Pastagens degradadas e técnicas de recuperação

Publicado em 6 de julho de 2026 às 05h38

Última atualização em 26 de junho de 2026 às 16h57

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Autoria:

Katia Cylene Guimarães

Raiane Soares de Sousa

Marco Antonio Pereira da Silva

As pastagens ocupam posição central nos sistemas de produção de carne e leite no Brasil. A maior parte dos rebanhos brasileiros é criada a pasto, o que torna a qualidade dessas áreas um dos principais fatores que determinam a produtividade e a rentabilidade da atividade pecuária. Apesar disso, a degradação das pastagens continua sendo um dos maiores desafios enfrentados pelo setor.

Embora seja um tema amplamente discutido, a degradação nem sempre recebe a atenção necessária dentro das propriedades. Isso acontece porque o processo costuma ser gradual. Em muitos casos, a redução da produtividade ocorre ao longo de vários anos, permitindo que o problema se instale sem provocar impactos imediatos que despertem preocupação. Quando os prejuízos se tornam evidentes, normalmente a capacidade de suporte da área já diminuiu, o desempenho animal foi comprometido e os custos para recuperar a produtividade passaram a ser mais elevados.

Figura 1. Sinalizadores e indicadores de degradação de pastagens.

Fonte: Adaptado de Dias-Filho (2023).

A importância desse tema fica ainda mais evidente quando observamos a dimensão do problema. Levantamentos realizados por profissionais da Embrapa indicam que uma parcela significativa das pastagens brasileiras apresenta algum grau de degradação. No Cerrado, um dos principais polos da pecuária nacional, milhões de hectares encontram-se em estágios intermediários ou avançados de perda de produtividade. Esse cenário limita o crescimento da atividade e reduz a eficiência de utilização das áreas já abertas para produção.

De forma simples, a degradação de pastagens pode ser entendida como a perda gradual da capacidade produtiva da área ao longo do tempo. Trata-se de um processo em que a forrageira reduz seu vigor, sua produtividade e sua capacidade de recuperação, passando a sustentar menos animais do que sustentava anteriormente. Em situações mais avançadas, o problema deixa de afetar apenas a planta forrageira e passa a comprometer também as condições físicas, químicas e biológicas do solo.

É importante destacar que a degradação não acontece de forma repentina. Normalmente existe uma sequência de eventos que leva à perda progressiva da produtividade. Inicialmente ocorre redução do vigor das plantas e diminuição da produção de forragem. Com o passar do tempo, começam a surgir falhas na cobertura vegetal, aumento da infestação por plantas invasoras, redução da população da forrageira desejada e queda na capacidade de suporte da área. Quando o processo continua avançando, podem surgir problemas como pragas, doenças, compactação do solo e erosão

Figura 2. Processo de degradação de pastagens.

Fonte: Cordeiro et al. (2022), adaptado de Macedo (2001).

Nesse contexto, uma distinção importante é a diferença entre degradação agrícola e degradação biológica. A degradação agrícola está relacionada principalmente às alterações na composição da pastagem, caracterizadas pelo aumento da participação de plantas invasoras e pela redução da presença da espécie forrageira originalmente implantada. Já a degradação biológica representa uma condição mais severa, em que o próprio solo perde sua capacidade de sustentar adequadamente a produção vegetal, resultando em redução acentuada da biomassa e exposição crescente da superfície do solo.

Diversos fatores podem contribuir para o avanço desse processo, mas dois deles aparecem de forma recorrente nas áreas degradadas: o manejo inadequado do pastejo e a falta de reposição de nutrientes. Em muitas propriedades, o número de animais mantidos na área não acompanha a disponibilidade de forragem produzida. Quando a taxa de lotação permanece acima da capacidade de suporte da pastagem, ocorre o superpastejo. Nessa situação, as plantas são consumidas repetidamente antes de completarem seu processo de recuperação, reduzindo gradativamente seu potencial produtivo.

As consequências desse manejo vão além da simples redução da oferta de forragem. O superpastejo favorece o aparecimento de plantas invasoras, reduz a cobertura do solo, aumenta os riscos de compactação e compromete o desenvolvimento do sistema radicular das forrageiras. Com menor capacidade de explorar água e nutrientes, as plantas tornam-se mais vulneráveis aos períodos de estiagem e menos competitivas dentro do sistema.

