Análise de solo é essencial na pós-colheita de grãos?

Publicado em 12 de março de 2020 às 08h21

Última atualização em 12 de março de 2020 às 08h21

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Autores

Elisamara Caldeira do Nascimento
Engenheira agrônoma, doutora e pós-doutoranda em Agronomia/Ciência do Solo – Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT)
elisamara.caldeira@gmail.com
Talita de Santana Matos
Engenheira agrônoma, doutora e pós-doutoranda em Agronomia/Ciência do Solo – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ)
talitasmatos@gmail.com
Glaucio da Cruz Genuncio
Engenheiro agrônomo, doutor em Agronomia/Ciência do Solo e professor – UFMT/FAAZ/DFF
glauciogenuncio@gmail.com

Fotos: Shutterstock  

A análise de solo deveria ser um item primordial e realizado de forma rotineira nas fazendas de produção de grãos do Brasil. Infelizmente, esta prática é, muitas vezes, negligenciada, incidindo em adubações incorretas e perdas em produtividade.

O procedimento de amostragem de solos é uma prática de grande relevância, pois irá determinar a fertilidade atual do solo, para que possam ser corrigidas de forma mais precisa as características produtivas, o que afetará o potencial de rendimento final da cultura a ser cultivada.

A análise tem baixo custo operacional, comparada aos enormes benefícios que traz. Por ela são geradas as recomendações para calagem e/ou adubação a fim de aumentar a produtividade das glebas e, por fim, diminuir o custo, utilizando-se adubações corretas e reduzindo os gastos com fórmulas desnecessárias.

Os solos são normalmente heterogêneos e a variabilidade espacial de características químicas do perfil ocorre naturalmente como consequência de processos pedogenéticos (Mausbach & Wilding, 1991), mas pode ser alterada pelas ações antrópicas, mediante o manejo do solo.

Por exemplo, a aplicação localizada de fertilizantes nas linhas de semeadura aumenta a variabilidade horizontal dos valores do teor de nutrientes em solos sob plantio direto, sobretudo no sentido perpendicular às linhas de semeadura. A diferença dos índices de fertilidade do solo sob plantio direto (PD) geralmente é maior que sob cultivo convencional (PC), como consequência do não revolvimento do solo e das aplicações localizadas de corretivos e fertilizantes.

Em detalhes

Para a amostragem, a propriedade deve ser dividida em glebas homogêneas, nunca superiores a 20 hectares, e amostradas isoladamente. As glebas devem ser homogêneas, com a mesma posição topográfica (solos de morro, meia encosta, baixada), cor do solo, textura (solos argilosos, arenosos), cultura ou vegetação anterior, adubação e calagem anteriores.

Considerando a heterogeneidade dos solos, quanto mais amostragens fossem realizadas, melhor seria. Contudo, as limitações financeiras e de mão de obra precisam ser consideradas e as pesquisas agronômicas nos indicam que 20 subamostras coletadas aleatoriamente, em zigue zague, são suficientemente representativas para cada gleba.

Além da coleta na porção de solo na profundidade de 0 – 20 cm, é interessante que se realize uma amostra da camada de 20 – 40 cm, avaliando-se assim a construção de um perfil de fertilidade do solo adequado ao cultivo subsequente de grãos. A análise de solo abaixo da camada arável serve para diagnosticar o excesso de acidez, que dificulta o crescimento das raízes e os teores de alguns nutrientes.

Em áreas cultivadas em sistema de plantio direto há vários anos, é interessante a amostragem na camada de 0 a 10 cm para monitorar o acúmulo de nutrientes na superfície do solo.

A época e frequência de amostragem para as culturas anuais é o início do período de seca (cerca de três a quatro meses antes do plantio), e para as culturas perenes, logo após a colheita. A frequência de amostragem na mesma gleba é variável, devendo ser repetida em intervalos que podem variar de um a quatro anos (dependendo da intensidade de uso e manejo) e com amostragens anuais em glebas cultivadas intensivamente e com altas produtividades.

Ajuda profissional é primordial

Existem, no País, diversos laboratórios, públicos e privados, capacitados para realizar análises de solos, devendo ser dada preferência para aqueles ligados a um Programa de Análise de Qualidade de Laboratórios de Fertilidade.

Uma análise completa para avaliação da fertilidade do solo deve incluir as seguintes determinações: pH, fósforo, potássio, cálcio, magnésio, enxofre, zinco, manganês, cobre, ferro, boro, alumínio, hidrogênio mais alumínio, teor de matéria orgânica e granulometria (textura) (Furtini Neto et al., 2001).

As tabelas com as classes de interpretação de resultados podem variar em função dos métodos de extração utilizados pelos laboratórios. Portanto, os critérios de interpretação não são únicos e variam entre Estados. Desta forma, é importante que um engenheiro agrônomo seja consultado para que o plano de manejo da adubação possa ser implementado da melhor forma possível.

Embora os procedimentos para a amostragem do solo sejam amplamente divulgados no meio rural e se mostrem de fácil compreensão, dada a sua importância em todo o processo, recomenda-se que antes da coleta o produtor busque apoio da assistência técnica local, de forma que o resultado final seja realmente aquele que possa contribuir para o adequado manejo da fertilidade do solo e, consequentemente, aumento de produtividade e lucratividade.

Inovações

Uma novidade relacionada à análise de solos diz respeito à bioanálise (BioAS). Ela consiste na análise de dois bioindicadores que estão relacionados, direta ou indiretamente, ao potencial produtivo e à sustentabilidade do uso do solo.

Desse modo, a BioAS é complementar às análises de rotina de solo tradicionais. Trata-se de uma inovação que está alinhada ao objetivo de viabilizar tecnologias, que promovam a sustentabilidade das atividades agrícolas com o equilíbrio ambiental.

Até recentemente, a presença de bioindicadores que ajudassem a avaliar a qualidade dos solos ainda não fazia parte das rotinas de análises de solo no Brasil e na maioria dos países do mundo.

Nos últimos 20 anos a Embrapa tem se dedicado à seleção de bioindicadores robustos, que permitam que o agricultor brasileiro possa monitorar a “saúde” de seu solo, sabendo exatamente o que avaliar e como interpretar o que foi avaliado.

Entre os parâmetros utilizados para caracterizar o componente biológico dos solos e avaliar a sua saúde/qualidade, destacam-se as avaliações de biomassa microbiana e de atividade enzimática.

A partir destes estudos, duas enzimas do solo, a arilsulfatase e a β-glicosidase (associadas aos ciclos do enxofre e do carbono) foram selecionadas e tabelas de intepretação foram desenvolvidas.

 Um aspecto importante desse conceito é reforçar que a saúde do solo vai além da sua capacidade de produção, ou seja, é possível ter um solo com baixa qualidade, mas cujas elevadas produtividades estejam relacionadas a entradas de insumos em doses muito acima das recomendadas para solos bem manejados, uma condição que não é sustentável em longo prazo, pois pode resultar em contaminações do ambiente e prejuízos aos agricultores.

Atualmente, a Embrapa vem certificando laboratórios em todo o País para que estas análises possam auxiliar o maior número de produtores, no menor tempo possível.

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