Gabriel Carvalho Ribeiro de Oliveira
Engenheiro agrônomo, especialista em Manejo Integrado de Pragas e Doenças e mestrando em Produção Vegetal – UNESP/FCAV
gabriel.cr.oliveira@unesp.br
Maibi Alves de Macedo Panichelli
Tecnóloga, pesquisadora em Ciências Agronômicas e mestranda em Entomologia Agrícola – UNESP/FCAV
maibi.panichelli@unesp.br
O mercado mundial de amendoim está pressionado pela oferta. O USDA, em seu relatório World Agricultural Production de abril de 2026, projeta a produção global em 51,5 milhões de toneladas, queda de 1,1% em relação a 2025.
Na China, maior produtora mundial com 18,4 milhões de toneladas, registra queda de 3,2% na projeção recente, enquanto na Índia, segunda produtora, com 7,5 milhões de toneladas, mantém crescimento.
Nesse contexto, o Brasil ocupa posição de destaque com a projeção de 1,15 milhão de toneladas (USDA), alinhado com os 1,2 milhão de toneladas estimados neste mês de março pela Conab, com variação de 3,9% em relação à safra anterior e de 0,1% ante a estimativa de fevereiro. O Brasil responde por 2,2% da produção mundial.
Fatia significativa
Com um cenário de retração da oferta global, o Brasil vem ganhando espaço. A produtividade projetada é de acréscimo de 144,1 kg por hectare em relação à safra anterior, um aumento de produtividade de 3,5%. A área semeada aumentou 0,4%.
O sudeste concentra 84,0% da produção nacional, mas o centro-oeste tem ampliado a participação, com destaque para o Mato Grosso do Sul. Na safra 2016/17, o estado plantava 2,5 mil hectares, na safra 2024/25, semeou 43,5 mil hectares e para 2025/26, a projeção é de 45,8 mil hectares, expansão de 18 vezes em menos de uma década.
A produção acompanhou essa trajetória. Das 4,5 mil toneladas colhidas em 2017/18, o Mato Grosso do Sul responde por 181,8 mil toneladas em 2025/26, consolidando-se como o principal vetor de crescimento da cultura no país.
Nas últimas safras, o rendimento médio no estado variou entre 3.186 kg/ha e 4.269 kg/ha, com projeção de 3.969 kg/ha para 2025/26, patamar próximo ao teto histórico.
O centro-oeste responde por cerca de 15,1% da produção nacional. A expansão decorre do encaixe da cultura como segunda safra (safrinha) no sistema produtivo sul-mato-grossense, aproveitando a janela agrícola após a soja e compartilhando a estrutura logística já consolidada.

Excelência técnica
O Mapeamento e Quantificação da Cadeia do Amendoim Brasileiro, que revela um faturamento total de R$ 18,6 bilhões na cadeia produtiva, demonstra que o crescimento não é apenas em volume, mas em excelência técnica.
Esse desempenho reflete a combinação de tecnologia, profissionalização do manejo e uso de cultivares mais produtivas e adaptadas. O uso de sementes certificadas e sistemas integrados de produção fortalece a rastreabilidade, a qualidade e o atendimento aos limites de resíduos exigidos pelos mercados internacionais.
O crescimento das exportações confirma que o Brasil não apenas produz bem, mas também entrega padrão superior de qualidade.
São Paulo lidera produção e organiza o sistema produtivo
O estado de São Paulo responde por grande parte da produção nacional, com forte integração ao setor sucroenergético. A cultura é amplamente utilizada na renovação de canaviais e na entressafra, com destaque para duas regiões produtivas.
Na Alta Mogiana, o cultivo ocorre principalmente na safra das águas, associado à renovação dos canaviais. Já na Alta Paulista, a conversão de áreas de pastagem e cana permite tanto a safra das águas quanto a safrinha, ampliando as oportunidades produtivas.
