Roberto Botelho Ferraz Branco
Pesquisador do Instituto Agronômico (IAC/APTA)
roberto.branco@sp.gov.br
A melancia representa uma atividade importante para pequenas e médias propriedades e contribui para o fornecimento de alimento de qualidade.

Entre os maiores produtores mundiais, a China produz 63,5 milhões de toneladas por ano, seguida pela Índia, com 3,6 milhões de toneladas, enquanto o Brasil ocupa a quinta posição, com 1,9 milhão de toneladas.
No Brasil, os maiores produtores são:
| Estado | Produção anual aproximada |
| Bahia | 230 mil toneladas |
| Goiás | 204 mil toneladas |
| São Paulo | 193 mil toneladas |
O berço da produtividade
O potencial produtivo da melancia começa na escolha da área. Solos arenosos, com boa drenagem, são preferenciais, pois o acúmulo de água, especialmente na fase final de formação e maturação dos frutos, pode comprometer a produção e a qualidade.
Áreas com pouco desnível também são desejáveis por facilitarem as operações mecanizadas de preparo, cultivo e colheita. O clima é outro fator estratégico: a cultura exige temperaturas relativamente altas, elevada radiação solar e boa distribuição de chuvas ao longo do ciclo.
Solo precisa estar preparado
Além da textura, devem ser avaliadas as condições físicas, químicas e biológicas do solo. Compactação e elevada densidade entre 0 e 0,30 m devem ser corrigidas com escarificadores ou subsoladores, favorecendo o crescimento das raízes e a absorção de água e nutrientes.
A calagem deve buscar saturação por bases de 80% e pH entre 5,5 e 6,5, com incorporação do calcário até aproximadamente 0,30 m, região de maior crescimento e atividade do sistema radicular.
A aplicação de matéria orgânica nos sulcos, por meio de compostos, estercos ou resíduos agroindustriais, também favorece a fertilidade. A aplicação de produtos biológicos no sulco, juntamente com fertilizantes orgânicos, pode favorecer a atividade biológica do solo.
Nutrição equilibrada sustenta a produção
A fotossíntese depende de gás carbônico, água, luz solar e minerais. Os nutrientes também participam da formação de moléculas, da atividade enzimática e dos processos de crescimento, desenvolvimento e proteção da planta.
Entre os macronutrientes, o nitrogênio é o mais extraído pela melancia e tem papel importante no crescimento vegetativo. O fósforo participa das moléculas responsáveis pela atividade energética e da composição do DNA.
O cálcio estrutura a parede celular e merece atenção para evitar problemas de podridão apical. O magnésio, componente da clorofila, é essencial à atividade fotossintética. Já o potássio atua na regulação osmótica, na ativação enzimática e no transporte de sacarose e sólidos solúveis para os frutos, contribuindo para o °Brix.
Os micronutrientes, embora exigidos em menores quantidades, também são essenciais. Boro e zinco podem ser fornecidos no solo ou via foliar.

Atuação de cada nutriente
| Nutriente | Principal função destacada |
| N | Crescimento e composição de proteínas e aminoácidos |
| P | Atividade energética e composição do DNA |
| K | Regulação osmótica e qualidade dos frutos |
| Ca | Estrutura da parede celular e estabilidade dos tecidos |
| Mg | Componente da clorofila e atividade fotossintética |
| B, Zn, Mo, Mn e Cu | Atividades metabólicas, fotossíntese, florescimento e frutificação |
Equilíbrio entre folhas e frutos
O crescimento vegetativo é fundamental porque as folhas produzem energia e açúcares utilizados na formação dos frutos. Porém, o crescimento excessivo pode prejudicar o florescimento e, consequentemente, a formação, o crescimento e a maturação das melancias.
O equilíbrio entre crescimento vegetativo e produção é, portanto, fundamental. Uma relação básica indicada é de 2,5 m² de área foliar para a produção de 20 kg de frutos por planta.
Temperatura, luz e água definem o desempenho
A melancia apresenta melhor crescimento e produção sob temperaturas elevadas e alta luminosidade. Temperaturas diurnas entre 21 e 32 °C e noturnas entre 18 e 21 °C são favoráveis ao crescimento, florescimento e produção.
A menor temperatura durante a noite reduz a fotorrespiração e favorece a concentração de açúcares nos frutos. A cultura necessita de aproximadamente 300 mm de água para crescer e produzir satisfatoriamente.
O déficit hídrico pode reduzir o crescimento vegetativo, o florescimento, o pegamento e o crescimento dos frutos. No semiárido brasileiro, a irrigação é indispensável.

