O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) atualizou a probabilidade de o fenômeno El Niño ser o mais intenso das últimas décadas no Brasil, com base na nova previsão da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA). Os cientistas estimam chance igual ou superior a 90% de ocorrência de um El Niño muito forte entre setembro de 2026 e janeiro de 2027. A NOAA também aponta 69% de probabilidade de que o fenômeno seja o mais intenso já registrado desde 1950, com possibilidade de as temperaturas das águas do Pacífico atingirem anomalias iguais ou superiores a 2,5°C.
Para o agronegócio, a previsão acende um alerta: chuvas acima da média em áreas da região Sul, precipitações abaixo do histórico no Centro-Oeste do país, Norte e Nordeste com maior impacto na redução de chuvas, principalmente, no Maranhão, Piauí e Pará. Somado a isso, há alta probabilidade de temperaturas acima do normal no segundo semestre, aumentando o risco de ondas de calor severas. “O cenário exige atenção e foco em inteligência agronômica. O principal desafio é compreender que essa quebra de normalidade no clima demanda ajustes no manejo por parte do produtor para garantir a rentabilidade”, alerta Alexandre Garcia Santaella, engenheiro agrônomo e gerente de marketing da BASF Soluções para a Agricultura.
Para auxiliar o agricultor antes e durante o período de influência do El Niño, o especialista destaca que algumas medidas podem ajudar a minimizar seus efeitos ao longo da safra. Entre elas estão a escolha de cultivares adaptadas às condições de cada região e o correto posicionamento de seus ciclos, a definição do melhor momento de semeadura, a utilização de sementes de alta qualidade e vigor para favorecer o estabelecimento da lavoura, o tratamento de sementes com soluções eficientes e a atenção ao possível aumento da incidência de pragas e doenças. Veja a seguir:
1. Início do plantio: No Centro-Oeste do país, incluindo o Cerrado, a previsão de chuvas abaixo da média exige cautela. Chuvas isoladas podem criar uma falsa sensação de segurança para antecipar o plantio. Por isso, a recomendação é escolher cultivares com genética, ciclo e características agronômicas adequadas a cada ambiente produtivo e janela de plantio. No Sul, onde o El Niño tende a favorecer maior volume de chuvas, o produtor deve acompanhar as condições de umidade do solo e as previsões de precipitação para aproveitar as melhores janelas de semeadura, associando esse planejamento ao correto posicionamento das cultivares para cada região.
2. Tratamento de Sementes: Essa prática favorece o estabelecimento inicial da lavoura. Em condições climáticas adversas, esta proteção contribui para reduzir riscos relacionados à germinação, ao desenvolvimento das plântulas e à incidência de pragas e doenças.
3. Monitoramento de pragas e doenças: Em temperaturas elevadas, o ciclo biológico de pragas sugadoras, como a mosca-branca, pode se acelerar, aumentando a necessidade de monitoramento durante a safra de verão. Nas regiões mais quentes e secas, também é importante redobrar os cuidados com a sanidade das lavouras: o calor não elimina o risco fitossanitário, e doenças como a Cercospora podem ganhar relevância nos estágios iniciais da soja. Já no Sul, a maior frequência de chuvas pode favorecer doenças fúngicas, com destaque para a ferrugem asiática.
4. Acompanhamento da lavoura: Durante todo o ciclo da cultura, o acompanhamento frequente da área permite identificar alterações e ajustar o manejo de acordo com a necessidade de cada talhão. No Centro-Oeste, períodos de calor e menor disponibilidade de água podem aumentar o estresse das plantas, enquanto, no Sul, a maior frequência de chuvas pode elevar a umidade e favorecer condições para o desenvolvimento de doenças e até o apodrecimento de raízes, vagens e grãos. Por isso, o monitoramento e a adequação do manejo às condições de cada região são importantes para preservar o desenvolvimento da plantação desde as primeiras fases do ciclo.
Diante de um ciclo climático desafiador com o El Niño, a informação e o acompanhamento técnico são essenciais para a tomada de decisão no campo. Um detalhe importante em relação à safra de verão é que ela também vai impactar planejamento e investimento da segunda safra, quando as áreas de soja passam a ter outros cultivos que compõem o sistema produtivo, como milho, algodão, feijão e trigo, dependendo da região e do clima. Por isso, o sucesso de uma safra influencia o bom desenvolvimento da seguinte, evitando atrasos e perdas.
A integração entre as diferentes culturas ao longo do ciclo produtivo também exige uma visão ampla do sistema agrícola. Nesse contexto, a engenheira agrônoma e diretora de Marketing da BASF Soluções para Agricultura, Graciela Mognol, orienta os agricultores a procurarem apoio técnico especializado para avaliar os impactos sobre a soja e os demais cultivos da propriedade. Além disso, a executiva reforça o papel da inovação em momentos de maior instabilidade.
“As mudanças do clima estão impactando a agricultura, com tendência de termos fenômenos climáticos cada vez mais intensos. Além disso, sabemos que pragas e doenças criam resistências às tecnologias com o passar do tempo. Neste cenário, a inovação, com novas moléculas de defensivos, biotecnologias em sementes e ferramentas digitais ganham um papel de ainda mais destaque para o sucesso da agricultura no presente e no futuro”, diz Mognol.