A ideia de que o Brasil é uma terra naturalmente fértil, difundida desde a carta de Pero Vaz de Caminha em 1500, não condiz com a realidade científica. Grande parte dos solos brasileiros, especialmente em regiões tropicais, apresenta baixa fertilidade natural, alta acidez e limitações químicas que exigem manejo técnico constante. Prova disso é que, só em 2025, o Brasil importou cerca de 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes para corrigir esses problemas, volume superior ao de 2024 e recorde, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).
E qual é a importância disso para nossa alimentação? A fertilização é parte fundamental do processo de produção de alimentos, pois reforça o solo com os nutrientes que, no final, acabam no nosso prato. E para que o próximo plantio ofereça a mesma quantidade de substâncias nutritivas, é necessário repor aquilo que foi retirado nas colheitas anteriores. “Explorar o solo sem repor nutrientes é como exigir esforço contínuo de uma pessoa sem oferecer alimentação adequada: ela acaba exaurida”, compara o coordenador-geral da Nutrientes para a Vida (NPV), o agrônomo Valter Casarin.
Então, qual a diferença entre um solo nutrido e um solo exaurido?
Segundo explica o especialista, um solo nutrido é biologicamente ativo, quimicamente equilibrado e fisicamente estruturado. Rico em matéria orgânica, favorece infiltração de água, oxigenação das raízes e abriga microrganismos responsáveis pelo reaproveitamento de nutrientes.
“O solo é a base da cadeia alimentar. É nele que começa a construção da qualidade do alimento que chega à nossa mesa”, afirma. “Quando o equilíbrio é mantido, as plantas expressam melhor seu potencial produtivo e apresentam maior resistência”. O desafio surge quando a extração promovida pelas colheitas não é acompanhada pela reposição adequada.
A produção de grãos, frutas e fibras representa uma saída direta de nutrientes do sistema. Sem compensação, o solo entra em processo gradual de empobrecimento: a produtividade cai, aumentam os riscos de pragas e doenças, a matéria orgânica diminui e a estrutura física se degrada, favorecendo compactação e erosão.
Um exemplo é o arroz, um dos “queridinhos” da alimentação e que é presença certa no prato de 8 em cada 10 brasileiros, de acordo com o IBGE. Segundo estudos realizados pelo pesquisador brasileiro Carlos Alexandre Crusciol, são extraídos aproximadamente 14,6 quilos de nitrogênio por tonelada produzida de arroz. E o nitrogênio é apenas um dos nutrientes que saem nesse processo: são retirados do solo também fósforo, potássio, cálcio, magnésio, enxofre e micronutrientes, todos essenciais ao desenvolvimento das plantas. Ou seja, cada safra representa não apenas geração de alimento, mas também uma perda direta de nutrientes do sistema produtivo no campo.
Isso afeta diretamente o consumidor, já que, quando o solo perde fertilidade, a produção se torna mais cara e menos eficiente, o que pode impactar a oferta de alimentos, pressionar custos e reduzir a qualidade do que chega no prato da população. “Manter a fertilidade do solo é uma das bases para garantir estabilidade no abastecimento e sustentabilidade na produção”, explica Casarin.
Para isso, é necessário repor os nutrientes que a produção de alimentos retirou. O uso equilibrado de fertilizantes – minerais, orgânicos ou organominerais -, aliado a práticas como rotação de culturas, plantio direto e agricultura de precisão, permite manter áreas já consolidadas produtivas e reduzir a pressão por abertura de novos espaços para cultivo – ou seja, desmatamento.
“Assim como o corpo humano precisa repor vitaminas e minerais para manter a saúde, o solo também requer reposição planejada para preservar sua capacidade produtiva ao longo do tempo. Em um cenário de crescimento populacional, manter solos nutridos se mostra mais do que uma estratégia agronômica: é um compromisso com a segurança alimentar pública”, finaliza.