Polinização é decisiva
A melancia é uma planta monoica, produzindo flores masculinas e femininas na mesma planta. Para a formação de frutos de qualidade, é fundamental que as flores femininas sejam adequadamente polinizadas.
As abelhas nativas sem ferrão, como Melipona sp., e as mamangavas, Bombus sp., têm papel importante nesse processo. Por isso, a preservação dos polinizadores durante o florescimento é essencial, com manejo integrado de pragas e aplicação racional de inseticidas.
Também existe a possibilidade de utilização de insetos polinizadores em lavouras comerciais, prática que vem crescendo com a atuação de pequenas empresas especializadas.
Cultivar deve acompanhar o mercado
A escolha da cultivar ou híbrido deve considerar principalmente o mercado consumidor, além do desempenho agronômico regional.
No mercado interno, destacam-se os tipos de frutos longos e casca verde-clara, e ainda os frutos redondos, casca verde-escura rajada e peso aproximado de 10 a 12 kg, sendo este último especialmente preferido.
O mercado de mini-melancias sem sementes é considerado promissor. Para exportação, predomina a demanda por frutos de 3,0 a 5,0 kg, sem sementes e resistentes ao transporte.

No Brasil, a produção destinada à exportação está concentrada principalmente no Nordeste, especialmente nos estados do Rio Grande do Norte e Pernambuco, onde as condições edafoclimáticas permitem produção escalonada ao longo do ano.
Monitoramento ajuda a antecipar problemas
O acompanhamento de pragas e doenças é fundamental para orientar decisões de controle. O Manejo Integrado de Pragas e modelos de previsão de doenças ainda são pouco utilizados na cultura, mas apresentam perspectiva de maior adoção.
O estado nutricional também pode ser acompanhado por análises foliares e tecnologias como sensores de nitrato e potássio na seiva, pH e condutividade elétrica do solo, além de sensores de clorofila e NDVI.
Em cultivos irrigados, informações sobre água disponível no solo e evapotranspiração auxiliam no manejo da irrigação e na prevenção do déficit hídrico.
Conservação e tecnologia podem aumentar a rentabilidade
A Agricultura Conservacionista é apontada como uma das principais estratégias para aumentar a rentabilidade. O sistema se baseia em revolvimento mínimo do solo ou plantio direto, rotação de culturas e manutenção permanente de palha na superfície.
Essas práticas favorecem a fertilidade física, química e biológica do solo, aumentam o armazenamento e a infiltração de água, reduzem plantas daninhas e proporcionam maior conforto térmico ao cultivo, contribuindo para reduzir custos e aumentar a rentabilidade.
Outra tecnologia utilizada é a proteção dos frutos contra a elevada insolação, por meio de papel especial ou protetores solares direcionados aos frutos, contribuindo para a qualidade.
O uso de produtos biológicos também está em expansão, tanto no controle de pragas e doenças quanto para favorecer a absorção de nutrientes e a resiliência das plantas a estresses abióticos, principalmente altas temperaturas e déficit hídrico.
Desempenho da produção brasileira
O desempenho da lavoura, portanto, é resultado de um conjunto de decisões que começa antes do plantio e passa pela escolha da área, preparo e fertilidade do solo, nutrição, disponibilidade de água, polinização, escolha do material genético e adoção de tecnologias de manejo.