Esse modelo integrado estabelece critérios desde a implantação até o pós-colheita, garantindo certificação e acesso a mercados mais exigentes.

Pelo Brasil afora
Outro ponto de destaque é a diversificação geográfica da produção. O mapeamento revela crescimento de mais de 200% da área plantada em estados como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais.
O amendoim está se consolidando como cultura de segunda safra altamente rentável em novas fronteiras agrícolas. Essa expansão não só dilui os riscos climáticos e geográficos, mas também reafirma a versatilidade do amendoim no planejamento agrícola do país.
Genética, expansão e eficiência nutricional impulsionam a cultura
Grande parte do avanço produtivo está ligada ao melhoramento genético. Cultivares do tipo alto oleico oferecem maior estabilidade industrial e qualidade superior, agregando valor ao produto final.
A expansão para novas regiões também contribui para o crescimento do setor, especialmente como segunda safra. No entanto, fora das áreas tradicionais, o manejo exige maior atenção, com foco na correção do solo, ajuste da fertilidade e escolha adequada de cultivares.
O amendoim apresenta elevada eficiência no aproveitamento de nutrientes, respondendo bem à calagem e à gessagem, além de utilizar a fertilidade residual do solo. Em contrapartida, o risco de déficit hídrico em algumas regiões exige planejamento cuidadoso da época de plantio.
Pressão fitossanitária exige manejo técnico e constante
O manejo fitossanitário é um dos principais desafios da cultura. Pragas como tripes, lagartas e percevejos podem comprometer produtividade e qualidade dos grãos, tornando o monitoramento constante uma prática indispensável.
Entre as principais espécies, destacam-se a lagarta-do-pescoço-vermelho e o tripes-do-prateamento, capazes de provocar perdas de até 30% na ausência de controle eficiente. Pragas secundárias, como percevejo-preto, larva-alfinete e espécies do gênero Spodoptera, também exigem atenção.
O controle químico envolve diferentes grupos de inseticidas, como neonicotinoides, piretroides, espinosinas, reguladores de crescimento e moléculas mais recentes, o que permite maior eficiência e manejo da resistência. Ferramentas como o AmendoSafe, da Embrapa, auxiliam na escolha de produtos registrados e alinhados às exigências de exportação.
Doenças fúngicas e tecnologia de aplicação definem resultados
As doenças fúngicas estão entre os principais fatores limitantes da cultura. As cercosporioses, como mancha-preta e mancha-castanha, apresentam ocorrência generalizada e elevada severidade, sendo praticamente inevitáveis ao final do ciclo.
Outras doenças, como tombamento de plântulas, ferrugem, verrugose e podridões de vagens, também impactam o estande e a produtividade. A severidade está diretamente ligada às condições climáticas, especialmente umidade e precipitação.
A eficiência do controle depende não apenas da escolha do produto, mas da tecnologia de aplicação. Fatores como tamanho de gotas, cobertura e condições ambientais influenciam diretamente os resultados. O uso de adjuvantes e a adoção de aplicações bem ajustadas são determinantes para o sucesso.
O uso crescente de agentes biológicos, como fungos entomopatogênicos, contribui para um manejo mais equilibrado e sustentável.
Manejo integrado ainda enfrenta limitações
O Manejo Integrado de Pragas representa uma estratégia essencial para otimizar o uso de defensivos, com base no monitoramento e na tomada de decisão. No entanto, sua adoção ainda é limitada por fatores como alta incidência de doenças, variabilidade das áreas e restrição de produtos registrados.
Isso favorece práticas calendarizadas, menos eficientes e mais onerosas. A rotação de ingredientes ativos e o uso de sistemas de previsão são fundamentais para aumentar a eficiência e reduzir riscos de resistência.

de cercosporioses no campo

de secagem para colheita do amendoim
Qualidade e controle de aflatoxinas começam no campo
A competitividade do amendoim brasileiro está diretamente ligada à qualidade do produto final. O controle de micotoxinas, especialmente aflatoxinas, começa no campo e se estende até o pós-colheita.
