A fixação biológica de nitrogênio no algodão deu um importante passo com a identificação de bactérias capazes de transformar o nitrogênio presente na atmosfera em formas assimiláveis pelas plantas. A descoberta, realizada por pesquisadores da Embrapa, abre caminho para o desenvolvimento de bioinsumos que poderão reduzir a dependência da adubação nitrogenada na cotonicultura, diminuindo custos de produção e impactos ambientais.
As bactérias, conhecidas como diazotróficas, foram encontradas nas raízes do algodão arbóreo (Gossypium barbadense) e posteriormente testadas em plantas de algodão herbáceo, espécie cultivada comercialmente no Brasil.
Fixação biológica de nitrogênio pode reduzir uso de fertilizantes
A pesquisa mostrou que algodoeiros inoculados apenas com as bactérias apresentaram desenvolvimento semelhante ao das plantas que receberam a dose recomendada de fertilizantes nitrogenados.
Segundo a pesquisadora Lúcia Hoffmann, da Embrapa Algodão, enquanto a fixação biológica de nitrogênio já é amplamente utilizada na soja, graças à simbiose entre raízes e bactérias, essa tecnologia ainda não estava disponível para o algodão.
Caso os estudos avancem, a inoculação poderá substituir parte da adubação nitrogenada, reduzindo custos para os produtores e ampliando as possibilidades de produção orgânica.
Bactérias foram encontradas em algodão arbóreo
O estudo é resultado de mais de duas décadas de pesquisas com espécies arbóreas de algodão existentes no Brasil.
Os pesquisadores identificaram bactérias diazotróficas em raízes de algodão arbóreo, conhecido também como algodão ancestral ou algodão de quintal. Essas plantas possuem raízes profundas que favorecem associações naturais com fungos e bactérias, melhorando o aproveitamento de água e nutrientes.
Após o isolamento dos microrganismos em laboratório, as bactérias foram inoculadas em plantas de algodão herbáceo cultivadas em ambiente controlado no Núcleo Regional do Algodão no Cerrado, da Embrapa Arroz e Feijão, em Goiás.
Bioinsumos podem reduzir custos da cotonicultura
Os resultados indicam potencial para o desenvolvimento de novos bioinsumos voltados ao cultivo do algodão e de outras culturas agrícolas.
Segundo a pesquisadora Marcia Soares Vidal, o próximo passo será identificar e caracterizar novas estirpes de bactérias para compor futuros inoculantes comerciais.
A expectativa é reduzir a dependência dos fertilizantes nitrogenados, que representam parcela significativa dos custos de produção e são amplamente importados pelo Brasil.
Atualmente, cerca de 95% do adubo nitrogenado utilizado nas lavouras brasileiras é importado, tornando o setor vulnerável às oscilações do mercado internacional.
Benefícios vão além da fixação de nitrogênio
Além de fornecer nitrogênio às plantas, algumas bactérias diazotróficas apresentam características que estimulam o crescimento vegetal.
Esses microrganismos podem produzir fitormônios, aumentar a absorção de nutrientes, induzir resistência a doenças, reduzir os efeitos do estresse hídrico e atuar no controle biológico de patógenos e insetos-praga.
Essas características tornam os bioinsumos uma alternativa promissora para elevar a produtividade das lavouras e aumentar sua resiliência frente às mudanças climáticas.
Tecnologia também contribui para reduzir impactos ambientais
Outro benefício esperado é a redução das emissões de óxido nitroso, um dos principais gases de efeito estufa liberados pelos solos agrícolas durante o uso de fertilizantes nitrogenados.
Com menor necessidade de adubação química, a fixação biológica de nitrogênio poderá contribuir para uma agricultura mais sustentável, reduzindo impactos ambientais e fortalecendo a produção de algodão de baixo carbono.
Brasil amplia protagonismo na cotonicultura mundial
O avanço da pesquisa ocorre em um momento de crescimento da cotonicultura brasileira. O Brasil é atualmente o maior exportador mundial de algodão e o terceiro maior produtor da fibra, com expectativa de ampliar a produção nos próximos anos.
Desenvolvimentos em melhoramento genético, manejo do bicudo e novas tecnologias de bioinsumos vêm contribuindo para aumentar a produtividade das lavouras, especialmente nas regiões de Cerrado, onde Mato Grosso lidera a produção nacional.