O amendoim brasileiro consolidou-se como uma força no cenário global, impulsionado por tecnologia, qualidade e integração entre os elos da cadeia. No entanto, o momento atual exige atenção redobrada.
De acordo com o presidente da Associação Brasileira do Amendoim (Abex-Br), Cristiano Zanguetin Fantin, o setor vive um ciclo desafiador, ainda que marcado por avanços importantes.
“O cenário é desafiador, mas já enfrentamos momentos semelhantes e conseguimos transformar dificuldades em crescimento exponencial graças ao empreendedorismo do setor”, afirma.
Na safra 2024/25, a cadeia produtiva movimentou R$ 18,6 bilhões, evidenciando sua relevância econômica. Dentro da porteira, cerca de R$ 4,3 bilhões foram destinados a insumos, máquinas e operações agrícolas.
O peso dos custos e a montanha-russa dos preços
Apesar do crescimento, o setor acumula prejuízos nas últimas três safras. A combinação de quebra produtiva, custos elevados e queda nos preços internacionais criou um cenário de forte pressão financeira.
A safra 2023/24 sofreu uma quebra histórica de 35% devido à seca. Já em 2024/25, mesmo com produção recorde, o excesso de oferta global derrubou os preços, que ficaram cerca de 22% abaixo do custo de produção.
“O produtor teve uma expectativa positiva com o recorde produtivo, mas a queda brusca dos preços no mercado internacional comprometeu a remuneração de toda a cadeia”, explica Fantin.
Como reflexo, a área plantada recuou entre 30% e 35% na safra atual, impactada pela redução da capacidade financeira dos produtores e pelo crédito mais restrito.
Exportações recordes em meio à crise
Curiosamente, enquanto o produtor enfrenta margens apertadas, o Brasil bate recordes no mercado externo. Foram exportadas 312 mil toneladas de amendoim em grão e 173 mil toneladas de óleo, resultado direto da qualidade do produto nacional e dos avanços tecnológicos no processamento.
“Nosso amendoim tem muito espaço no mercado internacional, mas os preços atuais estão entre os mais baixos dos últimos três anos”, ressalta o presidente da Abex-Br.
Genética e tecnologia impulsionam produtividade
Se o cenário econômico preocupa, o campo responde com inovação. O avanço genético revolucionou a cultura do amendoim no Brasil.
Em uma década, o número de variedades saltou de cerca de cinco para mais de 20, com materiais adaptados a diferentes ambientes e condições climáticas. “Sem melhoramento genético, nenhuma cadeia produtiva se desenvolve. Hoje temos cultivares mais produtivas e até resistentes à seca”, destaca Fantin.
Instituições como o IAC e a Embrapa, além de empresas internacionais, têm papel fundamental nesse salto tecnológico.

Manejo moderno: precisão e responsabilidade
A busca por produtividade sustentável passa por um pacote tecnológico cada vez mais sofisticado. Bioinsumos, drones e irrigação ganham espaço, mas exigem uso criterioso. “Essas tecnologias devem ser utilizadas com orientação técnica para garantir bons resultados e evitar frustrações”, alerta Fantin.
Além disso, práticas como plantio direto e manejo eficiente de solo e nutrição surgem como aliados na redução de custos e aumento da eficiência.
Gargalos que ainda desafiam o produtor
Mesmo com avanços, alguns obstáculos seguem no caminho da competitividade. A produtividade média ainda é um ponto crítico. “Quem ainda não produz 200 sacas por hectare precisa buscar esse patamar para garantir sustentabilidade financeira”, afirma o especialista.
Outros desafios incluem:
• Falta de defensivos para plantas daninhas tardias
• Necessidade de maior eficiência no manejo
• Dependência de condições climáticas
• Logística e custos operacionais elevados
Organização e representatividade para avançar
Diante desse cenário, a atuação institucional ganha protagonismo. A Abex-Br tem intensificado o diálogo com órgãos governamentais para buscar soluções estruturais.
Entre as principais pautas estão: seguro agrícola, endividamento dos produtores, liberação de novas moléculas e questões regulatórias para exportação. “A participação dos produtores é fundamental para fortalecer a representatividade e garantir avanços concretos para o setor”, reforça Fantin.
Planejamento e estratégia: o conselho ao produtor
Para quem deseja ingressar ou expandir na cultura do amendoim, o recado é claro: conhecimento e planejamento são indispensáveis. “O amendoim não é uma commodity tradicional e exige entendimento de mercado e manejo. Começar com áreas menores é uma estratégia inteligente”, orienta.
A cultura apresenta vantagens importantes, como adaptação a solos arenosos, menor sensibilidade à estiagem e contribuição no controle de nematoides, beneficiando culturas subsequentes.
Raio-X da cultura do amendoim no Brasil
| Indicador | Situação Atual |
| Movimentação da cadeia (24/25) | R$ 18,6 bilhões |
| Investimento dentro da porteira | R$ 4,3 bilhões |
| Queda de produção (23/24) | -35% (seca histórica) |
| Preço vs custo (24/25) | -22% abaixo do custo |
| Redução de área (25/26) | -30% a -35% |
| Exportação de grãos | 312 mil toneladas |
| Exportação de óleo | 173 mil toneladas |
| Número de variedades | +20 cultivares |
| Produtividade ideal | 200 sacas/ha |
Entre números robustos e desafios persistentes, o amendoim brasileiro segue como uma cultura estratégica. Um setor que, mesmo sob pressão, continua reinventando sua própria trajetória, equilibrando ciência, mercado e resiliência para sustentar seu protagonismo global.