Autoria: Geraldo Pereira de Souza Neto; Carlos Frederico de Souza Castro; Marco Antônio Pereira da Silva
As castanhas nativas do Cerrado goiano, representadas principalmente pelas amêndoas de baru (Dipteryx alata), bocaiúva (Acrocomia aculeata) e pequi (Caryocar brasiliense), constituem recursos alimentares regionais de elevado potencial nutricional e tecnológico. Esses frutos oleaginosos apresentam ampla variabilidade na composição centesimal, refletindo diferenças interespecíficas no acúmulo de proteínas, lipídios, fibras e minerais, além de variações associadas a fatores edafoclimáticos e ao processamento pós-colheita (Hiane et al., 1992; Hiane et al., 2006).
Entre essas espécies, o baru destaca-se como uma das castanhas mais promissoras do Cerrado, devido ao seu elevado teor proteico e à predominância de ácidos graxos insaturados, características que o aproximam nutricionalmente de oleaginosas comerciais amplamente utilizadas, como amêndoas e nozes (Freitas & Naves, 2010; Dos Santos et al., 2024). Por sua vez, a bocaiúva apresenta alto teor lipídico e fibra alimentar, além de composição mineral relevante, o que a qualifica tanto para extração de óleo quanto para uso em formulações alimentares funcionais (Hiane et al., 2006; Bora & Rocha, 2004).
A amêndoa de pequi diferencia-se pelo elevado conteúdo de óleo e pelo perfil lipídico rico em ácido oleico e palmítico, sendo considerada a fração de maior valor nutricional do fruto, em comparação à polpa e à casca (Hiane et al., 1992; Ribeiro et al., 2004). Estudos de caracterização físico-química indicam que essas castanhas não constituem um grupo nutricionalmente homogêneo, exigindo avaliações específicas para direcionar sua aplicação em alimentos, óleos especiais e dietas animais (Freitas & Naves, 2010).
Nesse contexto, a compreensão das diferenças nutricionais entre castanhas do Cerrado goiano torna-se essencial para subsidiar estratégias de aproveitamento sustentável da biodiversidade, agregação de valor às cadeias produtivas regionais e desenvolvimento de produtos com identidade territorial.
2. Desenvolvimento
As castanhas nativas do Cerrado goiano apresentam composição química heterogênea, refletindo diferenças interespecíficas no acúmulo de proteínas, lipídios, fibras e minerais. Entre as espécies mais estudadas, destacam-se a amêndoa de baru (Dipteryx alata), a amêndoa de bocaiúva (Acrocomia aculeata) e a amêndoa de pequi (Caryocar brasiliense), cujos perfis nutricionais indicam potenciais aplicações distintas na alimentação humana e animal.
A amêndoa de baru caracteriza-se por elevado teor proteico, variando entre 19 e 30 g/100 g, valor superior ao observado na maioria das oleaginosas nativas, além de apresentar fração lipídica majoritariamente composta por ácidos graxos insaturados, que representam cerca de 75 a 81% do total de lipídios (Dos Santos et al., 2024). Essa combinação confere ao baru destaque como fonte regional de proteína vegetal e lipídios de melhor qualidade nutricional.
Em contraste, a amêndoa de bocaiúva apresenta maior teor de lipídios, com valores em torno de 51,7%, e teores moderados de proteína (aproximadamente 17,6%) e fibra (15,8%), conforme descrito por Hiane et al. (2006). Esse perfil indica maior vocação da bocaiúva para extração de óleo e aplicações energéticas, além de potencial como ingrediente funcional devido ao seu conteúdo mineral.
A amêndoa de pequi, por sua vez, distingue-se pelo alto teor de óleo e pelo perfil lipídico rico em ácido oleico e ácido palmítico, além de apresentar teor proteico superior ao da polpa do fruto, sendo considerada a fração mais nutritiva do pequi (Hiane et al., 1992). A predominância de ácidos graxos monoinsaturados sugere estabilidade oxidativa relativamente maior em comparação a óleos mais poli-insaturados.
Essas diferenças evidenciam que as castanhas do Cerrado não constituem um grupo nutricionalmente homogêneo, sendo necessário considerar suas particularidades para direcionar usos específicos, seja na formulação de alimentos funcionais, na produção de óleos especiais ou na inclusão em dietas animais.
Tabela 1: Composição nutricional comparativa das castanhas do Cerrado
Valores aproximados em base seca ou por 100 g de amêndoa.
Fonte: Elaborado pelos autores com base em Dos Santos et al. (2024); Hiane et al. (2006); Hiane et al. (1992).
3. Considerações Finais
As castanhas nativas do Cerrado goiano apresentam composição nutricional distinta, evidenciando que esse grupo de oleaginosas não é homogêneo do ponto de vista químico e funcional. A amêndoa de baru destaca-se pelo elevado teor proteico e pela predominância de ácidos graxos insaturados, enquanto a bocaiúva apresenta maior conteúdo lipídico e fibra, e o pequi reúne alto teor de óleo com perfil rico em ácido oleico. Essas diferenças reforçam a importância de caracterizações específicas para orientar o uso tecnológico e nutricional de cada espécie. A valorização dessas matérias-primas regionais pode contribuir para o desenvolvimento de produtos diferenciados, o aproveitamento sustentável da biodiversidade e a agregação de valor às cadeias produtivas do Cerrado.
4. Referências Bibliográficas
DOS SANTOS, J. M. et al. Baru (Dipteryx alata): a comprehensive review of its nutritional value, functional foods, chemical composition, ethnopharmacology, pharmacological activities and benefits for human health. Brazilian Journal of Biology, v. 84, e278932, 2024.
FREITAS, J. B.; NAVES, M. M. V. Chemical composition of nuts and edible seeds and their relation to nutrition and health. Revista de Nutrição, v. 23, n. 2, p. 269–279, 2010.
HIANE, P. A. et al. Composição centesimal e perfil de ácidos graxos de alguns frutos nativos do Estado de Mato Grosso do Sul. Boletim do Centro de Pesquisa de Processamento de Alimentos, v. 10, n. 1, p. 45–52, 1992.
HIANE, P. A. et al. Chemical and nutritional evaluation of kernels of bocaiuva, Acrocomia aculeata (Jacq.) Lodd. Ciência e Tecnologia de Alimentos, v. 26, n. 1, p. 123–129, 2006.


