As perdas de alimentos e o Brasil 

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Publicado em 29 de maio de 2017 às 08h53

Última atualização em 29 de maio de 2017 às 08h53

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Jornal “Folha de São Paulo“, Caderno Mercado, 27/05/2017

 

Marcos Sawaya Jank (*)

Altivo A. Almeida Cunha (**)

 

Um terço do que é desperdiçado no mundo já seria suficiente para eliminar a fome.

 

Hortaliças 06 - Crédito ShutterstockAumentar a produção agropecuária e melhorar a qualidade e a sanidade dos alimentos não são os únicos fatores que contam na meta de alimentar os 9 bilhões que se espremerão no planeta em 2050. Há um outro aspecto tão ou mais importante que esses: a redução das imensas perdas e desperdícios de alimentos que acontecem em todas as geografias do planeta.

A ONU estima que um terço da produção mundial de alimentos seja perdida (antes do consumo final) ou desperdiçada (durante ou após o consumo) a cada ano no mundo. Isso equivale a US$ 940 bilhões em valor ou 1,3 bilhão de toneladas de alimentos em volume. Uma calamidade global, pois apenas um terço do volume perdido ou desperdiçado já seria suficiente para saciar a fome no mundo, que hoje atinge 1 bilhão de pessoas.

Os maiores índices concentram-se nos países desenvolvidos, onde mais da metade das perdas se dá no consumo final, via desperdício de alimentos de boa qualidade nos lares, restaurantes, cafés, serviços de alimentação etc.

Com mais de 40% de desperdício, os EUA lideram o mundo nessa área. Segundo a rede Refed (Rethink Food Waste), o desperdício dos americanos chega a US$ 218 bilhões ao ano, ou 1,3% do PIB. Transformados em recursos e insumos, isso equivale a 18% da terra cultivada, 19% do uso de fertilizantes e 21% da água para uso agrícola naquele país.

Nos países em desenvolvimento, perdas e desperdícios são menores, mas nada desprezíveis: entre 15% (na América Latina) e 22% (na África) da produção de alimentos. Nesses países as perdas se concentram mais no início da cadeia alimentar, nas etapas da produção agropecuária, colheita e armazenagem.

Especialistas recomendam diversas ações para reduzir perdas e desperdícios: aumentar a eficiência da colheita, melhor planejamento da cadeia de suprimentos, investimento em infraestrutura (principalmente estradas e armazéns, incluindo a ampliação da cadeia fria), embalagens mais adequadas, acesso aos mercados, ampliar a doação de alimentos que não foram comercializados, fornecer alternativas para preparo integral de alimentos, reduzir o tamanho das porções vendidas.

O WRI (World Resources Institute) estima que o Brasil perca ou desperdice 15 milhões de toneladas de alimentos por ano. A FAO fala em 15% da produção brasileira.

As evidências mostram o Brasil como um país que alia características de países em desenvolvimento “”no que diz respeito a perdas nas propriedades rurais e no escoamento da produção“” com hábitos perdulários de consumo do mundo rico, como o elevado descarte de alimentos após o consumo.

Várias iniciativas estão em curso para lidar com essa verdadeira epidemia global. Um é a excelente “Save Food Brasil”, iniciativa original da FAO que reúne instituições e empresas em torno de projetos para combater o desperdício de alimento. Ela se soma a uma série de programas bem-sucedidos, como o Mesa Brasil, do Sesc, e uma rede de 220 bancos de alimentos, públicos e privados, que distribuem alimentos de qualidade preservada, que não foram comercializados, para entidades assistenciais. São 44 bancos sediados em centrais de abastecimento, maior índice mundial.

O esforço para reduzir perdas e desperdícios deve começar pela decisão individual de reduzir a quantidade de comida boa que vai para o lixo em cada casa e restaurante. Ela passa também por maior eficiência em cada um dos elos da cadeia produtiva, das sementes ao varejo.

Para se tornar o “celeiro do mundo”, o Brasil deveria se preocupar em liderar não apenas a produção de alimentos mas também a redução de perdas e desperdícios.

 

(*) Marcos Sawaya Jank é especialista em questões globais do agronegócio. Escreve aos sábados, a cada duas semanas.

(**) Altivo Andrade de Almeida Cunha, especialista em abastecimento, é consultor do escritório regional da FAO para a América Latina e Caribe.

 

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