O desenvolvimento do algodão de alta tecnologia no cerrado brasileiro tem uma trajetória diretamente ligada ao melhoramento genético e à mecanização da produção. Ainda na segunda metade da década de 1980, a Embrapa Algodão desenvolveu, em parceria com o então Grupo Itamarati, liderado pelo empresário Olacyr de Moraes, uma variedade adaptada à colheita mecanizada.
A cultivar, denominada CNPA/ITA 90, permitiu avançar na mecanização do sistema de produção do algodão, do plantio à colheita.
Até meados da década de 1990, a CNPA/ITA 90 ocupava cerca de 95% da área cultivada com algodão no Brasil. Com a aprovação da Lei de Patentes e da Lei de Proteção de Cultivares, empresas multinacionais de sementes também passaram a atuar no País, disponibilizando novas cultivares aos produtores.
Parceria público-privada
Segundo os pesquisadores da Embrapa Algodão João Paulo Saraiva e Alderi Araújo, o programa de melhoramento da instituição permaneceu baseado na parceria com o setor privado e passou a desenvolver materiais com características de interesse tanto dos produtores quanto dos compradores.
“O programa de melhoramento de algodão da Embrapa permaneceu nos mesmos moldes, em parceria com o setor privado e vem desenvolvendo variedades com características de interesse do mercado, tanto do ponto de vista dos produtores, com maior produtividade, quanto do ponto de vista dos compradores, com fibras mais finas, mais resistentes e com tegumento com maior resistência a quebras, assim como programa voltado para fibras especiais mais longas.”
O trabalho também contempla a resistência a doenças e não é realizado exclusivamente pela Embrapa Algodão. Os pesquisadores destacam a cooperação com grupos produtores e outros desenvolvedores de sementes, por meio de ensaios competitivos destinados à identificação das melhores cultivares para disponibilização ao mercado.
A Embrapa Algodão também mantém trabalhos com a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (ABRAPA) e associações estaduais, como AGOPA, AMIPA e ABAPA, dentre outras, em áreas relacionadas ao sistema produtivo, produção de inimigos naturais para controle de pragas e estudos sobre qualidade das fibras.
“Com uma construção coletiva, a cotonicultura brasileira vem melhorando continuamente e atingindo patamares superiores em relação ao algodão mundial e às fibras sintéticas.”
Biotecnologia amplia as ferramentas disponíveis
Entre os principais avanços da biotecnologia estão os eventos transgênicos voltados à resistência a herbicidas e lagartas. No melhoramento genético clássico, também foram desenvolvidas cultivares tolerantes à mancha de ramulária, principal doença do algodão no Brasil, além de materiais com resistência a diferentes nematoides.
Como essas resistências são obtidas pelo melhoramento genético clássico, e não pela transgenia, os pesquisadores apontam a possibilidade de aumento da produtividade sem acréscimo no custo de produção associado ao uso de eventos transgênicos.
A busca por fibras mais longas, finas e resistentes também acompanha a evolução dos programas de melhoramento. A necessidade de oferecer matéria-prima adequada às diferentes exigências da indústria têxtil nacional e internacional foi determinante para o avanço da cotonicultura.
Outro movimento recente está relacionado aos bioinsumos. Entre as tecnologias citadas estão bactérias capazes de auxiliar as plantas na captação de nutrientes do solo, como o fósforo, e fungos que atacam pragas do algodoeiro, como a mosca-branca. “A intenção é que os bioinsumos ajudem os produtores a aumentar sua produtividade e reduzir custos de produção em suas fazendas.”
Manejo integrado exige diferentes estratégias
O manejo fitossanitário integrado combina diferentes tecnologias e começa pela escolha da cultivar de acordo com o histórico de pragas e doenças da região. Em áreas com ocorrência recorrente de mancha de ramulária e nematoides, por exemplo, deve-se priorizar o uso de cultivares com resistência a esses fatores biológicos.
A transgenia para resistência a lagartas representa uma importante ferramenta, mas não elimina a necessidade de outras medidas de controle. O manejo adequado de inseticidas químicos e o uso de inseticidas biológicos também fazem parte das estratégias disponíveis.
No caso do bicudo, o controle envolve um conjunto de ações, como a rotação de produtos, o respeito ao vazio sanitário e o combate a plantas espontâneas nas lavouras, nas margens de rodovias e estradas vicinais e próximo aos confinamentos de animais.
“Não é possível combater todas as pragas, principalmente o bicudo, com apenas uma estratégia, e muito menos com cada produtor trabalhando sozinho. A integração de medidas e a comunicação entre os produtores constituem as melhores ferramentas para um manejo fitossanitário eficiente.”
