Crédito, dados e risco: o novo eixo do agronegócio brasileiro

Em um cenário em que crédito, tecnologia e gestão de riscos se tornaram fatores cada vez mais estratégicos para o agronegócio, conversamos com Carolina Vergeti, diretora-geral da tmdigital. Na entrevista, a executiva fala sobre os desafios do setor, o avanço da inteligência de dados no agro e as perspectivas para o mercado. Acompanhe!
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1 – O agro brasileiro se sofisticou muito nos últimos anos. O crédito e a gestão de risco acompanharam essa evolução?

Evoluíram, mas ainda existe um descompasso importante. O agro cresceu em escala e complexidade, mas a gestão de risco não acompanhou na mesma velocidade.

O setor movimenta mais de R$ 1 trilhão em crédito por ano, mas ainda convive com inadimplência elevada, judicializações e perdas evitáveis. Isso revela um paradoxo estrutural do setor: avançamos muito em produção, mas sem a mesma evolução em governança financeira e de risco, e isso compromete a perenidade.

Ao mesmo tempo, o mercado de capitais e o crédito privado estão cada vez mais presentes no agro. Só que esses fluxos financeiros exigem lastros claros, monitoráveis e auditáveis. O que antes era um diferencial, hoje é um pré-requisito: sem dados confiáveis, não há funding consistente.

Hoje existe um hype de SaaS. Isso é positivo porque elevou a régua de qualidade das ferramentas oferecidas, trouxe concorrência e mais dados. Mas a maioria ainda resolve fluxo operacional, são esteiras de crédito, não soluções de crédito.

Por muito tempo faltou dado; agora, em muitos casos, a gente só acelera o problema para aparecer mais rápido. Na prática, o desafio central deixou de ser o acesso à informação e passou a ser a qualidade da decisão. E, em um setor onde o risco é permanente, a vantagem competitiva não está em evitar o risco, mas em conseguir reagir a ele com antecedência, método e consistência.

2. A tmdigital nasceu em um momento de transformação do setor. Qual foi o “insight” por trás da empresa?

Para fornecermos e recuperarmos crédito sempre e com excelência, precisamos conhecer muito bem os clientes. Por isso, a tmdigital nasceu como uma frente de serviços para a cadeia de insumos do agronegócio, participando do dia a dia dos distribuidores e ajudando-os a usar capital para crescer de forma saudável. Nossa missão é fortalecer a gestão de riscos do setor, construindo, em parceria com os clientes, um mercado mais consciente, potente e resiliente.

Essa missão começou com a tecnologia. Identificamos desafios estruturais comuns do agronegócio e desenvolvemos soluções para monitorar risco em tempo real, especialmente por meio do monitoramento agrícola por satélite. Foi essa capacidade de análise, acompanhamento e mitigação contínua que nos permitiu aumentar o apetite ao risco com segurança e, posteriormente, evoluir para o financiamento em si, um reflexo direto da nossa solidez tecnológica.

Mas existe um ponto importante: nós nunca acreditamos em um modelo puramente SaaS. Desde o início, nossa visão sempre foi ser uma extensão da governança dos nossos parceiros e costumamos participar ativamente das decisões ordinárias e, principalmente, estratégicas. Isso significa atuar diretamente na concessão, no acompanhamento e na recuperação de crédito, dominando economicamente o risco onde o mercado falha.

Ao atuar como parceira de serviço, a tmdigital torna a tomada de decisão mais assertiva, estratégica e segura, porque existe um agente especializado dedicado a desenhar políticas de crédito e cobrança e operar ativamente a gestão da carteira de recebíveis. Essa atuação reduz vieses comerciais, eleva o nível técnico das análises e fortalece o relacionamento com os principais tomadores de decisão, especialmente diretorias financeiras, de crédito e de tesouraria, que demandam critérios objetivos, independência analítica e previsibilidade.

Carolina Vergeti, diretora-geral da tmdigital

3. Na prática, onde estão hoje as maiores fragilidades das operações de crédito no agro?

Para mim, risco é o principal gargalo do crédito agro. O crescimento sustentável do crédito no agronegócio é limitado não apenas pela oferta de capital, mas, sobretudo, pela incapacidade estrutural do setor de mensurar, governar e executar a gestão de risco de forma consistente ao longo do ciclo da operação.
À medida que o mercado de capitais e o crédito privado se aproximam do agro, torna-se evidente que o acesso a funding depende de fluxos financeiros sustentados por lastros claros, monitoráveis e auditáveis.
O investidor institucional passou a exigir, como pré-requisito, e não mais como diferencial, dados rastreáveis de produção, conformidade socioambiental e territorial, padronização contratual, aderência jurídica e ESG, além da capacidade de precificar riscos em tempo quase real. Sem dados confiáveis e governança ativa, não há funding consistente.

4. O que a tmdigital faz de diferente quando olhamos para o dia a dia das operações?

Basicamente, dominamos economicamente o risco do agro onde o mercado falha. Esse movimento transforma a relação com os clientes: deixamos de ser apenas fornecedores de tecnologia para atuar na verdadeira orquestração do risco, criando profundidade contratual, previsibilidade econômica e integração entre análise, monitoramento e execução ao longo de toda a jornada financeira.
Não atuamos apenas sobre o fluxo operacional; atuamos diretamente sobre a qualidade da decisão e da execução.
Ao assumir a gestão técnica de crédito e cobrança, a tmdigital passa a defender políticas claras, decisões disciplinadas e protocolos alinhados às exigências do mercado de capitais.

5. Olhando para frente, como você enxerga a evolução do crédito no agro no Brasil?

Acredito que continuaremos na era de diferenciar o joio do trigo. E isso vale para tudo, para o bom e o mau pagador, para operações bem ou mal estruturadas, para carteiras que efetivamente se sustentam em operações estruturadas e até para diferentes perfis de inadimplência. Nem toda inadimplência significa perda definitiva, assim como nem toda operação aparentemente saudável possui qualidade estrutural suficiente para suportar momentos de estresse.
Existem casos recuperáveis no extrajudicial, outros que exigem judicialização estratégica e outros em que o problema começou muito antes, ainda na concessão.
Cada cenário exige uma leitura específica, capacidade analítica e estratégia própria de atuação. Por isso, vejo o mercado caminhando para um nível muito maior de sofisticação técnica e estratégica.
O crédito agrícola deixará de ser uma atividade baseada apenas em relacionamento e passará a operar com mais inteligência financeira, monitoramento contínuo, governança e especialização operacional.
Ao mesmo tempo, o avanço do mercado de capitais deve acelerar esse movimento. Quanto maior a presença de fundos, CRAs e investidores institucionais no agro, maior será a exigência por previsibilidade, rastreabilidade e capacidade real de gestão de risco. 7

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