Películas comestíveis: novas possibilidades para a conservação de HF

Tecnologia baseada em revestimentos protetores reduz perda de água, preserva qualidade e pode ampliar o tempo de comercialização de frutos, mas ainda depende de regulamentação para uso em pimentão no Brasil.
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A busca por tecnologias capazes de reduzir perdas pós-colheita e manter a qualidade de frutas e hortaliças tem impulsionado o desenvolvimento de novos sistemas de conservação.

Entre essas soluções estão os revestimentos comestíveis, também conhecidos como películas invisíveis, que funcionam como uma barreira protetora aplicada sobre a superfície dos frutos.

No caso do pimentão, hortaliça de fruto bastante sensível à perda de água após a colheita, pesquisas indicam resultados promissores com o uso desses materiais, capazes de prolongar a vida de prateleira e preservar características valorizadas pelo consumidor, como firmeza, brilho, cor e aparência de frescor.

Apesar dos avanços científicos, a aplicação comercial desses revestimentos em pimentões ainda não é autorizada no Brasil. O desenvolvimento da tecnologia segue em fase de pesquisa, buscando soluções seguras, eficientes e alinhadas às exigências do mercado.

Como funcionam

Segundo Marcos David Ferreira, pesquisador da Embrapa Instrumentação, “os revestimentos comestíveis, também conhecidos como películas invisíveis ou popularmente como ceras, são emulsões que, quando aplicadas sobre um fruto, formam uma película que atua na conservação, regulando as trocas gasosas, reduzindo a atividade respiratória e o metabolismo, contribuindo para a manutenção da qualidade e prolongando a vida de prateleira”, explica.

Após a aplicação, o revestimento cria uma camada fina que modifica a interação do fruto com o ambiente externo. Essa barreira reduz a entrada de oxigênio e aumenta a concentração interna de gás carbônico, diminuindo a velocidade dos processos metabólicos naturais.

“Em condições atmosféricas normais, temos maior concentração de oxigênio do que gás carbônico. Os revestimentos atuam aumentando a concentração de $\text{CO}_2$ e reduzindo o $\text{O}_2$, promovendo uma redução da respiração e do metabolismo do fruto”, detalha o pesquisador.

Além de regular as trocas gasosas, a tecnologia também reduz a perda de umidade, um dos principais fatores responsáveis pela deterioração de frutas e hortaliças durante o armazenamento, transporte e comercialização.

Os revestimentos podem ser formulados a partir de diferentes componentes, como polissacarídeos, proteínas e lipídeos. Entre os materiais estudados estão celulose, amido, zeínas, ceras naturais de carnaúba e candelila, além de outros compostos capazes de formar matrizes protetoras.

De acordo com Ferreira, os revestimentos comerciais utilizados atualmente são normalmente compostos por combinações de ceras e outros agentes que garantem estabilidade e eficiência na aplicação.

“No Brasil, a legislação estabelece as funções tecnológicas, os limites máximos e as condições de uso dos aditivos alimentares e coadjuvantes autorizados. Atualmente, os revestimentos comestíveis são permitidos para frutas como mamão, melão, manga, abacate, abacaxi e frutas cítricas. Para o pimentão, que pertence à família das Solanáceas, o uso comercial ainda não é permitido”, ressalta.

Pesquisa busca ampliar conservação do pimentão

Mesmo sem autorização para uso comercial, pesquisas mostram que os revestimentos apresentam potencial para melhorar a conservação do pimentão.

A Embrapa Instrumentação, em parceria com a iniciativa privada e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), desenvolveu uma emulsão baseada em nanopartículas de carnaúba com resultados positivos na manutenção da qualidade dos frutos.

“A tecnologia desenvolvida permite a extensão da vida de prateleira em até 10 dias, associada a condições adequadas de armazenamento e manuseio. Para frutos para a nanoemulsão, de forma geral, consideramos 15 dias, para o pimentão, 10 dias. No entanto, conforme mencionado, ainda não pode ser utilizada comercialmente para pimentão devido às questões regulatórias”, afirma Ferreira.

O pesquisador destaca que o pimentão é um fruto não climatérico, ou seja, não amadurece após a colheita. Mesmo assim, passa por alterações naturais que reduzem sua qualidade, principalmente relacionadas à perda de água.

