Minas Gerais já reúne experiências capazes de demonstrar o potencial de cafés raros e exóticos para a produção de microlotes de alto valor. Geisha, Pacamara, Sudan Rume, Laurina e Coffea eugenioides aparecem em propriedades especializadas, principalmente no Sul de Minas e na Chapada de Minas, que abrange áreas do Vale do Jequitinhonha.
Apesar dos resultados expressivos em qualidade e valorização comercial, a pesquisadora em cafeicultura da EPAMIG Juliana Rezende ressalta que ainda são necessárias pesquisas de longa duração para determinar o comportamento agronômico desses genótipos nas diferentes regiões produtoras do Estado.
“Minas Gerais já demonstrou que possui ambientes capazes de produzir cafés raros de padrão internacional”, afirma Juliana. Segundo ela, a diversidade ambiental do Estado cria oportunidades para identificar combinações específicas entre genótipo, ambiente e processamento.
Entretanto, esses cafés ainda devem ser considerados um nicho, e não substitutos imediatos das cultivares comerciais adaptadas.
Geisha é o caso mais documentado
Entre os cafés raros cultivados em Minas Gerais, a Geisha é o caso mais bem documentado. Na Fazenda Primavera, em Angelândia, no Vale do Jequitinhonha, um lote da variedade venceu o Cup of Excellence Brazil 2018, na categoria cereja descascado.
O café recebeu 93,89 pontos e um dos lotes foi comercializado por aproximadamente R$ 73 mil por saca de 60 kg, estabelecendo, naquele momento, um recorde de preço para um café brasileiro.
O lote foi colhido seletivamente, seco em terreiro suspenso e armazenado separadamente. Para Juliana, o resultado demonstrou que ambientes mineiros podem proporcionar condições favoráveis para a expressão da qualidade da Geisha. Entretanto, o desempenho não representa uma comprovação de superioridade agronômica da variedade em todo o Estado.

Características da variedade
A Geisha apresenta porte alto, internódios longos e maturação geralmente tardia. Em ambientes adequados, pode produzir cafés de excepcional qualidade, mas sua produtividade e vigor podem ser inferiores ou menos regulares que os de cultivares comerciais adaptadas às condições brasileiras.
Outro ponto importante é a identidade genética. Existem diferentes plantas comercializadas com o nome Geisha, e estudos genéticos mostram que nem todas correspondem à linhagem panamenha T2722, responsável por grande parte da reputação internacional da variedade. Dessa forma, a identidade e a procedência das sementes são fundamentais.
Mais de 30 variedades em Carmo de Minas
No Sul de Minas, a Fazenda Santuário Sul, em Carmo de Minas, mantém um trabalho pioneiro com mais de 30 variedades exóticas, entre elas Geisha, Pacamara e Sudan Rume, além de outros cafés de origem africana.
Os cafés são cultivados em áreas de montanha, algumas sob sombreamento, e processados separadamente em pequenos lotes. A experiência demonstra que esses genótipos podem ser produzidos em Minas Gerais e alcançar o mercado internacional, mas também evidencia o caráter especializado da atividade, que depende de manejo intensivo, colheita seletiva e processamento individualizado.
No caso do Coffea eugenioides, Juliana faz uma distinção importante: não se trata de uma variedade de café arábica, mas de outra espécie e de um dos ancestrais de C. arabica. Seu cultivo comercial em Minas Gerais é extremamente recente e restrito.
Na Fazenda Santuário Sul, a espécie vem sendo avaliada há aproximadamente uma década. Para 2026, a propriedade estimou produção próxima de dez sacas e anunciou valores de comercialização que poderiam alcançar R$ 90 mil a R$ 100 mil por saca, sustentados pela pequena oferta e pela demanda de compradores especializados.
“Esses valores representam a estratégia comercial de uma propriedade pioneira e não uma cotação geral de mercado”, esclarece a pesquisadora.
Potencial sensorial, mas diferentes desafios agronômicos
Cada um dos genótipos apresenta características próprias, tanto do ponto de vista agronômico quanto sensorial.
A Pacamara possui porte relativamente compacto, frutos e sementes grandes e elevado potencial sensorial, mas geralmente apresenta baixa produtividade e desuniformidade entre plantas. Também é considerada muito suscetível à ferrugem, o que representa um risco importante em Minas Gerais.
Sudan Rume e Laurina aparecem em coleções e cultivos comerciais muito restritos, principalmente em propriedades especializadas do Sul de Minas. Sudan Rume é valorizada pela diversidade genética e pela qualidade de bebida, mas possui baixo potencial produtivo.
A Laurina apresenta porte reduzido, crescimento mais lento e teor naturalmente baixo de cafeína. Essas características despertam interesse em mercados específicos, mas podem limitar a produtividade e tornar a recuperação das plantas mais lenta depois de estresses ou podas intensas.
| Genótipo | Principais características agronômicas | Potencial ou característica sensorial | Principais cuidados ou limitações |
| Geisha | Porte alto, internódios longos e maturação geralmente tardia | Elevada doçura e acidez; aromas de jasmim, bergamota, frutas tropicais e frutas de caroço; corpo aveludado | Produtividade e vigor podem ser inferiores ou menos regulares; exige monitoramento fitossanitário |
| Pacamara | Porte relativamente compacto; frutos e sementes grandes; baixa produtividade e desuniformidade entre plantas | Bebida complexa, com acidez marcante e notas florais e frutadas | Muito suscetível à ferrugem; exige atenção à relação entre produção e área foliar |
| Sudan Rume | Baixo potencial produtivo; diversidade genética africana | Valorizada pela qualidade de bebida | Cultivo restrito e especializado |
| Laurina | Porte reduzido e crescimento lento | Baixo teor natural de cafeína e aromas e sabores delicados | Produtividade limitada e recuperação mais lenta após estresses ou podas intensas |
| Coffea eugenioides | Espécie diferente do arábica; crescimento e cultivo comercial ainda muito restritos em Minas Gerais | Baixa cafeína, menor amargor, elevada percepção de doçura, corpo delicado ou aveludado e notas florais e cítricas | Baixa cafeína pode significar menor proteção natural contra alguns insetos; comportamento ainda precisa ser avaliado nas condições brasileiras |
A genética por trás da bebida
A diversidade genética desses cafés modifica a composição química das sementes e, consequentemente, o conjunto de compostos que dará origem aos aromas e sabores durante a torra. Entretanto, não existe um único “gene da qualidade”.

