Biofilia aplicada na agricultura

Por Afonso Peche Filho, Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas – IAC.

Publicado em 30 de junho de 2026 às 11h53

Última atualização em 30 de junho de 2026 às 16h17

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A biofilia pode ser compreendida como a tendência humana de estabelecer vínculos com a vida, com os organismos vivos e com os processos naturais. O conceito foi amplamente difundido por Edward O. Wilson, ao destacar que os seres humanos possuem uma inclinação profunda para reconhecer, valorizar e se relacionar com a natureza. Quando aplicada à agricultura, a biofilia deixa de ser apenas uma ideia filosófica ou afetiva e passa a constituir uma orientação técnica para o manejo de áreas produtivas.

Na agricultura, a biofilia significa reconhecer que a produção não depende somente de máquinas, insumos, cultivares e produtividade física. Ela depende, sobretudo, da qualidade das relações entre solo, água, plantas, microrganismos, fauna, clima, relevo e paisagem. Uma propriedade agrícola biofílica é aquela manejada para favorecer a vida, proteger os processos ecológicos e produzir de forma integrada ao funcionamento da natureza.

Essa abordagem é especialmente importante porque a agricultura convencional, em muitos casos, simplificou excessivamente os ambientes produtivos. Solos descobertos, revolvimento intenso, compactação, erosão, perda de matéria orgânica, eliminação de vegetação espontânea e baixa diversidade reduziram a capacidade ecológica das áreas agrícolas. A biofilia aplicada propõe outro caminho: produzir cuidando da base viva que sustenta a produção.

O primeiro fundamento da agricultura biofílica é o solo vivo. O solo não deve ser visto apenas como suporte físico das plantas, mas como ambiente biológico, estruturado por raízes, agregados, poros, matéria orgânica, fungos, bactérias, minhocas e outros organismos. Práticas como cobertura permanente, rotação de culturas, plantas de cobertura, adubação orgânica, redução do revolvimento e melhoria da infiltração de água são expressões práticas da biofilia no manejo do solo.

A biofilia também se relaciona diretamente com o manejo da água. Em uma propriedade biofílica, a água da chuva deve ser acolhida pela paisagem, infiltrando onde cai, reduzindo enxurradas, alimentando o solo e mantendo a umidade disponível às plantas. Isso exige plantio em nível, cobertura vegetal, conservação de estradas internas, proteção de nascentes, áreas úmidas e vegetação ciliar. O manejo hidrológico passa a ser parte essencial da vida agrícola.

As unidades funcionais propostas pelo IAC oferecem uma base muito adequada para aplicar a biofilia no planejamento da propriedade. Nas áreas de produção, a biofilia orienta o uso de cobertura permanente, diversidade de culturas, Sistema Plantio Direto, plantas de cobertura e manejo ecológico do solo. Nas áreas de proteção, valoriza APPs, reservas, fragmentos vegetais, corredores ecológicos e habitats para fauna e polinizadores.

Nas áreas construídas, a biofilia pode aparecer na arborização, no conforto térmico, na captação de água da chuva, na compostagem e na integração das edificações com a paisagem. Nas áreas de locomoção, orienta estradas rurais bem drenadas, vegetadas nas margens e planejadas para não gerar erosão. Nas áreas lindeiras, favorece cercas-vivas, bordaduras floridas, quebra-ventos e conectividade ecológica. Nas áreas úmidas, reforça a proteção de nascentes, brejos, cursos d’água, lagoas e vegetação associada.

Dessa forma, a biofilia aplicada transforma cada parte da propriedade em espaço funcionalmente comprometido com a vida. Não se trata apenas de deixar a paisagem mais verde, mas de qualificar sua funcionalidade ecológica. A beleza cênica, nesse contexto, ganha importância: ela é a expressão visível de uma propriedade bem organizada, com solo coberto, água bem conduzida, vegetação diversa e produção integrada à natureza.

Portanto, a biofilia aplicada na agricultura representa uma mudança de percepção e de manejo. Ela ensina que produzir bem não significa dominar a natureza, mas cooperar com seus processos. Uma agricultura biofílica é mais viva, mais resiliente, mais bela e mais capaz de sustentar a produção ao longo do tempo.

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