Por Raiff Nascimento, Agrônomo Especialista em Irrigação e Fertirrigação da Netafim e Lucas Satira, Gerente de Fertirrigação da Yara
A agricultura moderna enfrenta o desafio de produzir mais, com melhor qualidade, utilizando água, fertilizantes e energia de forma cada vez mais eficiente. Diante do aumento dos custos de produção, da irregularidade das chuvas e da exigência crescente por produtos padronizados, tecnologias que integram irrigação e nutrição passaram a exercer papel estratégico no campo.
Entre essas tecnologias, a fertirrigação se destaca por permitir a aplicação de fertilizantes solúveis por meio da água de irrigação. Na prática, o sistema fornece água e nutrientes de forma simultânea, diretamente na região de maior atividade das raízes. Em sistemas de irrigação localizada, especialmente no gotejamento, essa técnica ganha ainda mais eficiência, pois a solução nutritiva é aplicada em menor volume, com maior frequência e melhor uniformidade.
Na adubação convencional, os fertilizantes costumam ser aplicados em poucas operações ao longo do ciclo da cultura. Parte desses nutrientes pode estar sujeita a perdas por lixiviação, volatilização, fixação no solo ou redução de sua disponibilidade para as raízes, principalmente quando a aplicação não coincide com o momento de maior demanda da planta. Na fertirrigação, a lógica é diferente: as doses são parceladas e ajustadas conforme a fase fenológica, o tipo de solo, a qualidade da água, o clima e o objetivo produtivo.
Conceitos básicos
A fertirrigação pode ser entendida como uma forma de nutrição de precisão. Em vez de aplicar grandes quantidades de fertilizantes em poucas etapas, o produtor passa a dividir a recomendação em aplicações menores e mais frequentes. Isso permite ajustar o fornecimento de nutrientes às necessidades da cultura durante as fases de crescimento vegetativo, florescimento, formação e enchimento dos frutos.
Esse manejo exige atenção a alguns pontos: análise de solo, análise da água, escolha de fertilizantes solúveis, compatibilidade entre fontes, filtragem adequada, uniformidade do sistema e acompanhamento técnico. Quando esses fatores são bem conduzidos, a planta recebe nutrientes em condições mais favoráveis à absorção.
Tabela 1. Comparação entre adubação convencional e fertirrigação

Fonte: Elaborado pelo autor com base em SOUSA et al. (2014), capítulo “Manejo da Fertirrigação em Fruteiras e Hortaliças”, e KELLER; BLIESNER (1990).
Por que aumenta a produtividade
A produtividade agrícola depende da interação entre genética, clima, solo, água, nutrição, sanidade e manejo. Quando a planta sofre deficiência hídrica ou nutricional em uma fase crítica, parte do potencial produtivo da cultura pode ser comprometida. A fertirrigação reduz esse risco ao aproximar o fornecimento de nutrientes da demanda real da cultura.
No gotejamento, a solução nutritiva é aplicada no bulbo molhado, onde se concentra grande parte das raízes ativas. Com isso, aumenta-se a chance de absorção e reduz-se o desperdício. O resultado esperado é uma lavoura mais uniforme, com plantas em estádios de desenvolvimento semelhantes e maior potencial de qualidade comercial.
Figura 1. Comparação qualitativa de eficiência de manejo

Fonte: Gráfico elaborado pelo autor com base nos conceitos de frequência de aplicação, uniformidade de distribuição e manejo da fertirrigação descritos por SOUSA et al. (2011) e KELLER; BLIESNER (1990). Escala qualitativa de 1 a 5.
Benefícios agronômicos, econômicos e ambientais
Do ponto de vista agronômico, a fertirrigação favorece maior uniformidade no desenvolvimento das plantas, melhor aproveitamento dos nutrientes, redução de períodos de deficiência, equilíbrio entre crescimento vegetativo e reprodutivo e maior padronização dos frutos. Em culturas como tomate, pimentão, cebola, melão, melancia, manga, uva, banana, citros, café e flores, esse diferencial pode influenciar diretamente a qualidade comercial da produção.
No aspecto econômico, a tecnologia pode reduzir operações mecanizadas, diminuir desperdícios, melhorar o aproveitamento dos fertilizantes e aumentar o percentual de produtos dentro do padrão desejado pelo mercado. O retorno econômico tende a ser mais expressivo em culturas de maior valor agregado ou em áreas nas quais os fertilizantes representam parcela significativa do custo de produção.
No aspecto ambiental, o parcelamento das doses e a aplicação localizada contribuem para reduzir perdas de nutrientes, principalmente em solos arenosos ou sob manejo inadequado da lâmina de irrigação. Quando associada ao monitoramento do solo e do clima, a fertirrigação ajuda a utilizar água e fertilizantes com maior racionalidade.
Tabela 2. Comparação dos principais benefícios

