Genética do morango avança e redefine produtividade, qualidade e sustentabilidade

Avanços no melhoramento genético do morangueiro ampliam a produtividade, elevam a qualidade das frutas, fortalecem a sustentabilidade dos sistemas de cultivo e permitem a expansão da cultura para novas regiões, mesmo diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas.
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O sucesso de uma nova cultivar de morango começa pela correta definição das prioridades genéticas, que precisam atender simultaneamente às demandas dos produtores e às expectativas do consumidor.

Segundo o engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa, Sandro Bonow, características como vigor de planta, tolerância ou resistência às principais pragas e doenças, precocidade de produção, resposta ao fotoperíodo, produtividade e estabilidade ao longo da safra são centrais nos programas de melhoramento.

“Do ponto de vista do mercado, as frutas precisam reunir sabor, doçura, cor atraente, brilho, tamanho adequado, firmeza e boa conservação pós-colheita. Além disso, a adaptação regional e a estabilidade produtiva são requisitos indispensáveis para que a cultivar tenha desempenho consistente em diferentes condições de cultivo”, define.

Fotos: Sandro Bonow

Genética amplia fronteiras do cultivo no Brasil

A expansão do morango para regiões antes consideradas inviáveis está diretamente ligada aos avanços genéticos. O principal limitante nessas áreas é o clima, especialmente as altas temperaturas. Para contornar esse desafio, o pesquisador diz que o melhoramento genético caminha lado a lado com ajustes no sistema de produção, como o cultivo fora de solo, que ajuda a mitigar estresses ambientais.

Mesmo com progressos importantes, Bonow destaca que o desenvolvimento de genótipos mais resilientes ao calor segue como um dos maiores desafios atuais da pesquisa em morangueiro no Brasil.

Ainda há espaço para avançar em produtividade e qualidade

Embora o produtor brasileiro já tenha acesso a genótipos altamente produtivos, o potencial de avanço permanece significativo. O aumento da produtividade depende da combinação de fatores diretos, como maior peso médio e número de frutos por planta, e indiretos, como maior tolerância a estresses bióticos e abióticos.

Em termos de qualidade, há amplo espaço para evolução, especialmente no sabor. Comparado a mercados como o asiático, o Brasil ainda pode avançar no desenvolvimento de cultivares mais doces, alinhadas à preferência do consumidor nacional.

Estabilidade produtiva como critério-chave de seleção

A instabilidade de produção entre safras está fortemente relacionada às variações climáticas, como ondas de calor ou frio, mudanças na luminosidade e no regime de chuvas. Por isso, a seleção de genótipos resilientes é uma etapa fundamental do melhoramento.

Antes de chegar ao mercado, as cultivares passam por avaliações em diferentes regiões e por várias safras, garantindo não apenas adaptação regional, mas também estabilidade produtiva ao longo dos anos.

Campo de seleção do programa da Embrapa

Genética como ferramenta frente às mudanças climáticas

As mudanças climáticas impõem cenários cada vez mais desafiadores à agricultura. No morango, o aumento da temperatura média, a maior frequência de eventos extremos e as alterações nos padrões de precipitação podem impactar desde a fenologia até a dinâmica de pragas e doenças.

Nesse contexto, Bonow ressalta que o melhoramento genético assume papel estratégico, com foco prioritário no desenvolvimento de cultivares tolerantes a altas temperaturas e, de forma mais ampla, resilientes a diferentes estresses ambientais.

O que mais pesa na escolha do consumidor

A aceitação do morango pelo consumidor passa por um conjunto de atributos. A aparência, cor, formato, brilho e tamanho, é determinante no momento da compra. No entanto, o sabor é o fator que garante a recompra.

O consumidor brasileiro valoriza frutas doces, e essa característica tem sido prioridade nos programas de melhoramento. “A firmeza e a durabilidade pós-colheita também são essenciais, pois asseguram qualidade durante o transporte e maior vida útil após a colheita”, pondera o pesquisador.

Morangos “exóticos”: inovação com mercado definido

Características não tradicionais, como os morangos brancos, têm ganhado espaço na pesquisa e já são realidade em mercados asiáticos. No Brasil, entretanto, essas cultivares devem permanecer restritas a nichos específicos.

O mesmo ocorre com morangos ornamentais, que chamam atenção pela coloração das flores, mas tendem a ocupar um espaço limitado, voltado a mercados diferenciados.

Sustentabilidade começa na genética

A genética tem papel central na redução do uso de defensivos e na construção de sistemas produtivos mais sustentáveis. Os programas de melhoramento buscam plantas com maior resistência genética a doenças, além de maior vigor e rusticidade.

Características como arquitetura de planta mais aberta, que favorece a entrada de luz e a circulação de ar, ajudam a reduzir a umidade interna e, consequentemente, a incidência de patógenos.

Do laboratório ao campo: um processo de longo prazo

O desenvolvimento de uma nova cultivar de morango é um processo complexo e demorado. Desde a definição das características-alvo até a disponibilização das mudas ao produtor, o ciclo leva, em média, de 8,0 a 10 anos.

Bonow informa que esse período inclui hibridações, seleção de plantas superiores, avaliações regionais, testes de estabilidade produtiva e a formação de plantas matrizes.

Lições para o futuro das pequenas frutas

A evolução da genética do morango é um exemplo claro de como o melhoramento pode transformar uma cadeia produtiva. Dados históricos mostram que a produtividade saltou de cerca de 220 gramas por planta, na década de 1980, para mais de 1.200 gramas por planta nas cultivares atuais.

Esse avanço serve de referência para outras pequenas frutas, como amora-preta e mirtilo, que apresentam grande potencial de crescimento. “A Embrapa, inclusive, mantém programas nacionais de melhoramento para essas culturas, mirando ganhos semelhantes no futuro”, conclui o pesquisador.

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