Bianca Ferreira
Engenheira agrônoma e supervisora agrícola – Fazenda Campo de Ouro (Piraju/SP)
biancaferreiraagro@gmail.com
Tatiana Cantuaria Avilés
Engenheira agrônoma e consultora – Departamento de Produção Vegetal – ESALQ/USP tatiana.cantuarias@gmail.com
Ronaldo Morini Ferreira
Engenheiro agrônomo e produtor rural – Fazenda Campo de Ouro (Piraju/SP)
ronaldomoriniferreira@gmail.com
Falar em mudanças climáticas na agricultura já não é pensar apenas no futuro. O produtor convive hoje com maior variabilidade do clima, marcada por períodos de seca e calor, chuvas intensas e oscilações de temperatura que podem coincidir com fases importantes das culturas.
Na abacaticultura, essas condições merecem atenção pela influência direta sobre o desenvolvimento das plantas. Temperatura, disponibilidade de água e condições do solo interferem desde a florada e o pegamento dos frutos até as brotações e a sanidade do pomar.
Mais do que temer as mudanças no clima, o desafio é entender como o abacateiro responde a esses eventos e ajustar o manejo para tornar o pomar mais preparado para os períodos adversos.
Florada: quando poucos dias fazem diferença
O florescimento é uma das fases mais sensíveis ao clima. A temperatura interfere na abertura das flores, crescimento do tubo polínico, polinização e pegamento. Em estudos com ‘Hass’, condições próximas de 25 °C durante o dia e 20 °C à noite favoreceram o desempenho reprodutivo, enquanto temperaturas mais elevadas reduziram o número de flores e encurtaram o período de florescimento.
O clima também afeta a polinização: períodos frios, nublados e chuvosos podem reduzir a atividade das abelhas, enquanto calor intenso associado à falta de água aumenta o estresse da planta.
Por isso, uma florada abundante não é garantia de alta produção. O abacateiro produz grande quantidade de flores e naturalmente fixa apenas uma pequena parcela. O objetivo do manejo é proporcionar boas condições para essa fase, com água disponível, equilíbrio nutricional, sanidade e presença de polinizadores.
Pegamento: a atenção continua após a florada
Após a florada, começa outra fase crítica. Os frutos recém-formados passam a competir por água, nutrientes e fotoassimilados com o crescimento vegetativo da planta.
Assim, brotações excessivamente vigorosas, estresse hídrico ou problemas radiculares podem comprometer a retenção dos frutos. Flor, fruto, folha, brotação e raiz fazem parte do mesmo equilíbrio fisiológico, e o manejo não deve terminar junto com a florada.
Água: falta e excesso exigem atenção
O abacateiro é sensível tanto ao déficit quanto ao excesso de água. Em períodos quentes e secos, a demanda hídrica aumenta e o acompanhamento da umidade do solo torna-se fundamental.
No outro extremo, solos compactados, baixadas e drenagem deficiente favorecem a saturação e reduzem a oxigenação das raízes. Além do comprometimento fisiológico, essas condições aumentam a preocupação com a podridão radicular causada por Phytophthora cinnamomi, uma das principais doenças da cultura.
O manejo deve buscar água disponível sem comprometer a aeração do solo. Boa drenagem, conservação da estrutura do solo, monitoramento da umidade e irrigação ajustada à necessidade da planta são medidas fundamentais para enfrentar períodos de seca ou excesso de chuva.
Mais chuva também muda o manejo fitossanitário
Temperatura, umidade e tempo de molhamento dos tecidos influenciam diretamente o desenvolvimento de diversas doenças. No abacateiro, a antracnose (Colletotrichum spp.) merece atenção, principalmente em períodos úmidos e chuvosos, podendo atingir folhas, ramos, inflorescências e frutos.
Nessas condições, o manejo deve ser preventivo. Boa aeração da copa, retirada de tecidos doentes, equilíbrio vegetativo e proteção fitossanitária baseada no monitoramento e nas condições meteorológicas ajudam a reduzir o risco.
Chuvas frequentes também diminuem as janelas para pulverização. Por isso, acompanhar a previsão do tempo passa a fazer parte do planejamento fitossanitário.

E as pragas?
