Como reconhecer a deficiência de nitrogênio nas árvores?

Em que época do ano devo adubar? De que modo faço a adubação? Em que estágio da planta adubo?Estes e tantos outros questionamentos fazem parte da rotina dos grandes e pequenos produtores que já se conscientizaram da importância dessa operação para que se tenha o retorno econômico desejado com as culturas florestais.
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Vitor Augusto Cordeiro Milagres
Diretor da empresa Santa Maria Inovações Agroflorestais
santamariaagroflorestal@gmail.com

A cadeia produtiva florestal está a todo vapor. Empresas de Norte a Sul do Brasil anunciam projetos de expansão de suas fábricas, com investimentos que giram de milhões a bilhões de reais, sugerindo um crescimento do setor nunca visto na nossa história.

Estes números chamam atenção de investidores e especialistas de todo o mundo, uma vez que a sua participação no PIB nacional é cada vez mais significativa. De acordo com os dados do relatório do IBÁ 2021, na última década o valor adicionado da cadeia produtiva do setor de árvores cultivadas foi de 10,2%, enquanto o PIB do País cresceu apenas 2,7% de 2010 a 2020.

A expansão florestal não foi apenas em área, mas principalmente em produtividade. Além das características edafoclimáticas nacionais particularmente favoráveis, temos todo um empenho em melhoramento genético, silvicultura e manejo que trabalham incessantemente para o desenvolvimento florestal, não só em espécies exóticas, como eucalipto e pinus, mas também espécies nativas que estão ganhando seu espaço no mercado.

Um dos fatores que mais contribuiu para o aumento em produtividade foram os avanços no manejo da adubação. Modelos matemáticos e tecnologia em fertilizantes são constantemente desenvolvidos para otimizar a adubação, pensando muito além da quantidade a ser aplicada do adubo, mas respondendo questões pertinentes e necessárias, tais como: Em que época do ano devo adubar? De que modo faço a adubação? Em que estágio da planta adubo?

Estes e tantos outros questionamentos fazem parte da rotina dos grandes e pequenos produtores que já se conscientizaram da importância dessa operação para que se tenha o retorno econômico desejado com as culturas florestais.

Azoto

Um elemento que não pode faltar na maioria dos solos brasileiros é o azoto. Não assuste se você nunca ouviu falar dele, trata-se do macronutriente nitrogênio. Este nutriente participa de diversos processos essenciais das plantas, entre eles o da biossíntese de proteínas e clorofila.

Apesar de sua essencialidade para a planta, a adubação de nitrogênio tem suas particularidades, e são comuns as perdas de nitrogênio, seja por lixiviação ou por volatilização.

A lixiviação é o processo de descida do nitrato com a água no perfil do solo, e sua ocorrência é mais comum em solos arenosos e naqueles com pouca matéria orgânica. A volatilização, por sua vez, é a perda de nitrogênio na forma de gás (NH3), e é mais comumente vista quando se aplica ureia de forma inadequada.

Fique de olho

Você sabe como reconhecer a deficiência de azoto nas espécies arbóreas? A perda de nitrogênio pode ser identificada especialmente de duas formas: a diagnose visual e a diagnose foliar.

Quando vamos numa consulta médica é comum ouvirmos do médico: “O que você está sentindo?”. Esta pergunta é feita, pois nosso organismo manifesta fisicamente, seja por variações em cores, dores, nódulos e outras anormalidades quando apresenta algum sintoma, e isto, juntamente com os exames laboratoriais, contribui para o estabelecimento do diagnóstico médico.

Analogamente, o técnico florestal, pela diagnose visual, consegue perceber padrões de anormalidades na planta que, juntamente com os resultados de uma análise foliar, pode auxiliar a gerar uma recomendação nutricional corretiva para as plantas.

O sintoma visual de deficiência de nitrogênio é caracterizado pela clorose em folhas velhas, isto é, coloração verde-clara a amarela em toda a folha. Em estágios mais avançados, podem aparecer pontos avermelhados antes de sua senescência (morte).

Veja alguns exemplos em eucalipto e mogno (Figuras 1, 2 e 3).

 Figura 1:

Eucalipto com deficiência de nitrogênio. Folhas velhas com clorose, folhas novas com coloração esverdeada/Vitor Augusto Cordeiro Milagres

 Figura 2:

Eucalipto com deficiência de nitrogênio. Folhas velhas com clorose, folhas novas com coloração esverdeada/Vitor Augusto Cordeiro Milagres

Sintomas

Muitos questionam como diferenciar os sintomas de deficiência nutricional com doenças, pragas e outras anomalias. Para fazer um correto diagnóstico é importante observar os seguintes padrões:

1) Simetria dos sintomas: a deficiência nutricional é apresentada em ambos os lados da planta, conforme observado na figura 2.