“Uma das grandes causas das perdas em frutas e hortaliças é justamente a desidratação durante o armazenamento, a comercialização e até mesmo na casa do consumidor. Dependendo das condições de armazenamento e da fisiologia do fruto, essas perdas podem ser elevadas, chegando em alguns casos a até 5% ou mais em perda de massa em frutos não revestidos”, explica. Já perdas de alimentos chegam a 20 a 30%.

Ao reduzir a perda de água e controlar o metabolismo do fruto, os revestimentos contribuem para manter a aparência, a textura e a qualidade por mais tempo.

Tecnologia preserva brilho, cor e atributos valorizados pelo consumidor

Além de aumentar a durabilidade, os revestimentos também podem auxiliar na manutenção das características visuais e nutricionais dos frutos.

Segundo Ferreira, a conservação proporcionada pela película favorece a manutenção das características físico-químicas relacionadas ao sabor, aparência e qualidade comercial. “Pela conservação do fruto, ocorre a manutenção da qualidade e das características físico-químicas determinantes que influenciam no sabor e nos aspectos externos. O revestimento também contribui para retardar alterações de coloração”, explica.

O brilho é outro efeito observado em frutos tratados. Naturalmente, muitos frutos possuem ceras próprias em sua superfície, mas parte delas é removida durante processos como lavagem e escovação no beneficiamento.

“Os revestimentos comestíveis complementam essa função protetiva e contribuem para o brilho. Em geral, frutos revestidos apresentam maior brilho que os não revestidos, o que pode estar relacionado ao uso de diferentes compostos, como goma-laca ou outros materiais utilizados nas formulações”, destaca o especialista.

Ele ressalta, entretanto, que o brilho está relacionado principalmente às demandas do mercado consumidor e não necessariamente representa maior qualidade nutricional.

Aplicação apresenta baixo custo e já é consolidada em algumas frutas

Do ponto de vista econômico, os revestimentos comestíveis apresentam potencial de adoção por serem uma tecnologia de aplicação simples e de baixo custo. “Em uma linha de beneficiamento, normalmente utiliza-se cerca de um litro da emulsão para uma tonelada de fruto revestido, especialmente no caso da laranja. Para outras frutas, como a manga, essa proporção pode ser ainda menor”, informa Ferreira.

A eficiência está relacionada também aos equipamentos utilizados, que aplicam o produto por meio de bicos especiais, garantindo uma cobertura uniforme sobre os frutos.

A tecnologia já faz parte da cadeia de algumas frutas destinadas ao mercado fresco. Nos citros, por exemplo, com exceção de nichos específicos, como produtos orgânicos, a aplicação de revestimentos é amplamente utilizada no Brasil.

“Para frutas cítricas destinadas ao mercado fresco, praticamente toda a produção nacional é comercializada com revestimentos. Em culturas como manga e mamão, a aplicação também é expressiva, principalmente para produtos destinados à exportação”, afirma.

Nanotecnologia e biodiversidade apontam novos caminhos

O futuro dos revestimentos para frutas e hortaliças passa pelo desenvolvimento de materiais mais eficientes, sustentáveis e baseados em recursos naturais.

A nanotecnologia já demonstrou resultados positivos na conservação pós-colheita, especialmente com o desenvolvimento de nanoemulsões.

“A aplicação de nanotecnologia em revestimentos comestíveis já mostrou ser uma solução viável. A nanoemulsão de cera de carnaúba aplicada em frutos prolonga a manutenção da qualidade por até 15 dias”, destaca Ferreira.

A tecnologia desenvolvida pela Embrapa Instrumentação em parceria com a empresa QGP Tanquímica, atual Innospec Brasil, e a UFSCar, atualmente é comercializada pela AgroFresh no Brasil e no exterior, com destaque para sua aplicação em mangas destinadas à exportação.

Outra tendência está relacionada ao aproveitamento da biodiversidade brasileira e mundial na conservação de alimentos. “O uso de óleos essenciais nativos ou não, com ação antimicrobiana, é uma aplicação que tem ganhado relevância nos últimos anos. A busca por compostos naturais, em especial de base vegetal, capazes de ampliar a conservação dos alimentos deve continuar crescendo”, finaliza o pesquisador.

A evolução dos revestimentos comestíveis representa uma importante ferramenta para reduzir desperdícios e aumentar a eficiência da cadeia de frutas e hortaliças.

Para culturas como o pimentão, os resultados obtidos em pesquisa indicam um caminho promissor, que depende agora de avanços regulatórios e da validação para uso comercial.

Revestimentos comestíveis na conservação de hortaliças e frutas

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