Temperatura, chuva e umidade também podem alterar o desenvolvimento, sobrevivência e dinâmica populacional de insetos e ácaros. Isso não significa necessariamente maior ocorrência de pragas, mas pode modificar os períodos em que elas aparecem e sua intensidade.
Com um clima menos previsível, o monitoramento ganha ainda mais importância. As decisões devem considerar a presença da praga, estágio da cultura, condições ambientais e histórico da área, reduzindo a dependência de calendários fixos de aplicação.
Brotação também merece atenção
As brotações refletem o equilíbrio da planta e respondem rapidamente às condições de água, temperatura e nutrição.
No abacateiro, crescimento vegetativo e produção competem por recursos. Brotações excessivamente vigorosas após a florada podem aumentar a competição com os frutos recém-fixados; por outro lado, pouca área foliar reduz a capacidade fotossintética necessária para sustentar a produção.
O objetivo é manter equilíbrio entre crescimento vegetativo e reprodutivo.
Bioestimulantes como aliados
Além das práticas de manejo, os bioestimulantes podem ser ferramentas importantes para favorecer o equilíbrio fisiológico das plantas em períodos de maior exigência ou estresse.
Entre os mais utilizados estão os extratos de algas, especialmente de Ascophyllum nodosum, aminoácidos e hidrolisados proteicos, além das substâncias húmicas.
Os extratos de A. nodosum possuem diferentes compostos bioativos associados à modulação das respostas da planta aos estresses, podendo favorecer mecanismos antioxidantes, equilíbrio osmótico e eficiência no uso de água e nutrientes.
Aminoácidos e hidrolisados proteicos podem contribuir para o metabolismo e a recuperação fisiológica, enquanto ácidos húmicos e fúlvicos atuam principalmente na relação solo-raiz, favorecendo o desenvolvimento radicular e a absorção de nutrientes.
Na cultura do abacate, essas ferramentas podem ser interessantes principalmente antes ou durante períodos de maior demanda fisiológica.
O melhor resultado, porém, está no uso integrado ao manejo: bioestimulantes não substituem água, nutrição, drenagem ou sanidade, mas podem contribuir para uma planta mais equilibrada e com maior capacidade de resposta às condições adversas.
Como preparar o pomar?
Não existe um produto capaz de “corrigir o clima”. A melhor estratégia é tornar o pomar menos vulnerável aos extremos, e esse trabalho começa antes mesmo do plantio.
A escolha da muda é um dos primeiros passos para a formação de um pomar mais resiliente. Mudas sadias, vigorosas, bem formadas e com sistema radicular de qualidade apresentam melhores condições de estabelecimento no campo.
Da mesma forma, a escolha da cultivar e do porta-enxerto deve considerar as características do solo, da área e as condições climáticas da região.

A procedência das mudas também merece atenção. Um material propagativo de qualidade, produzido com critérios de sanidade e bom desenvolvimento radicular, contribui para uma implantação mais uniforme e para plantas mais preparadas para enfrentar situações de estresse ao longo do ciclo.
Depois do plantio, essa resiliência continua sendo construída com solo bem estruturado e drenado, raízes saudáveis, irrigação bem manejada, nutrição equilibrada, copa arejada e monitoramento constante.
Em períodos chuvosos, drenagem, raízes e doenças exigem maior atenção. Nos períodos secos e quentes, o foco passa para a disponibilidade hídrica e a redução do estresse. Mais do que seguir calendários rígidos, será cada vez mais importante ajustar o manejo às condições de cada safra e de cada pomar.
O clima muda, o manejo também precisa mudar
As mudanças climáticas trazem novos desafios para a fruticultura, mas também reforçam a importância de uma agricultura cada vez mais técnica, preventiva e capaz de se adaptar.
Não se trata de prever exatamente como será a próxima safra, mas de conhecer o pomar, acompanhar as condições ambientais e estar preparado para tomar decisões no momento certo.
Quanto maior a capacidade de antecipação e resposta, menores tendem a ser os impactos dos períodos adversos.
O clima continuará sendo uma variável que o produtor não controla. A forma de conduzir o pomar diante dele, porém, está cada vez mais em suas mãos.