2) Gradiente dos sintomas: de acordo com a mobilidade dos nutrientes dentro da planta, alguns apresentam os sintomas em folhas novas e outros em folhas velhas. O nitrogênio, fósforo, potássio e magnésio, por serem mais móveis, apresentam os sintomas nas folhas velhas. Por sua vez, os nutrientes considerados imóveis ou pouco móveis, como é o caso do cálcio, enxofre, boro, zinco, cobre, manganês e ferro, apresentam sua deficiência nas folhas novas.

3) Representatividade: além dos padrões supracitados, é importante observar a representatividade da deficiência dentro do talhão. Trata-se de uma planta específica ou de todo o talhão? Esses fatores, em conjunto, contribuem para a identificação em campo.

 Figura 3:

Mudas de mogno africano com deficiência de nitrogênio à esquerda. Mudas bem nutridas à direta/Vitor Augusto Cordeiro Milagres

Identificação

A identificação dos sintomas visuais, apesar de sua praticidade, apresenta algumas limitações. Pode acontecer de a planta expressar a deficiência de mais de um nutriente, especialmente em áreas não adubadas ou adubadas de forma irregular.

Múltiplos sintomas dificultam a identificação visual. Outro aspecto relevante é que um determinado nutriente pode estar em baixa concentração na planta sem que ela apresente sintomas. Esse processo é conhecido como “fome oculta”.

Para suprir as limitações da análise visual, outro método comumente usado para a identificação do estado nutricional das plantas é a diagnose foliar. Este é um método de avaliação em que são analisadas as folhas das plantas em determinado estágio de seu desenvolvimento.

Para que a diagnose foliar tenha os resultados desejados, é necessário que a amostragem seja representativa da área. Para eucalipto, recomenda-se coletar em torno de 50 a 100 folhas no terço superior da copa das árvores, em cada ponto cardeal, e em média 20 árvores por área amostral.

As folhas coletadas devem ser as primeiras completamente maduras, que geralmente representam da 4ª a 6ª folha desde a ponta do ramo, conforme imagem 4.

Figura 4:

Indicação da localização para coleta de folhas para o monitoramento nutricional de eucalipto/Vitor Augusto Cordeiro Milagres

Variações

Para o cultivo de pinus, pode-se utilizar a mesma metodologia para a coleta das acículas. A cultura da seringueira tem uma variação: Deve-se coletar nas mesmas quantidades e proporções, porém, selecionar as folhas à sombra da base do terço superior da copa.

Uma vez de posse dos resultados da análise laboratorial, é possível verificar se a área amostral com o cultivo florestal apresenta deficiência de nitrogênio, comparando os resultados obtidos com valores de referência.

Na tabela 1 encontra-se uma interpretação de faixas de deficiência de nitrogênio para eucalipto, pinus e seringueira comparados por diversos autores.

Tabela 1: Tabelas de referência de deficiência nutricional de nitrogênio para eucalipto, pinus e seringueira.

EspéciesMalavolta, 19921Gonçalves, 19952Silveira et al., 1998 e 199934Oliveira, 20045Cantarutti et al., 20076
Eucalipto< 10< 13,5< 1614-16< 13,5
Pinus< 9< 1111-13< 12,6
Seringueira< 2029-35< 26

1. Malavolta, E. ABC da Análise de solos e folhas. Folhas. Interpretação. 1992. Editora Agronômica CERES. p.89-90.

2. Gonçalves, J. L. M. Recomendações de adubação para Eucalyptus, Pinus e espécies típicas da Mata Atlântica. Documentos Florestais – IPEF. 1995. Piracicaba: 1-23.

3. Silveira, R.L.V.A; Higashi, E.N; Pompermayer, P.N. Monitoramento nutricional na siderúrgica Barra Mansa. 1998. p.92.

4. Silveira, R.L.V.A; Higashi, E.N; Moreira, A. Monitoramento nutricional na Lwarcel. Relatório de assessoria e pesquisa. 1999. p.62.

5. Oliveira, S.A. Análise foliar. Cerrado: correção do solo e adubação. 2004. Embrapa Informação Tecnológica. Brasília. p.252-253.

6. Cantarutti, R. B.; Barros, N. F.; Martinez, H. E. P.; Novais, R. F. Avaliação da fertilidade do solo e recomendação de fertilizantes. 2007. Fertilidade do solo. Sociedade Brasileira de Ciência do Solo. p.831-833.

Além das tabelas de referência, existem sistemas e métodos de interpretação dos resultados da análise foliar que utilizam as informações das análises laboratoriais, como é o caso de DRIS (Sistema Integrado de Diagnose e Recomendação) e os Índices Balanceados de Kenworthy.

Estes métodos contribuem para que o silvicultor tenha ferramentas para gerar a recomendação de adubação mais assertiva para a cultura florestal de seu interesse e mitigue as deficiências nutricionais que tanto impactam na perda de produtividade.

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