Danos causados por insetos favorecem a entrada de fungos, tornando essencial o manejo fitossanitário adequado. A colheita no momento correto, a secagem eficiente e o armazenamento adequado são etapas críticas para garantir a qualidade e atender aos padrões internacionais.
Benefícios agronômicos fortalecem sistemas produtivos
Como leguminosa, o amendoim contribui para a fixação biológica de nitrogênio, melhorando a fertilidade do solo e reduzindo a necessidade de adubação nitrogenada em culturas subsequentes.
Sua inserção na rotação ajuda a quebrar ciclos de pragas, doenças e plantas daninhas, além de auxiliar no manejo de nematoides e melhorar as condições físicas do solo. Em sistemas com cana-de-açúcar, os ganhos são tanto agronômicos quanto econômicos.
Custos, tecnologia e gestão definem rentabilidade
A cultura exige investimento significativo, especialmente em insumos fitossanitários e fertilizantes. Operações mecanizadas e sementes também representam parcelas importantes do custo.
Nesse cenário, a adoção de tecnologias de precisão, como piloto automático e monitoramento de lavouras, tem contribuído para aumentar a eficiência e reduzir perdas. A agricultura de precisão permite melhor distribuição de insumos e otimização dos recursos.
Integração com cana exige planejamento técnico
A sucessão cana-amendoim exige atenção especial, principalmente em relação ao carryover de herbicidas, que pode comprometer o desenvolvimento inicial da cultura.
Durante o ciclo, pragas e doenças exigem intervenções precisas para proteger a área foliar. O manejo do solo também é fundamental, especialmente para o desenvolvimento dos ginóforos e formação das vagens.
Além disso, o planejamento deve evitar compactação do solo e garantir condições adequadas para o arranquio, reduzindo perdas.
Panorama do sistema produtivo do amendoim no Brasil
| Aspecto | Característica | Impacto na produção | Estratégia recomendada |
| Produtividade | Média próxima de 3,8 t/ha | Alta competitividade global | Uso de cultivares modernas e manejo técnico |
| Produção | Concentração em São Paulo | Integração com cana-de-açúcar | Planejamento regional e rotação |
| Pragas | Alta incidência e diversidade | Perdas de até 30% | Monitoramento e MIP |
| Doenças | Cercosporioses e outras doenças fúngicas | Redução de produtividade e qualidade | Manejo preventivo e tecnologia de aplicação |
| Qualidade | Risco de aflatoxinas | Restrição de mercado | Manejo integrado e pós-colheita eficiente |
| Solo | Fixação biológica de nitrogênio | Melhoria da fertilidade | Inserção em rotação de culturas |
| Custos | Elevados em insumos e operações | Impacto na rentabilidade | Agricultura de precisão e gestão eficiente |
| Mercado | Forte presença internacional | Exigência de qualidade e rastreabilidade | Certificação e controle de resíduos |
Um setor técnico, competitivo e em expansão
O amendoim brasileiro vive um momento de alta sofisticação técnica, com crescimento sustentado pela integração entre ciência, tecnologia e gestão. A ampliação do portfólio de defensivos, incluindo insumos biológicos, fortalece o manejo integrado e atende às exigências ambientais e comerciais.
Os desafios futuros incluem o desenvolvimento de cultivares mais resistentes, a expansão do cultivo orgânico e a adaptação às exigências de mercados cada vez mais rigorosos. Ao mesmo tempo, fatores como custo de produção, volatilidade de preços e dependência do mercado externo exigem planejamento e gestão estratégica.
O cenário aponta para uma cultura cada vez mais relevante, na qual produtividade, qualidade e sustentabilidade caminham juntas. O sucesso dependerá da capacidade de integrar conhecimento técnico, inovação e tomada de decisão precisa, garantindo competitividade e crescimento contínuo no cenário global.