Polinização do abacateiro: o papel das abelhas na produção

A atividade das abelhas durante a florada é decisiva para favorecer a polinização e o pegamento dos frutos, mas fatores como clima, escolha de cultivares, manejo fitossanitário e conservação dos polinizadores também determinam o aproveitamento do potencial produtivo do pomar.
Fotos: Campo de Ouro

Publicado em 4 de setembro de 2026 às 06h06

Última atualização em 15 de setembro de 2026 às 08h23

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Bianca Ferreira
Engenheira agrônoma e supervisora agrícola – Fazenda Campo de Ouro (Piraju/SP)
biancaferreiraagro@gmail.com
Tatiana Cantuaria Avilés
Engenheira agrônoma e consultora
tatiana.cantuarias@gmail.com
Ronaldo Morini Ferreira
Engenheiro agrônomo e produtor rural – Fazenda Campo de Ouro (Piraju/SP)

ronaldomoriniferreira@gmail.com

A florada é uma das fases mais importantes na definição do potencial produtivo do abacateiro. A cultura produz grande quantidade de flores, mas apenas uma pequena parcela chega à formação e à colheita dos frutos. Nesse processo, a presença de polinizadores, especialmente as abelhas, tem papel fundamental.

Entender o funcionamento das flores, a interação entre os grupos florais e o comportamento das abelhas permite manejar o pomar de forma mais favorável à polinização e ao pegamento dos frutos.

Uma flor com comportamento particular

As flores do abacateiro (Persea americana) são pequenas, numerosas e hermafroditas, possuindo estruturas femininas e masculinas na mesma flor. Entretanto, essas estruturas normalmente não ficam funcionais ao mesmo tempo.

Cada flor apresenta duas aberturas. Na primeira, encontra-se na fase feminina, com o estigma receptivo ao pólen. Posteriormente, fecha e volta a abrir na fase masculina, quando ocorre a liberação do pólen pelas anteras. Esse comportamento é denominado dicogamia protogínica sincronizada.

De acordo com o período em que ocorrem essas fases, as cultivares são classificadas em dois grupos florais: A e B. Em condições favoráveis, cultivares do grupo A apresentam a fase feminina predominantemente pela manhã e reabrem na fase masculina na tarde do dia seguinte. Nas cultivares do grupo B ocorre aproximadamente o inverso: fase feminina à tarde e masculina na manhã seguinte.

A presença dos dois grupos pode favorecer a polinização cruzada, desde que exista coincidência entre as floradas. Entretanto, temperatura, umidade e outras condições ambientais podem alterar os horários de abertura e proporcionar sobreposição entre as fases. Assim, mais importante do que simplesmente possuir cultivares A e B é haver pólen viável disponível enquanto as flores estiverem receptivas.

Abelhas e a polinização

O transporte do pólen entre as flores do abacateiro ocorre principalmente pela ação de insetos. Entre eles, as abelhas se destacam pela frequência de visitação e capacidade de transportar pólen entre flores e plantas.

Ao visitarem as flores em busca de néctar e pólen, os grãos aderem ao corpo das abelhas e podem ser depositados no estigma de outras flores, possibilitando a germinação do pólen, o crescimento do tubo polínico e a fecundação.

A Apis mellifera é a espécie mais utilizada na polinização agrícola e pode ser introduzida no pomar por meio de colmeias durante a florada. Abelhas nativas, inclusive espécies sem ferrão, além de outros insetos visitantes, também podem contribuir para o processo.

A manutenção de vegetação natural próxima às áreas produtivas favorece esses polinizadores, oferecendo abrigo, locais de nidificação e fontes de alimento ao longo do ano.

Caixas de abelhas no pomar

A introdução de colmeias é uma ferramenta para aumentar a população de abelhas durante o florescimento. Como referência, recomendações técnicas para a cultura trabalham com cerca de duas colmeias por hectare em pomares adultos, número que deve ser ajustado às condições de cada propriedade.

Mais importante do que a quantidade de caixas é trabalhar com colônias fortes, populosas e bem distribuídas. A atividade das abelhas também deve ser acompanhada diretamente nas plantas.

Estudos relacionam maiores densidades de abelhas a melhores taxas de polinização, sendo cerca de 30 a 50 abelhas por árvore, observadas em atividade durante a florada, uma referência prática de boa visitação em plantas adultas.