Fonte: Elaborado pelo autor com base em SOUSA et al. (2014), BERNARDO et al. (2019) e KELLER; BLIESNER (1990).
Quando vale a pena investir
A fertirrigação tende a apresentar melhores resultados quando a propriedade dispõe de um sistema de irrigação pressurizado adequadamente dimensionado, há necessidade de maior produtividade, busca-se uniformidade, os custos com fertilizantes são relevantes e a produção é destinada a mercados que valorizam padrão e qualidade. O investimento também se justifica quando o produtor deseja automatizar parte do manejo, reduzir operações no campo e melhorar o controle da nutrição ao longo do ciclo.
Para começar corretamente, recomenda-se seguir uma sequência técnica: realizar análise de solo, avaliar a qualidade da água, verificar a vazão e a pressão do sistema, medir a uniformidade de aplicação, escolher fertilizantes solúveis e compatíveis, definir o programa nutricional por fase fenológica e monitorar continuamente a resposta da cultura.
Tabela 3. Roteiro prático para iniciar a fertirrigação

Fonte: Elaborado pelo autor com base em SOUSA et al. (2014) e SOUSA et al. (2011), capítulo “Manejo da Fertirrigação em Fruteiras e Hortaliças”.
Considerações finais
A fertirrigação representa uma evolução no manejo da agricultura irrigada. Mais do que uma forma de aplicação de fertilizantes, a técnica integra irrigação, nutrição vegetal, solo, clima e fase fenológica em uma estratégia de produção mais eficiente e precisa. Seu uso correto pode resultar em lavouras mais uniformes, produtivas e sustentáveis.
Entretanto, a tecnologia exige planejamento. Não existe boa fertirrigação sem sistema uniforme, qualidade da água conhecida, fertilizantes compatíveis e acompanhamento técnico. Quando bem conduzida, a fertirrigação deixa de ser apenas uma opção de manejo e passa a ser uma ferramenta estratégica para aumentar a eficiência e a rentabilidade da propriedade.
Referências bibliográficas
ALLEN, R. G.; PEREIRA, L. S.; RAES, D.; SMITH, M. Crop evapotranspiration: guidelines for computing crop water requirements. Rome: FAO, 1998. FAO Irrigation and Drainage Paper, n. 56.
FAO – FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS. Crop evapotranspiration: guidelines for computing crop water requirements: revised edition. Rome: FAO, 2025. FAO Irrigation and Drainage Paper 56 Rev. 1.
SOUSA, V. F. de; MAROUELLI, W. A.; COELHO, E. F.; PINTO, J. M.; COELHO FILHO, M. A. Irrigação e fertirrigação em fruteiras e hortaliças. 2. ed. Brasília, DF: Embrapa, 2014.
SOUSA, V. F. de; COELHO, E. F.; PINTO, J. M.; NOGUEIRA, L. C.; COELHO FILHO, M. A.; ARAÚJO, A. R. de. Manejo da fertirrigação em fruteiras e hortaliças. In: SOUSA, V. F. de et al. (ed.). Irrigação e fertirrigação em fruteiras e hortaliças. Brasília, DF: Embrapa Informação Tecnológica, 2011. cap. 10, p. 319-337.
KELLER, J.; BLIESNER, R. D. Sprinkle and trickle irrigation. New York: Springer, 1990. 652 p.
BERNARDO, S.; MANTOVANI, E. C.; SILVA, D. D.; SOARES, A. A. Manual de irrigação. 9. ed. Viçosa, MG: Editora UFV, 2019. 545 p.
NETAFIM BRASIL. Departamento Agronômico. Manual de Irrigação e Fertirrigação por Gotejamento: Tomate Rasteiro. Brasil: Netafim, 2026.
NETAFIM BRASIL. Entrega Agronômica 2025. V3. Brasil: Netafim, 2025. Material técnico institucional de treinamento agronômico.
SOARES DA SILVA, M. A irrigação como mitigadora da seca no Sul do Brasil. Brasil: Netafim, s.d.
SOARES DA SILVA, M. A importância da uniformidade no fornecimento de água e fertilizantes nas produções hortícolas. Brasil: Netafim, s.d.