Por Vitor Quintela
Quem trabalha com tomate já percebeu: alguns inseticidas que antes funcionavam muito bem contra a traça-do-tomateiro hoje já não apresentam o mesmo resultado no campo. Isso não acontece por acaso.
A traça-do-tomateiro Phthorimaea (=Tuta) absoluta é uma das pragas mais adaptáveis da agricultura moderna. Seu ciclo rápido, aliado à grande capacidade de reprodução, faz com que populações resistentes a inseticidas possam surgir em pouco tempo quando a pressão de seleção é elevada.
Por isso, mais importante do que simplesmente aplicar inseticidas é entender como as populações da praga respondem às moléculas disponíveis. Esse tipo de conhecimento vem dos estudos de suscetibilidade — pesquisas que ajudam a identificar se os inseticidas ainda são eficazes ou se a resistência já está em evolução.
Estudos conduzidos com populações brasileiras da praga permitiram estabelecer linhas de base de suscetibilidade e, a partir delas, definir doses diagnósticas, que são ferramentas práticas para monitorar a evolução da resistência ao longo do tempo.
Quando a resistência começa
A resistência não surge de uma hora para outra. Na maioria das vezes ela começa de forma silenciosa.
Dentro de uma população natural sempre existem alguns indivíduos mais tolerantes ao inseticida. Quando a mesma molécula é utilizada repetidamente, esses indivíduos sobrevivem e deixam descendentes. Com o passar das gerações, a frequência desses indivíduos aumenta até que o produto começa a perder eficiência.
Esse processo é evolutivo. E acontece muito mais rápido em insetos com ciclo curto, como é o caso da traça-do-tomateiro.
O que os estudos mostram
Ensaios de suscetibilidade indicam que inseticidas mais recentes ainda apresentam alta eficácia contra a traça-do-tomateiro, enquanto algumas moléculas mais antigas já apresentam redução de suscetibilidade em determinadas populações.
A partir desses dados, foram estabelecidas doses diagnósticas que podem ser utilizadas no monitoramento:
- 5 mg L-1 para abamectina
- 0,3 mg L⁻¹ para isocycloseram
- 47 mg L⁻¹ para tolfenpirade
Essas concentrações são capazes de causar mortalidade próxima de 99% em populações suscetíveis. Assim, a sobrevivência de insetos nessas doses indica possível evolução da resistência.
Como testar na prática: método adaptado do IRAC (leaf-dip)
O monitoramento da suscetibilidade pode ser realizado com base no método padronizado pelo IRAC, conhecido como leaf-dip, que permite avaliar de forma prática a resposta da praga aos inseticidas.
De forma simplificada, o procedimento consiste em:
- Preparação da solução
Diluir o inseticida na concentração diagnóstica previamente definida. - Imersão das folhas
Folhas de tomate são mergulhadas na solução por alguns segundos e deixadas para secar à sombra. - Infestação
Após a secagem, larvas da traça-do-tomateiro são colocadas sobre as folhas tratadas. - Avaliação da mortalidade
A mortalidade é avaliada após um período determinado (geralmente 48–72 horas).
Interpretação dos resultados
- Alta mortalidade (próxima de 100%) → população suscetível
- Sobrevivência acima do esperado → indicativo de resistência em evolução
Esse tipo de teste pode ser repetido ao longo do tempo, permitindo acompanhar mudanças na suscetibilidade da população.
O papel das enzimas na resistência
Um dos mecanismos mais comuns de resistência envolve sistemas enzimáticos presentes no inseto.
Entre os principais estão:
- monooxigenases do citocromo P450
- esterases
- glutationa S-transferases
Essas enzimas atuam degradando o inseticida antes que ele cause efeito letal, reduzindo sua eficácia. Esse tipo de resistência metabólica pode afetar diferentes inseticidas ao mesmo tempo.
Monitorar é tão importante quanto aplicar
O uso das doses diagnósticas associado ao método leaf-dip permite transformar o monitoramento da resistência em uma prática aplicável.
Na prática, isso funciona como um sistema de alerta:
- detecta mudanças precoces na suscetibilidade
- evita falhas inesperadas de controle
- orienta a escolha e a rotação de inseticidas
Como fazer a rotação de inseticidas na prática
Uma das principais estratégias para retardar a resistência é a rotação de inseticidas com diferentes modos de ação.
Considerando as moléculas avaliadas, um esquema prático pode ser estruturado da seguinte forma:
Exemplo de rotação ao longo do ciclo:
- Aplicação 1: isocicloseram (alta eficácia, novo modo de ação, age nos canais de cloro Cl– mediados pelo Gaba)
- Aplicação 2: tolfenpirade (modo de ação distinto age nas mitocôndrias)
- Aplicação 3: abamectina (inseticida antigo, mas com boa eficácia age nos canais de Cl– mediados pelo glutamato)
- Aplicação 3: indoxacarbe (grupo diferente age nos canais de sódio Na+)
- Aplicação 4: retorno ao primeiro grupo, respeitando o intervalo de gerações da praga
Pontos-chave da rotação:
- evitar aplicações consecutivas do mesmo modo de ação
- respeitar o intervalo entre reaplicações do mesmo grupo
- considerar o ciclo da praga (gerações rápidas exigem maior atenção)
Inseticidas com histórico de resistência elevada devem ser utilizados com cautela ou inseridos de forma estratégica dentro da rotação.
O que o produtor pode fazer
A resistência pode ser retardada quando o manejo é planejado.
Algumas práticas são fundamentais:
- rotação de inseticidas com diferentes modos de ação
- uso de doses corretas (evitar subdosagem)
- integração com controle biológico
- monitoramento frequente com ferramentas como a dose diagnóstica
Essas estratégias reduzem a pressão de seleção e ajudam a preservar a eficácia dos produtos.
Mais do que escolher o produto
No manejo moderno de pragas, a escolha do inseticida é apenas parte da estratégia.
Utilizar ferramentas como doses diagnósticas associadas ao método leaf-dip permite acompanhar a evolução da resistência e tomar decisões mais seguras no campo.
A traça-do-tomateiro continua sendo um dos maiores desafios da cultura do tomate. Ao mesmo tempo, mostra que o manejo eficiente depende cada vez mais da integração entre ciência, monitoramento e tomada de decisão estratégica.
Mais informações: DOI 10.1002/ps.70669