Esse número não deve ser regra, pois varia conforme porte das plantas, intensidade da florada, cultivar, clima e presença de outras fontes florais. Outras espécies em florescimento nas proximidades podem competir pela visitação, sendo importante eliminá-las.

Portanto, além de contar caixas, é importante verificar se as abelhas estão efetivamente trabalhando nas flores do abacateiro e se essa atividade ocorre de maneira bem distribuída pelo pomar.

Interferência do clima

A eficiência da polinização depende do encontro de três fatores: flor receptiva, pólen viável e polinizador em atividade. O clima interfere diretamente nessa relação: temperaturas baixas podem modificar o comportamento de abertura das flores e a sobreposição entre as fases masculina e feminina. Chuva, frio e ventos fortes também reduzem a atividade de voo das abelhas.

Por isso, uma florada intensa nem sempre resulta em bom pegamento. É necessário que as condições ambientais favoreçam tanto o funcionamento da flor quanto a atividade dos polinizadores.

Cuidados com defensivos durante a florada

Durante o florescimento, o manejo fitossanitário deve considerar a intensa visitação de insetos benéficos. Uma aplicação inadequada pode comprometer justamente os organismos responsáveis pela polinização.

Inseticidas com elevada toxicidade para abelhas devem ser evitados durante a florada sempre que houver alternativa agronomicamente viável. A escolha deve considerar registro para a cultura e alvo, seletividade aos polinizadores, recomendações e restrições de rótulo e bula, persistência e momento de aplicação.

Quando uma aplicação for necessária e permitida, deve-se evitar os períodos de maior atividade das abelhas e reduzir ao máximo a deriva para colmeias e outras plantas em florescimento. A comunicação entre produtor, responsável técnico e apicultor é fundamental quando existem caixas instaladas na propriedade.

Biológicos como aliados

A florada reforça a importância do Manejo Integrado de Pragas e Doenças. Monitoramento, manejo cultural e produtos seletivos ajudam a reduzir intervenções de maior impacto sobre organismos benéficos.

Produtos biológicos à base de Bacillus, Beauveria, Metarhizium e Trichoderma, entre outros, podem integrar os programas de manejo de pragas e doenças e reduzir a dependência exclusiva do controle químico.

Entretanto, biológico não significa que o produto possa ser aplicado indiscriminadamente sobre flores e abelhas. Registro, bula, alvo, formulação e condições de aplicação devem ser respeitados.

O ideal é planejar o manejo fitossanitário antes da abertura intensa das flores, reduzindo a necessidade de intervenções críticas justamente no período de maior atividade dos polinizadores.

Da flor ao fruto

Uma florada abundante representa potencial produtivo, mas está muito distante da quantidade final de frutos. Uma árvore adulta pode produzir centenas de milhares ou até mais de um milhão de flores, enquanto apenas uma pequena fração chegará à colheita.

Como referência, trabalhos com a cultura indicam que o abacateiro pode apresentar pegamento final da ordem de um fruto para cada mil flores, embora essa relação varie bastante entre cultivares, condições ambientais e manejo.

Isso ocorre porque a polinização é apenas o início do processo. Depois dela ainda precisam ocorrer germinação do pólen, fecundação e pegamento inicial. Posteriormente, grande parte dos frutos jovens é naturalmente eliminada pela planta. Essa queda faz parte da fisiologia do abacateiro e é influenciada por temperatura, disponibilidade hídrica, nutrição, reservas de carboidratos e competição entre órgãos.

Portanto, uma boa polinização não significa que todas as flores polinizadas formarão frutos. Ela aumenta as oportunidades de fecundação e formação inicial de frutos, criando melhores condições para que a planta expresse seu potencial produtivo.

Polinização também é manejo do pomar

A polinização não deve ser encarada como um evento isolado. Em pomares comerciais, ela pode ser favorecida por decisões de manejo: combinar cultivares com floradas coincidentes e grupos florais complementares, conservar polinizadores nativos, utilizar colmeias fortes e bem distribuídas, acompanhar a visitação das flores e planejar cuidadosamente as aplicações durante a florada.

Na abacaticultura, proteger e favorecer os polinizadores não é apenas uma questão ambiental. É parte do manejo produtivo do pomar e uma das ferramentas disponíveis para transformar o elevado potencial de florescimento da cultura em frutos.

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