A Certificação em Biosseguridade (CBS), desenvolvida pela Embrapa em parceria com a Boehringer Ingelheim, deve alcançar 160 propriedades leiteiras no Brasil. O protocolo avalia mais de 140 pontos críticos nas fazendas e busca transformar medidas de prevenção de doenças em práticas de gestão sanitária, com reflexos sobre a saúde dos rebanhos, o uso de medicamentos e a qualidade do leite.
A iniciativa já apresenta resultados em propriedades certificadas, incluindo redução no uso de antibióticos, diminuição do descarte de leite e ganhos econômicos. O selo também começou a chegar aos supermercados, identificando produtos provenientes de sistemas que adotam os critérios da certificação.
Entre os exemplos apresentados pela Embrapa está uma propriedade de Minas Gerais que reduziu em 50% o uso de antibióticos para mastite clínica e em 70% para tristeza parasitária bovina. As mudanças também evitaram o descarte de 244,5 mil litros de leite por ano, com impacto econômico positivo estimado em R$ 660 mil.
Como funciona a certificação em biosseguridade?
A Certificação em Biosseguridade foi desenvolvida a partir de pesquisas da Embrapa Gado de Leite sobre prevenção de doenças e fortalecimento das barreiras sanitárias na bovinocultura leiteira.
O protocolo contempla mais de 140 pontos críticos relacionados à circulação de animais, pessoas e veículos, além das condições das instalações e dos processos produtivos.
O objetivo é identificar possíveis fontes de contaminação, estabelecer medidas preventivas e acompanhar a aplicação das boas práticas nas propriedades.
“Cada ponto de contato na fazenda pode representar um risco ou uma barreira de proteção”, explica Bruno Carvalho, chefe-adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Gado de Leite.
A certificação oferece ao produtor um diagnóstico detalhado da fazenda, acompanhado de metas e critérios verificáveis para avaliar a evolução das práticas sanitárias.
Entre as medidas consideradas estão o controle de acesso às áreas de produção, a higienização de equipamentos, o acompanhamento da saúde dos animais e a manutenção de registros confiáveis.
Pesquisa da Embrapa transformou recomendações em protocolo
A base científica da certificação começou a ser estruturada antes da pandemia de covid-19.
Em 2018, a Embrapa Gado de Leite publicou orientações destinadas a ampliar a proteção sanitária dos rebanhos e reduzir a disseminação de doenças parasitárias, bacterianas e virais.
A partir de 2020, a intensificação dos cuidados sanitários contribuiu para ampliar a atenção às medidas de biosseguridade na pecuária leiteira.
Algumas propriedades passaram a restringir a entrada de visitantes e veículos, adotar roupas de proteção e instalar equipamentos de desinfecção, como rodolúvios para higienização dos pneus de caminhões.
Essas práticas, já utilizadas em outros segmentos da produção animal, passaram a ganhar espaço também nas fazendas leiteiras.
Com o desenvolvimento da CBS, as recomendações foram organizadas em critérios que podem ser registrados, acompanhados e verificados.
Segundo Bruno Carvalho, o controle documental também contribui para a segurança dos alimentos, especialmente no acompanhamento dos tratamentos veterinários.
“Se não temos um registro sanitário confiável, corre-se o risco de enviar leite com resíduo de antibiótico ao tanque”, alerta.
Fazenda mineira reduz uso de antibióticos e evita descarte de leite
Um dos resultados apresentados pela Embrapa foi registrado na Fazenda Santa Luzia, localizada em Passos (MG).
Na propriedade, a adoção de diagnósticos antes da definição dos tratamentos contribuiu para reduzir em 50% o uso de antibióticos destinados à mastite clínica e em 70% aqueles utilizados nos casos de tristeza parasitária bovina.
Entre 3.161 casos avaliados, 1.366 apresentaram resultados negativos, o equivalente a aproximadamente 43% do total, dispensando a utilização de antimicrobianos.
A mudança também reduziu o volume de leite descartado em razão dos períodos de carência dos medicamentos.
Segundo os dados apresentados, a propriedade deixou de descartar 244,5 mil litros de leite por ano, com impacto econômico positivo estimado em R$ 660 mil anuais.
“Até quatro em cada dez tratamentos podem ser evitados no modelo convencional. Elevando o status sanitário da fazenda, reduzimos custos e nos preparamos para o mercado internacional”, afirma o produtor Maurício Coelho.
Os resultados demonstram o potencial da utilização de diagnósticos para orientar decisões sanitárias, evitando tratamentos desnecessários sem comprometer o atendimento aos animais que precisam de medicamentos.
Secagem seletiva reduz tratamentos na Fazenda Colorado
Outro exemplo apresentado foi o da Fazenda Colorado, em Araras (SP), considerada referência na produção leiteira.
Em 2016, todas as vacas da propriedade recebiam antibióticos no momento da secagem da lactação.
A partir da adoção gradual da secagem seletiva, o manejo passou a considerar critérios técnicos para definir quais animais necessitavam de tratamento antimicrobiano.
Em 2024, 64% das vacas já passavam pelo processo de secagem sem antibióticos. Em 2026, aproximadamente 80% dos animais que entram no período seco recebem apenas selante de teto, ficando os antimicrobianos reservados aos casos necessários.
A mudança ocorreu em um período de expansão do rebanho em lactação, que passou de 1.700 para 2.400 vacas entre 2016 e 2024.
Segundo a propriedade, a adoção das novas práticas também foi acompanhada pela redução dos tratamentos contra mastite.
“A seleção baseada em critérios técnicos substitui o tratamento universal. A execução e a disciplina vêm norteando a nossa rotina, conectando a saúde dos animais, do ambiente e das pessoas”, afirma Sérgio Soriano, diretor da Fazenda Colorado.
Resistência antimicrobiana preocupa a pecuária leiteira
A redução do uso desnecessário de antibióticos é uma das questões centrais relacionadas à biosseguridade.
O uso indiscriminado desses medicamentos pode favorecer o desenvolvimento de bactérias resistentes, problema reconhecido como uma das principais ameaças à saúde pública mundial.
Na bovinocultura leiteira, a mastite está entre as doenças que mais demandam tratamentos antimicrobianos.
Estudos citados pela Embrapa indicam que entre 52% e 62% do uso total desses medicamentos em rebanhos leiteiros está relacionado à prevenção e ao tratamento da doença.
Um levantamento realizado pela Boehringer Ingelheim entre 2024 e 2025, envolvendo 65 propriedades de bacias leiteiras de São Paulo e Minas Gerais, identificou desafios nas práticas de tratamento.
Em 67,7% das fazendas avaliadas, a primeira escolha para o tratamento da mastite envolvia classes de antimicrobianos considerada


