SPD avança no Brasil e transforma a produção de hortaliças

Sistema de Plantio Direto de hortaliças ganha espaço em diferentes estados brasileiros ao unir saúde das plantas, biodiversidade, redução de insumos e maior resiliência climática no campo.
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O Sistema de Plantio Direto de hortaliças (SPD) vem consolidando uma nova lógica de produção no campo. Muito além de uma técnica, o sistema propõe uma mudança de paradigma na agricultura ao colocar a planta, e não o solo, no centro das decisões agronômicas.

A partir desse conceito, produtores têm alcançado ganhos expressivos em produtividade, redução de custos, menor dependência de insumos químicos e maior estabilidade diante dos eventos climáticos extremos.

Segundo Marcelo Zanella, coordenador do programa de Olericultura da Epagri e especialista em SPDH, a agricultura tradicional passou décadas olhando para o solo como elemento central do sistema produtivo.

No entanto, ele explica que foram as próprias plantas que, ao longo de milhões de anos, desenvolveram mecanismos biológicos capazes de reconstruir ambientes produtivos.

“Praticamente todos os trabalhos de agronomia consideram o solo como centro. Mas quem é o centro dos sistemas são as plantas. São elas que conseguem articular todos os mecanismos naturais para reconstruir o solo”, afirma.

A planta como protagonista do sistema

A proposta do SPDH parte da construção de ambientes favoráveis para que a planta expresse todo o seu potencial fisiológico, produtivo e biológico. Segundo Zanella, quando o foco passa a ser a saúde da planta, os demais processos tornam-se consequência natural do equilíbrio do sistema.

“Quando você cria um ambiente de conforto para a planta, ela consegue expressar todo o potencial genético. O resto vem como consequência: reconstrução do solo, aumento da matéria orgânica, atividade biológica intensa, alimento de maior qualidade e redução de custos”, destaca.

Dentro desse conceito, o SPDH utiliza cobertura permanente do solo, sucessão de plantas de cobertura, alta biodiversidade vegetal e intensa atividade microbiológica. O resultado é a formação de um ambiente biologicamente ativo, com maior ciclagem de nutrientes e equilíbrio ecológico dinâmico.

O sistema proporciona um ambiente biologicamente ativo

Biodiversidade como ferramenta produtiva

Um dos pilares do SPDH está na manutenção contínua de resíduos vegetais vivos ou mortos sobre o solo. Esse processo alimenta diferentes comunidades de microrganismos ao longo do ciclo produtivo.

Enquanto as plantas de cobertura estão vivas, ocorre intensa atividade radicular associada a fungos, bactérias e outros organismos benéficos. Após o manejo dessas plantas na superfície, entram em ação novos grupos de decompositores, responsáveis pela ciclagem de nutrientes e manutenção da fertilidade.

“Você cria uma atividade biológica permanente no ambiente de cultivo. São famílias menores de microrganismos, mas com alta biodiversidade, que se equilibram naturalmente e evitam que alguma delas vire praga ou doença”, explica Zanella.

Segundo ele, essa dinâmica permite que o sistema utilize até metade da adubação convencional, com produtividades superiores graças à maior eficiência fisiológica das plantas.

Redução de custos e aumento da produtividade

Os resultados observados em áreas comerciais reforçam o avanço do sistema. Em Santa Catarina, o SPDH já ocupa cerca de 8 mil hectares de hortaliças. O modelo também cresce rapidamente em culturas perenes, como banana, uva, maracujá e pêssego.

De acordo com Zanella, o sistema tem permitido reduzir entre 50% e 60% os custos de produção em diversas culturas.

Um exemplo citado pelo pesquisador é a produção de cebola no Sul do Brasil. Enquanto o sistema convencional registrou custos entre R$ 1,40 e R$ 1,50 por quilo produzido na última safra, áreas conduzidas em SPDH apresentaram custo médio de R$ 0,65 por quilo.

“O produtor que trabalhou no SPDH conseguiu atravessar a crise sem prejuízo. Esse baixo custo permite enfrentar momentos difíceis sem sair do mercado”, ressalta.

Outro caso emblemático ocorreu no cultivo de chuchu em Anitápolis (SC). Em 2010, a produtividade média local era de 25 toneladas por hectare. Atualmente, áreas conduzidas no sistema atingem médias próximas de 80 toneladas por hectare, com redução de aproximadamente 80% nos custos de produção.