A fertilidade do solo também exerce papel decisivo nesse processo. Grande parte das áreas de pastagem brasileiras foi implantada em solos naturalmente pobres em nutrientes e dependentes de correção e adubação para expressar seu potencial produtivo. Entretanto, em muitas situações, a reposição desses nutrientes não ocorre de forma adequada ao longo dos anos. Como resultado, o solo perde gradativamente sua capacidade de sustentar elevados níveis de produção de forragem, acelerando a degradação da área.

Outros fatores também podem contribuir para esse cenário, como a utilização de espécies forrageiras pouco adaptadas às condições locais, falhas durante a implantação da pastagem, uso de sementes de baixa qualidade, ausência de práticas conservacionistas e problemas relacionados ao controle de pragas, doenças e plantas invasoras. Na prática, a degradação costuma ser consequência da combinação de vários desses fatores, e não de uma única causa isolada.

Diante desse cenário, a recuperação das pastagens surge como uma estratégia fundamental para aumentar a eficiência da produção pecuária. No entanto, a escolha da técnica mais adequada depende do nível de degradação da área e das condições produtivas da propriedade.

Quando a população de plantas forrageiras ainda é satisfatória e os principais problemas estão relacionados ao manejo e à fertilidade do solo, normalmente é possível realizar a recuperação da pastagem sem necessidade de reimplantação. Nesses casos, práticas como correção da acidez do solo, adubação, controle de invasoras e ajuste da taxa de lotação costumam proporcionar resultados expressivos. Esse processo é conhecido como recuperação direta, pois busca restabelecer a produtividade mantendo a mesma espécie forrageira já existente na área.

Por outro lado, quando a degradação é mais intensa e a população de plantas desejáveis foi severamente reduzida, pode ser necessária a renovação da pastagem. Essa estratégia envolve a reimplantação da área, podendo utilizar a mesma espécie ou uma nova cultivar mais adequada às condições locais e aos objetivos do sistema de produção. Embora exija investimentos maiores, a renovação oferece a oportunidade de corrigir problemas acumulados ao longo dos anos e restabelecer completamente o potencial produtivo da área.

Figura 3. Níveis de degradação de pastagens.

Fonte: Dias-Filho (2023).

Nos últimos anos, os sistemas integrados também passaram a ocupar papel importante na recuperação de áreas degradadas. A integração lavoura-pecuária e a integração lavoura-pecuária-floresta permitem associar a recuperação das pastagens à produção agrícola, contribuindo para diluir custos e acelerar a melhoria das condições do solo. Além dos benefícios econômicos, esses sistemas favorecem maior eficiência no uso da terra e ampliam a sustentabilidade da atividade.

Entretanto, por mais eficientes que sejam as técnicas de recuperação, nenhuma delas costuma ser mais vantajosa do que evitar que a degradação aconteça. O manejo preventivo continua sendo a estratégia mais eficiente e econômica disponível ao produtor. Monitorar regularmente a condição da pastagem, ajustar a taxa de lotação, realizar análises de solo, corrigir a fertilidade quando necessário e controlar precocemente plantas invasoras são medidas capazes de prolongar significativamente a vida útil da área e preservar sua capacidade produtiva.

A pecuária brasileira possui grande potencial para aumentar sua produção sem necessidade de expansão territorial. Parte importante desse avanço depende da melhoria das áreas já existentes. Recuperar pastagens degradadas significa produzir mais carne e mais leite na mesma área, aumentar a rentabilidade da propriedade e utilizar de forma mais eficiente os recursos disponíveis. Mais do que uma prática agronômica, a recuperação de pastagens deve ser encarada como uma ferramenta estratégica para a sustentabilidade e a competitividade da pecuária moderna.

REFERÊNCIAS

DIAS-FILHO, Moacyr Bernardino. Degradação de pastagens: processos, causas e estratégias de recuperação e prevenção.Belém, PA: Ed. do Autor, 2023. 59 p. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1173673/1/Degradacao-de-pastagens-Moacyr-Dias-Filho.pdf

BORGHI, E. et al. Recuperação de pastagens degradadas. In: NOBRE, M. M.; OLIVEIRA, I. R. de (ed.). Agricultura de baixo carbono: tecnologias e estratégias de implantação. Brasília, DF: Embrapa, 2018. cap. 4, p. 105–138. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1101768/1/Recuperacaopastagens.pdf

CORDEIRO, Luiz Adriano Maia et al. Estratégias para recuperação e renovação de pastagens degradadas no Cerrado. Planaltina, DF: Embrapa Cerrados, 2022. 27 p. (Documentos, 397). Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/1152245/1/Doc-397-web.pdf

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