Um terço dos solos do planeta já apresenta grau moderado ou alto de degradação, segundo estudo global coordenado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que reuniu cerca de 600 cientistas de 60 países. Erosão, compactação, acidificação, salinização e contaminação estão entre as principais ameaças mapeadas. Diante de eventos climáticos cada vez mais extremos, o cenário amplia um dos principais desafios ambientais relacionados à produção de alimentos: aumentar a produtividade sem intensificar a pressão sobre o solo, a água e outros recursos naturais.
A degradação afeta não apenas a capacidade produtiva das áreas agrícolas, mas também funções ambientais desempenhadas pelo solo. De acordo com o levantamento, a compactação pode reduzir em até 60% a produtividade agrícola, enquanto a erosão ameaça provocar a perda total de 10% dos solos cultiváveis até 2050. Solos degradados também perdem capacidade de reter água e carbono e tornam-se mais vulneráveis tanto a períodos de seca quanto ao excesso de chuvas.

Nesse contexto, preservar a qualidade do solo e utilizar de maneira mais eficiente os recursos necessários à produção passam a ser também uma estratégia de adaptação às mudanças climáticas. Entre esses recursos estão os nutrientes, essenciais ao desenvolvimento das plantas, mas cujo aproveitamento depende das condições físicas, químicas e biológicas do solo e da disponibilidade de água.
“A planta não absorve o nutriente apenas porque ele está presente no solo. É preciso que essa substância esteja em forma disponível, que exista movimentação até a raiz e que as condições do solo permitam a absorção. Em períodos de estresse climático, simplesmente aumentar a dose de fertilizante pode não resolver o problema e ainda ampliar perdas econômicas e ambientais”, explica Valter Casarin, agrônomo e coordenador-geral da Nutrientes Para a Vida (NPV).
A eficiência no uso dos nutrientes, através da adubação, ganha relevância justamente por permitir que uma parcela maior do que é aplicada seja efetivamente aproveitada pelas plantas. Quando isso não ocorre, além do desperdício de insumos, nutrientes podem ser perdidos para o ambiente. Melhorar esse aproveitamento, portanto, significa produzir mais com os recursos já utilizados e reduzir potenciais impactos ambientais associados às perdas.
A questão assume uma dimensão particular no Brasil. O país responde por cerca de 8% do consumo mundial de fertilizantes e ocupa a quarta posição entre os maiores consumidores globais, segundo o Plano Nacional de Fertilizantes, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Ao mesmo tempo, está entre os principais produtores de alimentos do mundo. Nesse cenário, ganhos de eficiência podem contribuir para elevar a produção nas áreas já cultivadas, reduzindo a pressão pela incorporação de novos territórios à atividade agrícola.
“Quando conseguimos produzir mais por hectare, aproveitando melhor solo, água e nutrientes, diminuímos a necessidade de buscar esse aumento de produção por meio da expansão da área cultivada. É uma lógica importante para conciliar segurança alimentar e conservação de florestas, cerrados e outros ecossistemas”, afirma Casarin.
Para o especialista, esse debate tende a ganhar importância à medida que a agricultura precisa responder simultaneamente à demanda por alimentos, à degradação dos solos e aos efeitos das mudanças climáticas. Além do manejo adequado, uma das frentes que podem avançar é a recuperação e a reciclagem de nutrientes que já circulam na economia, reinserindo-os nos sistemas produtivos e reduzindo perdas.
“A agricultura sustentável passa cada vez mais por produzir melhor com os recursos disponíveis. Isso envolve aumentar a eficiência dos nutrientes, preservar a capacidade produtiva do solo e avançar na recuperação e reciclagem desses elementos. Quanto mais conseguimos fechar esse ciclo, menor tende a ser o desperdício e a pressão sobre os recursos naturais”, conclui Casarin.


