Estudo mostra que pecuária pode cortar até 74% das emissões e liderar ação climática no Brasil

Setor ocupa 64% da área agropecuária, mas gera apenas 17% do valor da produção.
Pecuária - Crédito: shurtterstock
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A pecuária brasileira, hoje responsável pela maior parte das emissões de gases de efeito estufa do país, pode ser também a principal alavanca para reduzir o desmatamento e acelerar a transição climática no Brasil. Essa é a principal conclusão do novo estudo “Como a Pecuária Pode Liderar a Ação Climática do Brasil”, publicado pelo projeto Amazônia 2030

Segundo o levantamento, a criação de gado bovino ocupa 64% da área agropecuária do país — mais de 160 milhões de hectares —, mas gera apenas 17% do valor bruto da produção agropecuária. Na Amazônia Legal, 80% da área agropecuária (75 milhões de hectares) está ocupada por pastagens, das quais 54% estão degradadas. Esse modelo extensivo e de baixa produtividade está associado aos principais vetores de desmatamento da Amazônia e do Cerrado.

Condição de vigor vegetativo dos pastos brasileiros em 2023.
Fonte de dados: (Mapbiomas Brasil, 2024)

“O estudo mostra que aumentar a produtividade da pecuária nas áreas já abertas, com apoio técnico e crédito bem direcionado, é mais eficiente e barato do que continuar desmatando”, explica Paulo Barreto, pesquisador do Imazon e coautor do estudo. Com políticas bem desenhadas, é possível manter a produção, reduzir emissões e conservar a floresta.

Três recomendações para uma pecuária mais sustentável

O estudo apresenta três diretrizes centrais para alinhar a pecuária às metas climáticas e à Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil:

  1. Focar investimentos em zonas de maior impacto — Áreas num raio de até 60 km dos frigoríficos concentram 96% da capacidade de abate e já têm melhor infraestrutura e menos embargos. Priorizar políticas nessas regiões acelera ganhos de produtividade e reduz a pressão sobre a floresta.
  2. Reorientar crédito rural com metas de produtividade e clima — Apenas 30% dos R$ 8,5 bilhões contratados em 2023 na Amazônia foram para ações que aumentam produtividade. Direcionar melhor esses recursos permitiria recuperar 216 mil hectares de pasto por ano, evitando o equivalente à expansão média dos últimos 10 anos e reduzindo em até 74% as emissões diretas por kg de carne.
  3. Eliminar incentivos ao desmatamento especulativo — Destinar cerca de 50 milhões de hectares de florestas públicas não destinadas (19 milhões federais e 31 milhões estaduais) para conservação, demarcação de terras indígenas e áreas protegidas. Isso atacaria a raiz do desmatamento ilegal e reduziria riscos financeiros para o país.
Hectares de pastos por vigor de pastagem e peso carcaça de animais abatidos entre 2000 e 2023 no Brasil com marcos do início do plano de combate ao desmatamento e das exportações para China condicionadas à qualidade da carne.
Fonte de dados: Cálculos dos autores com dados de peso de carcaça e animais abatidos (IBGE, s.d. e área de pastos (Mapbiomas Brasil 2023).


A pecuária bovina é a principal fonte de emissões do setor agropecuário, que responde por cerca de 75% das emissões de GEE do Brasil. A degradação ambiental tem impacto direto sobre a economia: segundo o Banco Central, a pecuária é o setor mais exposto ao risco de transição climática, com uma carteira de crédito estimada em R$ 130 bilhões (2022). Eventos climáticos extremos já afetam a estabilidade financeira do país e 44% das instituições financeiras relataram impactos em 2024. 

Para os pesquisadores, a COP30, que será realizada em Belém em novembro de 2025, representa uma oportunidade histórica para o Brasil apresentar ao mundo um plano sólido de transição climática ancorada na pecuária de baixo carbono. “A transição para uma pecuária mais eficiente e livre de desmatamento é não apenas possível, mas necessária para o futuro da Amazônia e do clima global”, reforça Barreto.

Acesse o estudo na íntegra, clique aqui.

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