Sistema de Plantio Direto de Hortaliças promove redução do uso de água no campo

Técnica mantém o solo coberto por palha, favorece a infiltração de água, reduz o uso de agrotóxicos e pode melhorar as condições de trabalho no campo.
A aveia-preta (em destaque) é uma opção para o inverno, enquanto o painço se destaca no verão por seu ciclo rápido

Publicado em 30 de outubro de 2026 às 06h23

Última atualização em 29 de outubro de 2026 às 09h15

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Uma camada de palha sobre o solo pode ajudar o produtor rural a economizar água, reduzir o uso de agrotóxicos e melhorar as condições de cultivo. Essa é a proposta do Sistema de Plantio Direto de Hortaliças (SPDH), que evita o revolvimento frequente da terra e intercala o cultivo comercial com plantas de cobertura, segundo o engenheiro agrônomo Sérgio Augusto Martins Faria, da Diretoria de Assistência Técnica Integral (CATI)) Regional Avaré.

    Apesar do nome, o sistema não se restringe às hortaliças. Também pode ser aplicado à fruticultura e à produção de grãos, com adaptações conforme a cultura e as condições da propriedade. A ideia é melhorar gradualmente a qualidade física e biológica do solo, proteger a área cultivada das intempéries e tornar o sistema de produção mais eficiente.

    A origem do SPDH ajuda a entender por que ele vai além de uma técnica de plantio. Desenvolvido há mais de 30 anos pela Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), em conjunto com pesquisadores, extensionistas e produtores rurais, o sistema surgiu em um cenário de endividamento no campo. A necessidade de superar as dificuldades financeiras levou à discussão de mudanças na forma de produzir.

    O resultado foi um sistema que combina conhecimentos técnicos e científicos à busca por maior autonomia dos agricultores.

    No SPDH, a terra permanece coberta por resíduos vegetais, enquanto o plantio é feito sem o revolvimento frequente do solo. A palhada funciona como uma proteção contra as variações de temperatura e ajuda a conservar a umidade. Ao mesmo tempo, o sistema favorece a infiltração da água, a formação de agregados e o desenvolvimento de poros e canais biológicos no solo.

    Essas características são especialmente relevantes em regiões tropicais, onde o revolvimento excessivo pode favorecer a erosão e a compactação. Com o tempo, a presença de matéria orgânica e o aumento da atividade dos microrganismos contribuem para melhorar as condições do solo cultivado.

    ”Nos trópicos, o revolvimento do solo é bastante complicado por causa do aumento da erosão, compactação e outros problemas”, explica Faria. Segundo ele, a proteção proporcionada pelas plantas de cobertura ganha ainda mais relevância diante dos eventos climáticos extremos.

Planejamento necessário

    Mas a adoção do sistema exige planejamento. O primeiro passo é analisar o solo e verificar a necessidade de correções químicas, como calagem e fosfatagem. Também é preciso avaliar o perfil da área para identificar possíveis camadas compactadas e corrigir problemas de estrutura física antes de iniciar o manejo com cobertura vegetal.

    Em seguida, entram em cena as plantas de cobertura, estrelas do SPDH. Aveia-preta, no inverno, e painço, milheto e sorgo-vassoura, no verão, são algumas das opções citadas pelo agrônomo. Também podem ser utilizadas misturas de espécies.

    Quando a vegetação atinge, em geral, o florescimento ou o estágio de grão leitoso, é feito o acamamento. As plantas são deitadas sobre o solo para formar a palhada. Isso pode ser realizado com equipamentos como o rolo-faca ou, conforme o sistema de produção, com o uso de herbicidas. Depois, o plantio da cultura principal é feito sobre essa cobertura.

A aveia-preta (em destaque) é uma opção para o inverno, enquanto o painço se destaca no verão por seu ciclo rápido

    Após a colheita, o processo recomeça com uma nova planta de cobertura, alternada com a cultura comercial. A repetição desse ciclo ajuda a aumentar a biomassa e a atividade biológica do solo, com ganhos que se acumulam ao longo do tempo.

    No início da implantação, Faria recomenda dar preferência às gramíneas. Como demoram mais para se decompor, elas mantêm a cobertura por mais tempo, ajudando a proteger o solo durante o ciclo da cultura.

    A presença de uma camada densa de palha também pede ajustes na implantação das culturas. No caso das hortaliças produzidas a partir de mudas, por exemplo, o agrônomo recomenda utilizar plantas um pouco maiores, que tenham melhores condições de se estabelecer sem ficar encobertas pela cobertura vegetal.

Desafios adicionais

    Algumas culturas apresentam desafios adicionais. A cenoura, por ser semeada com sementes muito pequenas, exige cuidados específicos para se adaptar ao sistema. Por isso, embora o SPDH tenha potencial de aplicação em diferentes cadeias produtivas, o manejo precisa considerar as características específicas.

    Outro cuidado é monitorar a ocorrência de lesmas, que podem encontrar condições favoráveis no ambiente mais úmido criado pela palhada. Segundo Faria, há alternativas de controle para sistemas convencionais e orgânicos, incluindo iscas e o uso de cal virgem. Ele ressalta que o acompanhamento é importante, especialmente nos primeiros anos, período em que o sistema ainda está em adaptação e busca equilíbrio.

    Na região de Avaré (SP), o SPDH também vem sendo utilizado em sistemas de produção orgânica. Em pequenas áreas, uma alternativa ao herbicida é o uso de lona preta por cerca de 15 dias, em um procedimento de solarização que, segundo o agrônomo, auxilia no controle da vegetação e pode ser incorporado ao manejo orgânico.

Faria em foto mostrando plantio de painço ao fundo | Fotos: Divulgação/CATI

    A técnica ainda pode trazer benefícios para quem trabalha diariamente no campo. O plantio de hortaliças costuma exigir longos períodos em posição agachada, uma condição que pode ser amenizada com o uso de equipamentos manuais simples. Faria cita plantadeiras utilizadas no cultivo de eucalipto que podem ser aproveitadas no plantio de hortaliças, reduzindo a necessidade de trabalhar tão próximo ao chão.

    Para o agrônomo, o potencial do SPDH está na combinação entre conservação do solo, melhor aproveitamento da água e ajustes no manejo que podem reduzir gastos e facilitar o trabalho na propriedade. Os resultados, porém, dependem da implantação adequada, da escolha das espécies de cobertura e do acompanhamento das condições de cada área.

    Produtores interessados em conhecer o sistema e avaliar sua aplicação podem procurar a Casa da Agricultura de seu município ou a Regional da CATI mais próxima, onde é possível conversar com técnicos sobre as características da propriedade e as alternativas de manejo.

▶︎ Assista à entrevista completa de Sérgio Augusto Martins Faria ao PodCATI: https://youtu.be/AAnxy3uCGEE

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