Os mercados de soja e milho entram no segundo semestre em uma fase de transição entre a colheita nos Estados Unidos e o início do plantio na América do Sul. Segundo a Hedgepoint Global Markets, a demanda continua oferecendo suporte aos preços, enquanto as incertezas sobre a produtividade norte-americana, o clima no Brasil, os conflitos geopolíticos e os fluxos comerciais devem manter a volatilidade elevada.
No Brasil, a primeira estimativa da Hedgepoint para a safra de soja 2026/27 é de 181,7 milhões de toneladas, praticamente em linha com a temporada anterior. Para o milho, a produção 2025/26 é estimada em 140,3 milhões de toneladas. O cenário combina crescimento mais moderado da oferta de soja com avanço estrutural do consumo doméstico de milho para etanol.
Soja brasileira deve crescer menos, com margens pressionadas
A projeção para a soja considera aumento de apenas 0,9% na área plantada, abaixo do crescimento próximo de 3% estimado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Preços mais baixos, custos elevados e fertilizantes mais caros reduziram a rentabilidade do produtor e devem limitar uma expansão mais agressiva da área e os investimentos em tecnologia e insumos.
A estimativa de 181,7 milhões de toneladas ainda não incorpora eventual impacto negativo do El Niño. As previsões são favoráveis ao plantio em setembro e outubro, mas, a partir de novembro, indicam possibilidade de menos chuvas no Centro-Norte e maior umidade no Sul. Assim, a safra pode começar em boas condições e enfrentar dificuldades durante o desenvolvimento das lavouras.
“A soja brasileira entra no novo ciclo com uma perspectiva de crescimento muito mais moderado da oferta. O principal ponto de atenção não é apenas a área, mas a combinação entre margens comprimidas e risco climático associado ao El Niño. Caso o clima permaneça apenas normal, a produção deve ficar próxima de 181–182 M ton; se houver problemas no Centro-Norte, existe espaço para uma safra significativamente menor e, consequentemente, para forte reação de preços e prêmios”, afirma Luiz Fernando G. Roque, Coordenador de Inteligência de Mercado da Hedgepoint Global Markets.
Soja Brasil – Produção, área colhida e produtividade
Fonte: USDA, Hedgepoint
Exportações de soja seguem fortes e prêmios ganham suporte
Na temporada 2025/26, as exportações brasileiras de soja devem alcançar aproximadamente 114 milhões de toneladas, cerca de 6 milhões acima do recorde anterior, de 108 milhões. Os prêmios também ganharam força, favorecidos pela sazonalidade do segundo semestre, pela demanda externa e doméstica e pela menor disponibilidade antes da próxima safra.
Nos Estados Unidos, a produção de soja permanece como um dos principais pontos de incerteza. O USDA estima cerca de 123 milhões de toneladas, enquanto a Pro Farmer aponta 124,4 milhões. Na penúltima semana de agosto, 60% das lavouras estavam em condições boas ou excelentes, ante 69% no mesmo período do ano anterior, o que mantém em aberto a produtividade efetiva.
Ao mesmo tempo, o crescimento do esmagamento, estimulado pelo biodiesel e pelo diesel renovável, e a retomada das compras chinesas sustentam a demanda. As vendas antecipadas chegaram a aproximadamente 11,5 milhões de toneladas para entrega a partir de setembro, enquanto a relação estoque/uso permanece próxima de 7%.
Etanol fortalece demanda doméstica por milho
O consumo brasileiro de milho para etanol deve crescer cerca de 5,5 milhões de toneladas e pode se aproximar de 29 milhões com o E32. O país conta com 29 usinas de etanol de milho em operação e outros 27 projetos em desenvolvimento. Para a Hedgepoint, essa expansão ajuda a compensar a menor competitividade do cereal brasileiro no mercado externo e amplia a disputa pelo produto, principalmente nas regiões próximas às plantas industriais.
As exportações brasileiras de milho são estimadas em 41 milhões de toneladas, praticamente estáveis em relação à temporada anterior. O potencial de avanço é limitado pela maior concorrência argentina e pela possível redução das compras do Irã, que adquiriu aproximadamente 9 milhões de toneladas em 2025, mas estava cerca de 1 milhão de toneladas abaixo do ritmo anterior entre janeiro e julho de 2026.
Milho Brasil – Oferta e demanda
Fonte: USDA, Conab, Hedgepoint
Argentina amplia disputa e Estados Unidos podem revisar safra
A Argentina apresenta uma safra de milho estimada em 63 milhões de toneladas pelo USDA, enquanto projeções locais se aproximam de 70 milhões. As exportações podem avançar de 29 milhões para cerca de 45 milhões de toneladas e superar o volume brasileiro, ampliando a concorrência internacional.
Nos Estados Unidos, o USDA estima produção de milho de aproximadamente 407 milhões de toneladas, ante cerca de 390 milhões projetados pela Pro Farmer. Apenas 57% das lavouras estavam em condições boas ou excelentes na penúltima semana de agosto, contra 71% um ano antes, o que abre espaço para revisão negativa da produtividade. Em contrapartida, as exportações podem atingir cerca de 83 milhões de toneladas e levar a relação estoque/uso de aproximadamente 12% para 10%.
Na União Europeia, as ondas de calor reduziram a projeção de produção de milho de aproximadamente 57 milhões para 50 milhões de toneladas. A necessidade de importação deve aumentar em um momento de menor capacidade exportadora da Ucrânia, criando oportunidades para Estados Unidos, Brasil e Argentina, embora a competitividade argentina limite o potencial de ganho brasileiro.
Gestão de risco ganha importância em ambiente volátil
Além dos fundamentos agrícolas, os preços serão influenciados pelas relações entre Estados Unidos e China, pelos conflitos no Oriente Médio e no Mar Negro, pelo petróleo, pelo câmbio e pela evolução do El Niño. A Hedgepoint destaca que Chicago, câmbio e prêmio podem ser administrados separadamente, permitindo aproveitar diferentes janelas de comercialização.
“A principal mensagem é que a demanda atualmente oferece um suporte mais consistente aos preços do que a oferta oferece pressão. Em síntese, o mercado entra no segundo semestre com fundamentos suficientemente fortes para sustentar preços, mas também com riscos suficientes para impedir uma leitura excessivamente otimista”, conclui Roque.