Relação entre plantas e microrganismos

A integração biológica é outro diferencial do sistema. Segundo Zanella, as plantas funcionam como verdadeiras biofábricas naturais, produzindo substâncias capazes de alimentar e estimular microrganismos benéficos no solo e na parte aérea.

“A planta libera fotoassimilados pelas raízes para alimentar microrganismos que ajudam na nutrição e na defesa. Nossa estratégia é criar um ambiente em que esses organismos se reproduzam naturalmente no campo”, afirma.

Ele explica que os agentes biológicos disponíveis atualmente já conseguem resolver cerca de 90% dos problemas relacionados a pragas e doenças em hortaliças. Porém, o objetivo do SPDH é reduzir gradativamente a dependência da compra desses produtos.

“A ideia é sair do alto custo dos insumos químicos e também do alto custo dos biológicos comprados. O sistema precisa criar autonomia biológica”, pontua.

No SPD reduz em 80% os custos de produção no chuchu

Clima extremo acelera adoção do sistema

Os eventos climáticos extremos também vêm impulsionando o avanço do SPDH. Segundo Zanella, muitos produtores abandonaram parte do cultivo protegido após perdas sucessivas causadas por ventos fortes e altas temperaturas.

“Em algumas regiões, os produtores tiveram estruturas destruídas três vezes em dois anos. Muitos migraram totalmente para o SPDH porque perceberam que o campo em plantio direto oferecia mais conforto para as plantas do que o próprio abrigo”, relata.

Ele destaca que, em culturas folhosas, o sistema a campo frequentemente apresenta qualidade superior à obtida em ambientes protegidos, principalmente devido ao menor estresse térmico.

“O abrigo protege da chuva, mas pode gerar temperaturas acima de 40 graus. Já o SPDH cria um ambiente muito mais equilibrado para a planta”, afirma.

Melhoramento genético precisa evoluir para novos sistemas

Outro ponto levantado pelo pesquisador é a necessidade de adaptar o melhoramento genético aos sistemas biológicos de produção. Segundo ele, muitos materiais genéticos foram selecionados apenas para ambientes convencionais, o que pode ter eliminado variedades altamente adaptadas a sistemas biodiversos.

Zanella cita o caso de uma variedade antiga de mandioca considerada improdutiva em manejo convencional. Quando cultivada em SPDH, a produtividade saltou para 60 toneladas por hectare.

“Era um material descartado pela pesquisa convencional. No SPDH, ele expressou todo o potencial porque conseguiu interagir com fungos micorrízicos e outros microrganismos”, explica.

O especialista também destaca o papel da seleção participativa realizada pelos próprios agricultores, especialmente em culturas como maracujá e chuchu, onde os cruzamentos naturais continuam acontecendo diretamente no campo.

Expansão nacional ainda depende de capacitação

Apesar do crescimento do sistema em estados como Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Espírito Santo, Goiás e Distrito Federal, Zanella avalia que o principal desafio atual não é tecnológico, mas humano.

“O conhecimento já existe. O problema é formar profissionais capazes de aplicar isso nas diferentes regiões do Brasil”, afirma.

Segundo ele, universidades e instituições de ensino começam a incorporar o tema em cursos de graduação e pós-graduação, mas a demanda ainda supera a oferta de profissionais capacitados.

Agricultura do futuro

Para Marcelo Zanella, o SPDH representa hoje o modelo mais eficiente para a produção sustentável de hortaliças. “Eu não consigo ver outra forma de agricultura tão eficiente, natural e resiliente quanto essa. O SPDH reduz custos, aumenta a produção, melhora a qualidade ambiental e entrega alimentos de alta qualidade”, conclui.

Indicadores observados no SPDH em hortaliças

IndicadorSistema convencionalSPDH
Uso de adubosElevadoRedução de até 50%
Dependência de químicosAltaMuito reduzida
Atividade biológica do soloLimitadaPermanente e intensa
Custos de produçãoElevadosRedução média de até 50%
Resiliência climáticaMenorMaior estabilidade
Biodiversidade microbianaBaixaAlta diversidade
Qualidade do alimentoVariávelMaior equilíbrio nutricional
Conservação do soloMenor proteçãoCobertura permanente
Produtividade do chuchu em Anitápolis (SC)25 t/ha80 t/ha
Custo da cebola no sul do BrasilR$ 1,40 a R$ 1,50/kgR$ 0,65/kg

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