pesquisadora da Epamig
Doçura, acidez, aroma, corpo e ausência de amargor são características complexas, controladas por muitos genes e influenciadas também pelo ambiente, pela maturação e pelo processamento.
O Coffea eugenioides apresenta naturalmente teor de cafeína muito inferior ao do C. arabica. Por essa razão, sua bebida tende a apresentar menor amargor, elevada percepção de doçura, corpo delicado e notas florais e cítricas.
Na experiência conduzida em Carmo de Minas, a espécie tem sido descrita como muito doce, com corpo aveludado e atributos cítricos e florais.
A baixa cafeína, porém, também pode representar menor proteção natural contra alguns insetos, uma vez que a cafeína participa dos mecanismos de defesa da planta. Esse aspecto ainda precisa ser avaliado nas condições brasileiras.
A Laurina também apresenta baixo teor de cafeína, mas por uma razão genética diferente: é uma mutação natural de Bourbon. Seu interesse está justamente na possibilidade de produzir um café com menor cafeína sem passar pelo processo industrial de descafeinação, preservando aromas e sabores delicados.
Já a Geisha possui uma base genética etíope distinta da maioria das cultivares brasileiras, predominantemente relacionadas aos grupos Bourbon, Typica, Catuaí e às populações com introgressão do Híbrido de Timor.
Quando cultivada em ambiente adequado, pode produzir bebidas com elevada doçura e acidez e aromas de jasmim, bergamota, frutas tropicais e frutas de caroço. O lote produzido em Angelândia confirmou que esse perfil também pode ser expresso em Minas Gerais, com destaque para aroma floral, doçura, acidez e corpo aveludado.

A Pacamara reúne genes de Pacas e Maragogipe. Além do tamanho elevado dos frutos e sementes, pode apresentar bebida complexa, com acidez marcante e notas florais e frutadas.
Sudan Rume representa uma fonte de diversidade genética africana e é utilizada internacionalmente tanto na produção de microlotes quanto em programas de melhoramento voltados à qualidade.

com 28 variedades exóticas
Qualidade também depende do ambiente
O trabalho da EPAMIG busca utilizar essa diversidade genética não apenas para a produção de cafés diferenciados, mas também para ampliar as possibilidades do melhoramento.
A estratégia envolve cruzar genótipos como a Geisha com cultivares de bom desempenho agronômico, buscando descendentes que combinem qualidade de bebida, produtividade, vigor, adaptação e resistência a pragas e doenças.
É um trabalho de longo prazo, porque as progênies precisam ser selecionadas e avaliadas durante várias gerações e em diferentes ambientes.
Pós-colheita precisa preservar a identidade do genótipo
A EPAMIG possui histórico de pesquisas em qualidade do café, estádio de maturação, colheita, processamento, secagem, armazenamento e caracterização sensorial. A instituição também desenvolve projetos voltados à compreensão dos efeitos do processo fermentativo sobre a bebida.
Nos cafés raros produzidos em Minas Gerais, o primeiro objetivo do pós-colheita deve ser preservar o perfil próprio do genótipo. No caso da Geisha, por exemplo, fermentações excessivamente intensas podem encobrir os aromas florais e cítricos característicos da variedade.
“Portanto, o processamento precisa ser definido de acordo com o perfil sensorial pretendido, e não apenas pela busca de maior intensidade aromática”, destaca a pesquisadora.
O resultado obtido pela Fazenda Primavera reforça essa importância. O lote vencedor do Cup of Excellence passou por colheita seletiva, secagem em terreiro suspenso e armazenamento separado, procedimentos que contribuíram para preservar a identidade sensorial da Geisha produzida em Angelândia.
Na Fazenda Santuário Sul, diferentes variedades são processadas separadamente e submetidas a protocolos específicos, incluindo processos naturais e fermentações anaeróbicas.
Lotes de Geisha e Sudan Rume produzidos em Carmo de Minas já foram comercializados internacionalmente com identificação da variedade, da propriedade e do método de processamento.
Essa separação é fundamental porque o protocolo que favorece uma Geisha pode não ser o mais adequado para Pacamara, Laurina ou C. eugenioides.

