A escolha de uma forrageira para formação de pastagens deve considerar não apenas o volume de matéria seca produzido, mas também a proporção de folhas e colmos disponíveis para o rebanho. Essa é uma das principais conclusões de um estudo conduzido pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), que avaliou dez materiais de Urochloa, incluindo nove híbridos de braquiária e a cultivar Marandu, utilizada como referência.
Realizada em 2025, em São João del-Rei (MG), na região do Campo das Vertentes, a pesquisa analisou a produção e a composição morfológica da forragem durante os períodos das águas e da seca.
Entre os materiais avaliados, a braquiária híbrida Mavuno apresentou a maior produção numérica anual de folhas, com 17,31 toneladas de matéria seca por hectare. O híbrido também registrou relação folha/colmo de 4,68, indicando maior participação de folhas na composição da forragem.
Os resultados reforçam a importância de avaliar a estrutura da pastagem, já que uma produção elevada de massa seca total não significa, necessariamente, maior disponibilidade de folhas para os animais.
Relação folha/colmo é indicador importante na escolha da forrageira
A relação folha/colmo expressa a proporção entre a quantidade de folhas e de colmos presentes na forragem produzida.
De maneira geral, as folhas apresentam maior valor nutricional e digestibilidade em comparação aos colmos, características relacionadas ao aproveitamento do pasto pelos bovinos.
Por isso, a avaliação de cultivares forrageiras deve considerar tanto a produtividade total quanto a distribuição da biomassa entre os diferentes componentes da planta.
Segundo Janaina Azevedo Martuscello Vieira da Cunha, professora da UFSJ e orientadora da pesquisa, a identificação de materiais adaptados às condições regionais pode contribuir para a diversificação das pastagens.
“O Campo das Vertentes se destaca pela produção de leite, com inúmeras propriedades que utilizam sistemas de produção a pasto. Encontrar híbridos mais adaptados e produtivos às nossas condições é importante para diversificar as pastagens, já que o capim Marandu é predominante na região”, explica.
A pesquisadora ressalta, entretanto, que os resultados são indicativos das condições locais e precisam ser avaliados em outras regiões do Brasil.
Mavuno registra 17,31 toneladas de folhas por hectare ao ano
No acumulado anual, o híbrido Mavuno produziu 22,15 toneladas de matéria seca por hectare, das quais 17,31 toneladas corresponderam às folhas.
Esse volume representa aproximadamente 78% da produção total de matéria seca registrada no experimento.
A produção anual de colmos foi de 3,69 toneladas por hectare, enquanto a relação folha/colmo atingiu 4,68.
Em comparação à cultivar Marandu, utilizada como testemunha, o Mavuno apresentou produção foliar numericamente cerca de 20% superior.
As diferenças também foram observadas na composição da forragem. A produção de colmos foi 28,4% menor, enquanto a relação folha/colmo foi 66,1% superior à do Marandu. Essas duas diferenças foram estatisticamente significativas.
Embora outros híbridos tenham apresentado maior produção numérica de matéria seca total, a relação folha/colmo desses materiais foi de 2,54, contra 4,68 do Mavuno.
A diferença de aproximadamente 85% nesse indicador também apresentou significância estatística.
Outro resultado observado foi a baixa produção de inflorescências, estruturas relacionadas à reprodução da planta. No acumulado anual, o Mavuno produziu 3,27 quilos por hectare, ficando entre os materiais com menores valores desse componente.
Produção de folhas se destaca no período das águas
Durante a estação chuvosa, o Mavuno apresentou produção de 16,94 toneladas de matéria seca por hectare, posicionando-se entre os maiores resultados numéricos do experimento.
Desse total, 13,60 toneladas por hectare corresponderam à massa seca de folhas.
A produção foliar foi numericamente 20,2% superior à registrada pelo Marandu no mesmo período.
A relação folha/colmo alcançou 4,67, enquanto a produção de colmos ficou em aproximadamente 2,91 toneladas por hectare.
Para Lucas Miguel Martins, autor do estudo, a composição morfológica foi um dos principais diferenciais observados.
“Em relação à proporção entre folhas e colmos, o desempenho foi muito positivo, com alta produção de folhas, baixa produção de colmos e pouquíssima produção de inflorescências e material morto”, destaca.
O pesquisador também observou a capacidade de recuperação da forrageira após os cortes realizados durante o experimento.
Segundo ele, o Mavuno voltava a atingir a altura estabelecida para o manejo em aproximadamente três semanas, podendo chegar a 25 dias.
Esse comportamento foi observado nas condições experimentais e não deve ser interpretado como um intervalo fixo de manejo para todas as propriedades.
Híbrido mantém participação de folhas durante a seca
A pesquisa também avaliou o comportamento das forrageiras entre junho e outubro, período correspondente à estação seca no experimento.
Nessa fase, o Mavuno produziu 5,21 toneladas de matéria seca por hectare, sendo 3,72 toneladas de folhas.
A produção foliar foi numericamente 19,76% superior à do Marandu.
Os resultados indicaram a manutenção de uma participação relevante de folhas na composição da forragem, mesmo durante o período de menor disponibilidade hídrica.
Para Tiago Penha Pontes, engenheiro agrônomo e gerente técnico da Wolf Seeds, os resultados demonstram a necessidade de considerar diferentes indicadores na escolha das pastagens.
“Na escolha da pastagem, não basta olhar o volume de massa produzido. O produtor precisa considerar quanto dessa produção está em folhas e como o pasto responde nas águas e na seca”, afirma.
Segundo ele, a combinação de produção foliar elevada e menor participação de colmos representa uma característica importante para a avaliação do potencial de aproveitamento da forragem.
Maior proporção de folhas não significa ganho animal comprovado
Embora a composição morfológica da forragem esteja relacionada a características importantes para a alimentação dos bovinos, o estudo não avaliou diretamente o desempenho dos animais.
Indicadores como digestibilidade, valor nutricional, consumo de forragem e ganho de peso não foram medidos no experimento.
Dessa forma, os resultados permitem comparar a produção e a proporção dos componentes vegetais, mas não demonstram, isoladamente, maior desempenho zootécnico do rebanho.
A distinção é importante porque o aproveitamento de uma pastagem depende de fatores adicionais, incluindo fertilidade do solo, condições climáticas, manejo do pastejo e exigências nutricionais dos animais.
Também é necessário considerar que as diferenças numéricas de produtividade nem sempre representam diferenças estatisticamente significativas entre os materiais avaliados.
Pesquisa contribui para diversificação das pastagens
O estudo foi desenvolvido no Campus Tancredo de Almeida Neves (CTAN), da Universidade Federal de São João del-Rei, como trabalho de conclusão do curso de Zootecnia de Lucas Miguel Martins, sob orientação da professora doutora Janaina Azevedo Martuscello Vieira da Cunha.
A avaliação de dez materiais de Urochloa permitiu comparar o comportamento produtivo e a composição morfológica das forrageiras ao longo das estações do ano.
Para a Wolf Seeds, os resultados reforçam a importância de ampliar os critérios de seleção de cultivares, considerando a produção de folhas, a proporção de colmos e a distribuição da produtividade entre os períodos das águas e da seca.
A pesquisa também evidencia a necessidade de novos estudos em diferentes regiões e condições de manejo, para verificar a adaptação dos materiais e seu potencial de utilização nos sistemas pecuários brasileiros.
Estudo completo: https://ufsj.edu.br/portal2-repositorio/File/cozoo/TCC/2026-1/TCC_HIBRIDOS_-_Lucas_Martins_Corrigido_assinado_as_260716_132104.pdf


