. O fruto consolidou-se como símbolo de alimentação saudável, associado a dietas funcionais, alimentação fitness e consumo de gorduras benéficas à saúde.
Além disso, a expansão da culinária internacional e do consumo de produtos naturais ampliou a presença do Hass em supermercados e redes de alimentação ao redor do mundo.
Atualmente, EUA e Europa seguem como os principais mercados consumidores, mas o crescimento mais promissor vem sendo observado na Ásia. Países como China, Japão, Coreia do Sul e Índia apresentam forte potencial de expansão do consumo per capita, o que pode ampliar ainda mais o mercado global ao longo da próxima década.
Segundo relatório do Rabobank, o mercado global de abacates já supera US$ 20 bilhões em valor e continua apresentando forte expansão, sustentado por fatores como:
• Crescimento populacional;
• Mudança nos hábitos alimentares;
• Maior consumo de produtos saudáveis;
• Expansão das redes varejistas;
• Internacionalização do consumo de Hass.
Setor entra em uma nova fase
O atual momento do mercado marca uma nova etapa para o setor global do Hass. Nos primeiros anos do “boom do avocado”, praticamente toda a produção adicional era rapidamente absorvida, mantendo preços elevados e margens muito atrativas.
Agora, o setor passa por um processo de maior maturidade e profissionalização. Fatores como eficiência produtiva, qualidade da fruta, logística, pós-colheita, rastreabilidade e regularidade de oferta passam a ter papel cada vez mais importante na competitividade dos produtores.
Em outras palavras, o mercado continua promissor, mas mais exigente — movimento considerado natural em cadeias produtivas que atingem maior escala internacional.
Brasil pode ocupar posição estratégica
Apesar do aumento da concorrência global, o Brasil possui amplo espaço para expansão dentro do mercado de Hass. O país apresenta condições climáticas favoráveis, disponibilidade de áreas produtivas e capacidade de produção em janelas estratégicas para exportação.
Além disso, o mercado interno brasileiro ainda possui enorme potencial de crescimento no consumo da variedade Hass, especialmente em grandes centros urbanos e redes varejistas premium.
Outro fator relevante foi a abertura do mercado japonês ao abacate Hass brasileiro em 2024, considerada uma conquista importante para o setor nacional. O Japão é reconhecido mundialmente como um mercado altamente exigente em qualidade e segurança fitossanitária, aumentando o valor estratégico dessa abertura comercial.
O Brasil também possui vantagens competitivas importantes:
– Diversidade climática;
– Possibilidade de escalonamento de produção;
– Proximidade relativa com a Europa;
– Disponibilidade hídrica em diversas regiões;
– Crescente profissionalização dos pomares.
Dessa forma, especialistas avaliam que o país pode ampliar significativamente sua participação no mercado internacional nos próximos anos.
Perspectivas seguem positivas até 2035
As projeções globais continuam indicando crescimento consistente do setor ao longo da próxima década. Embora oscilações de preços possam ocorrer em determinados períodos, principalmente em momentos de maior concentração de oferta, o cenário estrutural permanece favorável ao Hass.
O desafio daqui para frente será equilibrar o avanço da produção com a expansão contínua do consumo mundial. Nesse contexto, a abertura de novos mercados consumidores, especialmente na Ásia, deverá desempenhar papel importante na absorção dos volumes crescentes produzidos globalmente.
Ao mesmo tempo, o mercado tende a valorizar cada vez mais produtores eficientes, capazes de entregar:
• Qualidade padronizada;
• Regularidade de fornecimento;
• Sustentabilidade;
• Rastreabilidade;
• Excelência pós-colheita.
Produção em janelas estratégicas
Além disso, ganha força a estratégia de implantação de pomares em regiões com altitude e condições climáticas capazes de proporcionar colheitas em épocas distintas das grandes safras dos principais países produtores.
A produção em janelas estratégicas pode ampliar a competitividade e criar oportunidades comerciais mais favoráveis ao produtor.
Para produtores e investidores, o momento atual exige visão estratégica e planejamento de longo prazo. O ciclo de expansão do Hass está longe do fim. O setor entra em uma nova fase, na qual eficiência, competitividade e posicionamento comercial serão tão importantes quanto produtividade no campo.
