Cultivo de eucalipto com aplicação de biossólido é alternativa lucrativa e sustentável

Publicado em 20 de dezembro de 2015 às 07h00

Última atualização em 20 de dezembro de 2015 às 07h00

Acompanhe tudo sobre Adubação, Água, Eucalipto, Matéria orgânica, Nitrogênio, Orgânicos, Resíduos e muito mais!

Aline Azevedo Nazário

Engenheira agrônoma e doutoranda em Engenharia Agrícola (UNICAMP/FEAGRI)

aline.a.n@hotmail.com

Ivo Zution Gonçalves

Doutor em Engenharia Agrícola (UNICAMP / FEAGRI) e pesquisador associado da Universidade de Nebraska, Water for Food Institute

 

Biossólido é o nome dado ao lodo de esgoto tratado, resultante do tratamento das águas residuárias das estações de tratamentos, cuja composição é predominantemente orgânica, variando em função de sua origem e do processo de tratamento.

No caso do biossólido gerado a partir das Estações de Tratamento de Esgoto doméstico (ETE), representa 0,01% do total bruto (parte sólida), dos quais 70% são compostos orgânicos (proteínas, carboidratos e gorduras) e 30% inorgânicos (areia, sais e metais), conforme figura a seguir.

Atenção

Devido à presença de patógenos (fração orgânica) e sua constituição química (fração inorgânica), a disposição final deste resíduo deve ser realizada de forma correta para prevenir a disseminação de doenças e impactos ambientais. No Brasil, geralmente o descarte é realizado em aterros sanitários, entretanto, como o volume de lodo de esgoto tratado aumenta a cada ano, influenciado pelo crescimento populacional e pelo número de ETE, a demanda é cada vez maior por espaços nos aterros, agravando o problema com o manejo do lixo urbano.

Somente o Estado de São Paulo, por exemplo, gera cerca de 750 toneladas todos os dias do biossólido seco. Dessa forma, uma alternativa para aproveitamento ou deposição final do lodo de esgoto seria submetê-lo a um processo de tratamento realizado por uma unidade de gerenciamento (UGL) ou na própria ETE, e assim utiliza-lo para fins florestais, pois além desta prática promover a ciclagem dos resíduos orgânicos provenientes dos centros urbanos, o biossólido é rico em matéria orgânica e em macro e micronutrientes para as plantas, melhorando as propriedades químicas, físicas e biológicas do solo, refletindo no aumento da produtividade.

Foto 02

 

Prática

A aplicação de lodo de esgoto tratado na agricultura é uma prática comum em vários países, como a China, Estados Unidos, Canadá, França, Alemanha e Inglaterra, mas no Brasil ainda é pouco difundida. Somente cerca de 30% das cidades brasileiras são dotadas de ETE, e ainda há barreiras culturais da população e carência em políticas públicas de incentivo para utilização deste tipo de material para fins agrícolas.

No Brasil, a aplicação do lodo de esgoto na agricultura está acondicionada às exigências estabelecidas pela resolução CONAMA 375, de agosto de 2006, que define critérios e procedimentos para o uso agrícola de lodos de esgoto gerados em estações de tratamento de esgoto sanitário e seus produtos derivados, e dá outras providências.

Essa resolução proíbe a utilização deste resíduo em várias culturas, como as olerícolas, pastagens, tubérculos e raízes inundadas, e outras, cuja parte comestível entra em contato com o solo.

No caso de espécies florestais, como o eucalipto, sua aplicação é permitida, desde que sejam considerados aspectos ligados à declividade do terreno, tipo de solo, profundidade do lençol freático, qualidade química e biológica do biossólido, dosagem e forma aplicação. Toda a aplicação de lodo de esgoto deve ser obrigatoriamente condicionada à elaboração de um projeto agronômico.

A taxa de aplicação anual deve levar em consideração o nitrogênio recomendado pela cultura do eucalipto de acordo com a orientação agronômica de cada Estado e o nitrogênio disponível no biossólido em base seca. A partir destes dados a taxa máxima que pode ser aplicada (t.ha-1) é dada pela seguinte fórmula:

Crédito Bruna Souto
Crédito Bruna Souto

Pesquisas

Várias pesquisas realizadas no Brasil relatam as vantagens do uso de lodo de esgoto doméstico tratado em cultivos de eucalipto, seja no desenvolvimento da cultura ou na qualidade do solo. De modo geral, o biossólido fornece ao solo nutriente em quantidades significativas, devido à natureza e tratamento do lodo de esgoto, contribuindo para a redução da aplicação de fertilizantes via adubação mineral.

Promove, ainda, a maior retenção de água e porosidade no solo devido aos incrementos de matéria orgânica, proporcionando, dessa maneira, aumento da biomassa radicular com reflexo direto na fitomassa aérea das plantas e na produtividade.

É valido ressaltar que o lodo de esgoto não deve ser aplicado visando atender todas as necessidades nutricionais do eucalipto – apenas o nitrogênio, pois o biossólido, apesar de conter os nutrientes necessários ao desenvolvimento da cultura, deixará os mesmos disponíveis de forma desbalanceada, devendo haver uma complementação via adubação mineral de acordo com análise do solo e do biossólido.

 O biossólido também pode ser utilizado como substrato na produção de mudas de eucalipto - Crédito Luize Hess
O biossólido também pode ser utilizado como substrato na produção de mudas de eucalipto – Crédito Luize Hess00

Segurança

Quando o biossólido é aplicado de forma correta, mostra-se seguro quanto ao problema de acúmulo de metais pesados no solo e na parte aérea de diversas culturas, com produtividade igual ou superior aos cultivos com adubação mineral.

Assim, o uso de biossólido em plantações de eucalipto no Brasil é uma opção fortemente indicada, pois os produtos dessa cultura não são destinados à alimentação humana ou animal. As aplicações são realizadas em grandes intervalos de tempo (cinco a sete anos), o que gera baixo impacto sobre o ecossistema, além de promover o sequestro de CO2.

O biossólido também pode ser utilizado como substrato na produção de mudas de eucalipto, desde que não seja utilizado de forma pura, devendo ser misturado a outros substratos, pois somente o biossólido não satisfaz todas as necessidades para o pleno desenvolvimento das mudas.

Essa matéria completa você encontra na edição de dezembro 2015/ janeiro 2016  da revista Campo & Negócios Floresta. Adquira já a sua para leitura integral.

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