Valorização tecnológica de resíduos orgânicos da laranja

A pectina e óleos essenciais podem ser extraídos dos resíduos gerados pelo setor citrícola, apresentando amplo potencial de aplicação tecnológica e contribuindo para a redução de impactos ambientais.
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A laranja, pertencente ao gênero Citrus, é uma das frutas mais produzidas e consumidas no mundo, geram grandes volumes de resíduos orgânicos como a casca, albedo, sementes e bagaço. Praticamente 50% do fruto processado se transforma em resíduo, que ao ser destinado de forma inadequada pode gerar odor, fermentação e impactos ao meio ambiente, sendo assim um grande desafio para a Indústria de sucos.

Neste contexto, surge a necessidade de transformar esses resíduos em matéria-prima com valor agregado, gerando economia circular no setor. O albedo e a casca são os resíduos com mais potencial de aproveitamento tecnológico. O albedo da laranja é rico em pectina, utilizada como revestimento devido à estabilização e gelificação, podendo assim, ser usada na formação de filmes para prolongar a vida útil de alguns alimentos. Já a casca da laranja é uma fonte importante de óleos essenciais com propriedades aromáticas, antioxidantes e antimicrobianas.

As laranjas representam mais de 60% da produção mundial de citrinos, aproximadamente 82 milhões de toneladas. As indústrias agroindustriais de processamento de citrinos geram grandes volumes de resíduos anualmente, principalmente casca, albedo, sementes e bagaço (IDAMOKORO et al., 2022). Esses resíduos possuem elevada umidade, o que favorece os processos de fermentação e consequentemente fortes odores quando armazenados ou destinados de forma inadequada, gerando assim diversos problemas econômicos e ambientais, representando um desafio operacional no setor.

Diante disso, a valorização tecnológica dos resíduos orgânicos surge como uma estratégia de mercado alinhada com os princípios da economia circular, no qual materiais antes considerados resíduos não aproveitados passam a ser reintegrados na cadeia produtiva. Esse cenário favorece a redução de passivos ambientais, otimização do uso de recursos naturais e geração de novos produtos com valor agregado, desenvolvendo maior sustentabilidade e inovação no setor citrícola.

O albedo da laranja, camada branca que se combina com o flavedo para formar a casca, é rico em pectina, um polissacarídeo com propriedades gelificantes, espessantes e estabilizantes, utilizada nas áreas de alimentos, medicina e cosmético. Dentre os benefícios, incluem a redução do risco de doenças cardíacas, hipertensão, câncer de intestino, diarreia e toxinas, possui capacidade de formar filmes despertando interesse para aplicações na conservação de alimentos, além de fornecer fibras alimentares para uma melhor digestão, sendo considerado uma das frações mais promissoras do processamento da laranja (HOSSAIN et al., 2024).

A metodologia de extração da pectina influencia diretamente sua estrutura, rendimento e a qualidade. Os métodos convencionais utilizam altas temperaturas e meios fortemente ácidos, geralmente ácidos inorgânicos, porém pode causar impactos ao meio ambiente e alterações estruturais na pectina. Como alternativa, o uso de ácidos orgânicos fracos, como o ácido cítrico, tem sido proposto por apresentar maior segurança operacional e menor impacto ambiental. Além disso, técnicas emergentes, como extração assistida por ultrassom e micro-ondas, demonstram potencial para aumentar o rendimento e melhorar propriedades funcionais da pectina (LI et al., 2024). A demanda por pectina continua a aumentar, posicionando como o terceiro maior hidrocoloide alimentar.

A casca da laranja é uma fonte promissora de óleos essenciais, cuja aplicação abrange diversos setores, incluindo as indústrias alimentícia, farmacêutica e agrícola. O mercado global de óleos essenciais cítricos foi estimado em € 773 milhões em 2023 e possui uma estimativa de crescimento de € 1,1 bilhão até 2030. Esses óleos essenciais possuem diversidade e complexidade de compostos químicos que atuam em vários alvos celulares por meio de diferentes mecanismos de ação. Na indústria de alimentos e bebidas, o óleo de laranja é amplamente empregado como aromatizante em produtos de panificação, doces e bebidas, seu sabor fresco e cítrico realça o sabor dos alimentos (FIGUCCIA et al., 2025). Além disso, demonstram também potencial antioxidante e antimicrobiano, ampliando assim as possibilidades de aplicação tecnológica.

Esses óleos são extraídos principalmente através de métodos convencionais, como a prensagem a frio e hidrodestilação. A escolha da técnica de extração influencia diretamente a composição química e o rendimento do óleo essencial. A escolha de um procedimento inadequado de extração pode danificar ou alterar a composição química dos óleos essenciais, resultando em perda de bioatividade e características naturais. Portanto, vários processos como extração com CO₂ supercrítico, extração com solventes orgânicos voláteis, ultrassônica são mais avançadas e também podem ser utilizadas com o objetivo de obter rendimentos máximos (SOUIY, 2023).

O aproveitamento da pectina do albedo e a obtenção dos óleos essenciais da casca da laranja representam uma estratégia eficiente para a valorização dos resíduos provenientes do processamento da laranja. Embora existam desafios a serem superados relacionados à padronização dos processos e aos aspectos regulatórios, essa temática possui elevado potencial para o desenvolvimento de modelos industriais mais sustentáveis e de economia circular.

A valorização dos resíduos orgânicos da laranja demonstra uma alternativa eficiente e sustentável para o setor citrícola, ao permitir o reaproveitamento do albedo e da casca na obtenção de pectina e óleos essenciais. Como abordado neste artigo, esses materiais apresentam potencial de aplicação em diversos setores, trazendo benefícios ao meio ambiente e promovendo melhor aproveitamento dos recursos naturais. Sendo assim, o uso tecnológico desses resíduos fortalece práticas de economia circular e favorece o desenvolvimento de processos industriais mais sustentáveis e inovadores.

Por Alline Laiane Borges Dias*, Cássia Cristina Fernandes Alves, Marco Antônio Pereira da Silva, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Goiano – Campus Rio Verde.

Referências Bibliográficas: FIGUCCIA, S., RICCI, A., & BERNINI, V. Solid by-products from the orange essential oil industry: could they be a source of antimicrobials?. LWT, p. 118440, 2025. HOSSAIN, M. M., ARA, R., YASMIN, F., SUCHI, M., & ZZAMAN, W. Microwave and ultrasound assisted extraction techniques with citric acid of pectin from Pomelo (Citrus maxima) peel. Measurement: Food, v. 13, p. 100135, 2024. IDAMOKORO, E. M., & HOSU, Y. S. Out-look on worldwide trends of related studies on citrus waste as feed for livestock production: a scientometric analysis. Frontiers in Research Metrics and Analytics, v. 7, p. 869974, 2022. LI, H., LI, Z., WANG, P., LIU, Z., AN, L., ZHANG, X., … & GAO, W. Evaluation of citrus pectin extraction methods: Synergistic enhancement of pectin’s antioxidant capacity and gel properties through combined use of organic acids, ultrasonication, and microwaves. International Journal of Biological Macromolecules, v. 266, p. 131164, 2024. SOUIY, Zoubeida. Essential oil extraction process. In: Essential Oils-Recent Advances, New Perspectives and Applications. IntechOpen, 2023.

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