Fermentação exige controle
A fermentação controlada deve ser acompanhada por parâmetros como tempo, temperatura, pH, presença ou ausência de oxigênio, higiene dos recipientes e qualidade dos frutos.
A recomendação é começar com pequenos volumes, manter um lote sem fermentação induzida como controle e realizar a avaliação sensorial antes de ampliar o protocolo.
A fermentação pode valorizar o lote, mas também pode descaracterizar sua identidade genética ou produzir defeitos quando não é devidamente controlada.
Na secagem, o principal cuidado é retirar a água de maneira lenta e uniforme, evitando temperaturas elevadas e reumedecimento. Como esses cafés alcançam alto valor em volumes reduzidos, terreiros suspensos, secadores com controle de temperatura e armazenamento em embalagens de alta barreira podem ser economicamente justificáveis.

Manejo precisa considerar cada genótipo
Nas propriedades mineiras que trabalham com cafés raros, a estratégia predominante é cultivá-los em pequenos talhões e adotar acompanhamento individualizado. A necessidade está relacionada às diferenças de arquitetura e ritmo de crescimento entre os genótipos.
Para a Geisha, o porte alto e os internódios longos exigem espaçamento e condução que favoreçam a entrada de luz e a circulação de ar. O controle da altura pode facilitar a colheita seletiva e os tratamentos fitossanitários, mas podas intensas devem ser realizadas com cautela em plantas de menor vigor.
A maturação tardia também precisa ser considerada no planejamento da colheita e no parcelamento da adubação.
No caso da Pacamara, os frutos grandes representam uma demanda significativa de fotoassimilados e nutrientes. Por isso, deve-se evitar cargas excessivas e desequilíbrios entre produção e área foliar. A suscetibilidade à ferrugem exige monitoramento frequente, especialmente em ambientes úmidos e lavouras muito adensadas.
Laurina e C. eugenioides apresentam crescimento mais lento e menor porte. Nesses casos, uma poda severa pode resultar em recuperação demorada. O manejo deve priorizar a manutenção da área foliar, a conservação de água no solo e intervenções menos drásticas.

cafeína muito inferior ao arábica
Sombreamento exige equilíbrio
No Sul de Minas, algumas experiências com variedades exóticas utilizam sombreamento. A prática pode reduzir temperaturas extremas e contribuir para uma maturação mais lenta, mas precisa ser ajustada para evitar aumento excessivo da umidade, competição por água e nutrientes ou maior pressão de doenças.
Para todas as variedades, a adubação deve ser baseada em análises de solo e folhas, produtividade esperada e carga de frutos.
Ainda não existem tabelas de recomendação específicas para essas variedades em Minas Gerais. Por isso, não é adequado simplesmente aplicar doses superiores de fertilizantes na tentativa de compensar baixo vigor ou produtividade.
Ciência e diversidade como estratégia
Para Juliana, a principal oportunidade para Minas Gerais está em associar os cafés raros à diversidade de seus ambientes, à rastreabilidade, à experimentação de processos e à tradição científica do Estado.
Paralelamente, o melhoramento genético pode utilizar essa diversidade para desenvolver cultivares que reúnam perfis sensoriais diferenciados e desempenho agronômico mais seguro.
“Esse caminho tende a ser mais sustentável do que simplesmente importar variedades famosas e plantá-las sem validação regional”, conclui a pesquisadora.
Ainda faltam dados comparativos obtidos ao longo de várias safras sobre produtividade, bienalidade, vigor, tolerância à seca e comportamento fitossanitário desses genótipos nas diferentes regiões mineiras.
Por isso, o avanço dos cafés raros no Estado passa pela combinação entre experimentação em pequena escala, acompanhamento agronômico, avaliação sensorial e pesquisa de longo prazo.




