A BRS Carinás, nova cultivar de Urochloa decumbens desenvolvida pela Embrapa, amplia as opções de forrageiras para produtores que trabalham principalmente em solos ácidos e de baixa fertilidade. As características, recomendações de manejo e dúvidas relacionadas ao uso da cultivar foram discutidas por pesquisadores da Embrapa durante uma live realizada no dia 17.
Desenvolvida pela Embrapa em parceria com a Associação para o Fomento à Pesquisa de Melhoramento de Forrageiras (Unipasto), a BRS Carinás combina a rusticidade tradicionalmente associada à Urochloa decumbens com características como maior produção de folhas e forragem e potencial para elevar a produtividade animal.
A cultivar é a primeira brasileira de Urochloa decumbens disponibilizada comercialmente.
BRS Carinás apresenta tolerância média ao encharcamento
Uma das principais dúvidas dos produtores está relacionada ao comportamento da BRS Carinás em áreas sujeitas ao encharcamento.
Em experimentos realizados pela Embrapa Amazônia Oriental, em casa de vegetação, a cultivar apresentou desempenho superior ao capim-xaraés. Os resultados iniciais indicam tolerância média ao encharcamento.
De acordo com o pesquisador da Embrapa Gado de Corte, Sanzio Barrios, ainda serão realizados testes em condições mais drásticas e diretamente no campo, na Embrapa Acre, para ampliar o conhecimento sobre o comportamento da forrageira nessas situações.
Cultivar de braquiária apresenta potencial no Cerrado
Em condições opostas, como as encontradas no semiárido brasileiro, a disponibilidade de água é um dos fatores determinantes para o desenvolvimento da cultivar.
Segundo o pesquisador Gustavo Braga, da Embrapa Cerrados, são necessários cerca de 800 milímetros de chuva por ano para o bom desenvolvimento do pasto.
Em testes realizados durante dois anos no Oeste da Bahia, na região de Cocos, em solo arenoso, a BRS Carinás produziu 11% mais forragem total que a braquiarinha tradicional, cultivar Basilisk.
Os experimentos continuam em diferentes regiões para avaliar o desempenho da nova forrageira tanto em condições amazônicas quanto no semiárido.
Os pesquisadores reforçam que a BRS Carinás é indicada especialmente para situações nas quais tradicionalmente é utilizada a Urochloa decumbens. A forrageira apresenta baixa exigência em fertilidade, sendo adequada a sistemas com menor utilização de corretivos e fertilizantes.
BRS Carinás combina rusticidade e produção de forragem
Para Sanzio Barrios, um dos diferenciais da nova cultivar é reunir características já conhecidas pelos produtores na Urochloa decumbens com maior produção de forragem e folhas.
A capacidade de apresentar baixa exigência nutricional e, ao mesmo tempo, responder a condições melhores de cultivo também é apontada como uma característica importante da BRS Carinás.
Essa versatilidade amplia as possibilidades de utilização da cultivar em diferentes sistemas de produção pecuária.
Manejo da BRS Carinás é fundamental para produtividade
O manejo adequado é essencial para transformar o potencial genético da BRS Carinás em produtividade no campo.
Em sistemas de lotação contínua, a orientação apresentada pelos pesquisadores é manter o pasto entre 20 e 30 centímetros. Já no pastejo rotacionado, a entrada dos animais deve ocorrer quando a pastagem estiver próxima de 30 centímetros, enquanto a saída deve acontecer em torno de 15 centímetros.
O objetivo é evitar tanto o superpastejo, que pode contribuir para o início da degradação da pastagem, quanto o crescimento excessivo, que aumenta as perdas de forragem.
BRS Carinás pode ser utilizada na Integração Lavoura-Pecuária
A nova cultivar também apresenta potencial para sistemas de Integração Lavoura-Pecuária (ILP).
Segundo o pesquisador Roberto Guimarães Júnior, da Embrapa Cerrados, a BRS Carinás pode ser uma alternativa para produtores que iniciam a adoção de sistemas integrados e buscam uma forrageira pouco exigente em relação ao solo.
A cultivar pode substituir o capim ruziziensis em determinadas condições, tanto pela produção de forragem na entressafra quanto pela velocidade de rebrota e pela contribuição para a ciclagem de nutrientes.
Em avaliações realizadas durante três anos, a produção da BRS Carinás chegou, em algumas situações, a ser 80% superior à da braquiária ruziziensis na entressafra.
Outro destaque foi a velocidade de rebrotação. Após o corte de uniformização e o início do período chuvoso, a cultivar produziu, em média, 60% mais forragem nos primeiros 60 a 70 dias que a ruziziensis comum.
A palhada produzida pela BRS Carinás também apresentou potencial para contribuir com a ciclagem de nutrientes. Em área experimental no Distrito Federal, cerca de 80% da palhada foi decomposta durante 120 dias de cultivo de soja.
Pesquisa avalia uso da BRS Carinás na pecuária leiteira
Embora a recomendação inicial da BRS Carinás esteja voltada principalmente à pecuária de corte, pesquisadores também avaliam o desempenho da cultivar em outros sistemas produtivos.
Estudos conduzidos pela Embrapa Gado de Leite, na Zona da Mata de Minas Gerais, buscam reunir informações que possam subsidiar uma possível extensão da recomendação para o bioma Mata Atlântica e para a pecuária leiteira.
De acordo com o pesquisador Carlos Gomide, resultados preliminares de 11 cortes registraram produção acumulada de forragem da BRS Carinás aproximadamente 9% superior à da cultivar Basilisk. Em determinados cortes realizados no outono, a diferença chegou a cerca de 24%.
O pesquisador ressalta, entretanto, que parte dos dados relacionados à qualidade da forragem ainda precisa passar por análises mais aprofundadas.
Embrapa orienta produtores sobre escolha da semente
Os pesquisadores destacam que o desempenho da BRS Carinás depende também da implantação e do manejo adequado da pastagem.
Durante a apresentação, Sanzio Barrios, Gustavo Braga, Roberto Guimarães Júnior e Carlos Gomide reforçaram a importância da escolha de sementes de qualidade para a formação da pastagem e para alcançar os resultados esperados no campo.
As sementes da BRS Carinás são comercializadas por empresas associadas à Unipasto.
A live promovida pela Embrapa reúne informações sobre as características da cultivar, implantação, manejo e utilização da nova forrageira. A tecnologia também está sendo avaliada em diferentes regiões e sistemas de produção para ampliar o conhecimento sobre seu potencial agronômico.