Qualidade da fibra depende de toda a cadeia
O mercado nacional e internacional apresenta diferentes exigências em relação ao algodão. Fibras mais finas, longas e resistentes permitem a produção de fios mais finos, utilizados, por exemplo, em colchas de cama de 400 e 600 fios. Ao mesmo tempo, existe demanda por fios médios, como os utilizados na fabricação de calças jeans.
A diversidade de ambientes de produção do Brasil permite atender a esses diferentes mercados. Entretanto, a qualidade da fibra depende de três fatores principais: genética, campo e processamento. “A qualidade de fibras é um tripé que depende da genética (sementes), campo (manejo) e processamento (algodoeiras).”
Os produtores costumam utilizar diferentes cultivares por questões operacionais, considerando ciclos precoce, médio e tardio. Mesmo quando o manejo é semelhante na propriedade, diferenças de solo e chuva podem provocar variações espaciais.
A colheita e o beneficiamento nas algodoeiras também podem interferir na qualidade da fibra. Por isso, a atenção aos diferentes pontos do processo precisa ser constante.
O objetivo, segundo os pesquisadores, não é uniformizar toda a produção, mas formar lotes o mais homogêneos possível, capazes de atender às demandas específicas dos compradores. “Assim, eles podem atender a diferentes mercados, fornecendo fibras com a menor variabilidade possível.”
Pesquisa mira produtividade, resistência e adaptação
O programa de pesquisa da Embrapa Algodão reúne diferentes linhas de atuação. O melhoramento genético é uma das mais tradicionais e contempla tanto o desenvolvimento de novas variedades com eventos transgênicos licenciados de outras empresas quanto de variedades convencionais sem transgenes.
As pesquisas buscam maior produtividade, qualidade de fibra e resistência a estresses abióticos, considerando também as mudanças climáticas. No Semiárido, a resistência à seca e às altas temperaturas são metas do programa. No cerrado, a resistência a veranicos também está entre os objetivos.
Na área de bioinsumos, a busca envolve novas espécies e cepas de fungos e bacilos que apresentem eficiência no controle do bicudo, além de novas bactérias capazes de auxiliar na nutrição das plantas.
Os trabalhos com qualidade da fibra incluem estudos de mensuração, muitos deles realizados em parceria com o setor privado.
Outra linha de pesquisa envolve o manejo de espécies de cobertura para utilização em rotação de culturas com o algodão. Há cerca de 20 anos são conduzidos experimentos voltados à melhoria das propriedades químicas, físicas e biológicas do solo, ao melhor aproveitamento dos fertilizantes e à racionalização de seu uso.
Desafio constante
O manejo de doenças permanece como desafio, especialmente pelas condições favoráveis à ocorrência de doenças na principal região produtora do País, o Cerrado. Por isso, a Embrapa desenvolve estudos sobre resistência a manchas foliares, como a mancha de ramulária e a mancha-alvo, além de pesquisas relacionadas aos principais nematoides, como o nematoide das galhas e o nematoide reniforme.
Também está em desenvolvimento uma rede de pesquisa dedicada à epidemiologia e ao manejo de fungicidas para o controle das manchas foliares, em parceria com instituições privadas de pesquisa, a Universidade Federal de Viçosa e a Universidade de Brasília.
Principais frentes de evolução do algodão
| Frente | Principais avanços e objetivos |
| Melhoramento genético | Desenvolvimento de cultivares mais produtivas, com qualidade de fibra e resistência a doenças, nematoides e estresses abióticos |
| Mecanização | Desenvolvimento da CNPA/ITA 90, adaptada à colheita mecanizada |
| Biotecnologia | Eventos transgênicos para resistência a herbicidas e lagartas |
| Resistência genética | Cultivares tolerantes à mancha de ramulária e resistentes a diferentes nematoides |
| Bioinsumos | Bactérias para auxiliar na captação de nutrientes e fungos para controle de pragas, como a mosca-branca |
| Manejo fitossanitário | Integração de cultivares resistentes, inseticidas químicos e biológicos, vazio sanitário e controle de plantas espontâneas |
| Qualidade da fibra | Busca por fibras mais longas, finas e resistentes, com menor variabilidade nos lotes |
| Manejo do solo | Uso de plantas de cobertura e rotação de culturas para melhorar propriedades do solo e racionalizar fertilizantes |
| Pesquisa sobre doenças | Estudos sobre mancha de ramulária, mancha-alvo, nematoide das galhas e nematoide reniforme |
| Adaptação climática | Seleção para resistência à seca, altas temperaturas e veranicos |
A evolução da cotonicultura brasileira, de acordo com João Paulo Saraiva e Alderi Araújo, está relacionada à construção coletiva entre pesquisa, produtores, associações e empresas, reunindo genética, biotecnologia, qualidade de fibra, bioinsumos e manejo integrado em diferentes ambientes de produção.


