Linhagens desenvolvidas pela OR Genética estão no primeiro ano de testes e foram apresentadas em dia de campo em Coxilha (RS)
O trigo cultivado no Sul enfrenta dois problemas que pesam na produtividade e no custo da lavoura: os veranicos de inverno, períodos de 15 a 30 dias sem chuva durante o desenvolvimento da cultura, e plantas daninhas como azevém, buva e nabo, que competem por água, luz, nutrientes e espaço e já resistem a diferentes grupos químicos de herbicidas. A partir de 2029, o produtor deve contar com cultivares com a biotecnologia HB4®, que reúnem tolerância ao estresse hídrico para proteger o ciclo e o potencial produtivo da cultura, e ao glufosinato de amônio, herbicida que poderá ser aplicado sobre a lavoura já emergida. A previsão foi apresentada no Dia de Campo 2026 da OR Genética e da Sementes Webber, realizado em 21 de outubro, em Coxilha (RS), com cerca de 250 participantes.
As linhagens destinadas ao Sul são desenvolvidas pela OR Genética de Sementes, com biotecnologia licenciada pela Trigall Genetics, e estão no primeiro ano dos ensaios de Valor de Cultivo e Uso (VCU). A previsão é lançar duas cultivares para Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul: uma de ciclo precoce e outra de ciclo médio a tardio. No Cerrado, a Trigall trabalha em parceria com a Embrapa Trigo, também com previsão de lançamento em 2029. Outras companhias de melhoramento de trigo do Brasil e de outros países também estão trabalhando para desenvolver variedades com a biotecnologia.
Uma ferramenta para o manejo
Segundo o gerente-geral da Trigall Genetics, Lorenzo Mattioni Viecili, a tolerância ao glufosinato abre uma alternativa para o controle de plantas daninhas dentro da lavoura de trigo. Entre os desafios está o azevém, cuja competição prejudica o desenvolvimento da cultura e reduz a produtividade.
Viecili reforça que mesmo uma infestação pequena de azevém pesa na colheita, porque a planta daninha interfere no desenvolvimento do trigo. “O azevém tem um efeito alelopático, principalmente para a cultura do trigo: inibe o crescimento e o desenvolvimento das plantas de trigo. Então, naturalmente, baixa a produtividade”, afirma.
O herbologista e professor da Universidade de Passo Fundo (UPF), Mauro Rizzardi, destaca a limitação de alternativas após a emergência do trigo. “Hoje, uma das limitações que temos no trigo são os pós-emergentes, principalmente os de mecanismos diferentes, como é o caso do glufosinato. Então, esta passa a ser uma ferramenta importantíssima para o manejo”, explica.
Para ele, um herbicida com mecanismo de ação diferente também reduz a pressão sobre os produtos que o produtor já usa. “Com os casos de resistência, muitas espécies sobram. Ter uma alternativa a mais, com um mecanismo diferente no inverno, nos ajuda a proteger, inclusive, os herbicidas que estão registrados para a cultura”, explica Rizzardi, que é idealizador da plataforma de transferência de tecnologia Up.Herb Academia das Plantas Daninhas.
O supervisor de melhoramento genético de trigo da OR, o engenheiro agrônomo Rafael Nörnberg reforça que o trigo tem mais condições de expressar o potencial produtivo quando sofre menos competição na lavoura. “Com a tolerância ao glufosinato, o controle das daninhas fica mais eficiente, e o trigo sofre menos competição do azevém, do nabo e de outras daninhas comuns na Região Sul. Consequentemente, tem uma performance melhor de produtividade”, afirma.
A tecnologia deverá integrar o manejo adotado pelo produtor. Viecili ressalta que ela não substitui as práticas atuais de controle. Uma lavoura de trigo mais limpa também pode beneficiar a soja cultivada na sequência. O posicionamento técnico de uso e aplicação será divulgado somente quando houver autorização de uso de produto específico para outra fase do ciclo da cultura.
“Um seguro” para os veranicos de inverno
A tolerância ao estresse hídrico é associada ao gene HaHB4, oriundo do girassol. Segundo Viecili, o benefício se manifesta em períodos de falta de água durante o ciclo, como os veranicos de inverno no Sul e a restrição hídrica nas lavouras de sequeiro do Cerrado.
A engenheira agrônoma Isadora Jaeger, Business Developer da Bioceres Crop Solutions, explica que o trigo com HB4® apresentou incrementos de produtividade de 6% a 8% em situações de déficit hídrico leve e de até 15% a 17% em condições mais restritivas. Os resultados foram apresentados na 17ª Reunião da Comissão Brasileira de Pesquisa de Trigo e Triticale (RCBPTT), em agosto de 2025.
“Historicamente, quando as empresas de biotecnologia tentavam encontrar genes para estresses como o hídrico, era um grande desafio, porque alguns genes, em condições normais, reduziam a produtividade. O HB4® não possui essa característica, não consome energia da planta e não limita a produtividade; está ali para ajudá-la a se defender. Quando a água falta, o trigo produz etileno, hormônio que antecipa o fim do ciclo e reduz o tempo de formação dos grãos. O gene HB4® reconhece esse hormônio e suprime o efeito do etileno, fazendo com que a planta siga mais perto do ciclo previsto”, explica.
A tecnologia não elimina as perdas em anos muito secos. “Plantas com e sem o gene perdem produtividade, mas o HB4® retém mais, segura mais, porque organiza melhor a planta para ser mais eficiente com a água que ela tem disponível”, afirma.
A principal diferença do trigo HB4® em relação às cultivares convencionais está na capacidade de manter o metabolismo ativo mesmo sob condições adversas. Para o supervisor de melhoramento genético de trigo da OR, Rafael Nörnberg, a tecnologia também pode contribuir para a retomada do desenvolvimento após a estiagem. “Quando tivermos um período de estiagem, as plantas vão ter uma recuperação mais rápida quando a chuva voltar”, conta.
No programa da OR, as linhagens seguem critérios de seleção que incluem produtividade, estabilidade, sanidade e qualidade industrial. O objetivo é combinar a biotecnologia com características agronômicas adequadas às condições de cultivo e às demandas da cadeia do trigo.
Do campo de testes ao produtor
Em 2027, as linhagens entram no segundo ano de VCU e também passam pelos testes de distinguibilidade, homogeneidade e estabilidade (DHE). A programação da OR prevê validação com clientes, multiplicação de sementes em 2028 e chegada ao produtor em 2029.
“No ano que vem, alguns clientes já poderão ter acesso à amostra para testar e validar na sua área. Em 2028 elas entram para multiplicação e, em 2029, chegam ao produtor”, relata o engenheiro agrônomo e gerente comercial da OR Genética de Sementes, Maicon Matana.
Segundo Viecili, a biotecnologia já tem aprovação para cultivo e consumo no Brasil, nos Estados Unidos, na Argentina, no Paraguai e na Bolívia. “A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) aprovou o cultivo do trigo HB4® no Brasil há três anos e temos aprovação nos principais mercados consumidores do trigo exportado pelo Brasil e pela Argentina, como a Indonésia, Tailândia, Colômbia, Nigéria, África do Sul, Austrália, Nova Zelândia, entre outros. Barreiras comerciais que poderiam existir para exportação já foram desregulamentadas, e até 2029 teremos mais aprovações”, completa.