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Safrinha em alta: as apostas mais fortes do campo

Para segunda safra de milho 2025/2026 no Brasil, as estimativas apontam para uma área plantada em torno de 15,4 a 18 milhões de hectares, com um potencial de produção recorde de cerca de 102 milhões de toneladas, impulsionado por bons indicativos no centro-sul, mas com desafios climáticos (La Niña) na região Sul afetando o desenvolvimento inicial.
Acompanhe tudo sobre Safrinha e muito mais!

Autoria:

Greice Marques Barbosa
greiceagro@gmail.com
Rafael de Queiroz Costa
afaqc_agro@yahoo.com.br
Doutores em Agronomia/Fitotecnia, professores e pesquisadores – Centro Universitário Arnaldo Horácio Ferreira (UNIFAAHF)
Ana Isabel Santos Grenho
Mestra em Ciências Agrárias/Gestão de Solo e Água, professora e pesquisadora -UNIFAAHF
ana.isa.grenho@gmail.com

O crescimento acelerado da área de milho safrinha nasce da soma de tecnologia, economia e clima. A cultura se transformou na principal estratégia de rentabilidade após a soja, especialmente quando a semeadura segue as recomendações do Zoneamento Agrícola de Risco Climático.

Plantar na janela ideal aumenta as chances de o ciclo coincidir com o auge das chuvas e reduz o risco de estresse hídrico em florescimento e enchimento de grãos, fases decisivas para a produtividade.

Nesse cenário, o melhoramento genético trouxe híbridos mais tolerantes ao déficit hídrico, mais sadios e com ciclo reduzido, uma combinação que potencializa resultados. A lógica econômica também pesa: plantar milho na safrinha maximiza o uso da área, dilui custos fixos e aumenta a renda líquida do sistema.

Como cultura sucessora, depende da liberação rápida do talhão, o que vem impulsionando o uso de sojas de ciclo curto para garantir a entrada do milho no momento certo.

Clima, risco e Ecofisiologia

O sucesso das culturas de safrinha está diretamente ligado ao comportamento climático e à sensibilidade das plantas nas fases mais críticas: germinação e emergência, florescimento e enchimento de grãos.

Esses estádios são vulneráveis a estresses ambientais que podem comprometer a produtividade de forma irreversível. Entender a ecofisiologia das culturas utilizadas é essencial para decisões mais assertivas.

Esse conhecimento permite prever demandas de água, temperatura e radiação, além de ajustar a escolha de híbridos e a data de plantio conforme o risco climático.

Quando o milho perde espaço e o sorgo assume o protagonismo

Há regiões em que o milho se torna uma escolha arriscada, especialmente quando a semeadura é tardia, o solo apresenta baixa fertilidade ou o ambiente hídrico é altamente instável.

Nesses casos, o sorgo emerge como alternativa técnica mais segura. Sua fisiologia mais eficiente no uso da água, com fechamento rápido dos estômatos, cutícula espessa e raízes adaptadas à extração de umidade, garante desempenho superior em cenários de estresse hídrico.

Por isso, o sorgo se mostra mais vantajoso quando o risco de falta de água no final do ciclo é elevado ou quando o plantio ocorre inevitavelmente fora da janela recomendada.

Escolha do híbrido: o coração da estratégia

Selecionar o híbrido de milho adequado é, provavelmente, a decisão mais estratégica da safrinha. O material precisa unir alto teto produtivo e segurança agronômica, equilibrando tolerância a estresses, sanidade, ciclo e adaptação ao ambiente.

Diante da variedade de opções no mercado, o produtor deve se apoiar em características-chave que garantam estabilidade e desempenho consistente, conforme apresentado no quadro 1.

Quadro 1. Características que devem ser consideradas para a escolha do híbrido de milho que será semeado na safrinha.

CaracterísticasConsiderações
Ciclo da plantaOptar por materiais precoces ou superprecoces aumenta a possibilidade das plantas alcançarem suas fases críticas com precipitações adequadas. Em caso de atraso na janela de semeadura, os híbridos superprecoces tornam-se a escolha mais indicada.
Segurança biológicaUsar híbridos com: tolerância ou resistência ao complexo de enfezamento e a cigarrinha (Dalbulus maidis); e, com pacote tecnológico inserido, como ¹Bt, ²RR, LL³, etc. Alguns materiais apresentam Gene Stacking que combina duas ou mais características transgênicas em um único híbrido.
Estabilidade produtivaEscolher híbridos reconhecidamente tolerantes a restrição hídrica por períodos curtos e manutenção do desempenho agronômico sob temperaturas mais elevadas no início e mais baixas ao final do ciclo.
Densidade de semeaduraPreferência por híbridos que se adaptem a ajustes na densidade de plantas sem perdas agronômicas significativas, pois, a população de plantas deve ser modulada em função do potencial produtivo e o ambiente de cultivo (maior população de plantas em situações com alto investimento e disponibilidade hídrica, e mais baixas em caso de restrição hídrica e/ou menor investimento).

¹ Bt – Bacillus thuringiensis (resistência a algumas lagartas); ²RoundupReady (tolerância ao glifosato); LibertyLink (tolerância ao glifosinato de amônio).

Rotação como motor de produtividade

A rotação de culturas é uma estratégia sustentável e que pode maximizar a produtividade em sistemas de safrinha. Este manejo, quando bem executado, promove a melhoria da qualidade física, química e biológica do solo. Além disso, permite reduzir o ciclo de exaustão de nutrientes e auxiliar no controle de pragas e doenças.

A diversificação de espécies deve ser realizada a partir de um plano plurianual bem estruturado, essencial para ajustar as sucessões de culturas que deverão compor o sistema de rotação.

Para melhor compreensão, a sucessão refere-se à semeadura sequencial de duas ou mais culturas na mesma área dentro do mesmo ano agrícola (ex.: soja no verão seguida por milho safrinha). Já a rotação é uma técnica que consiste na alternância planejada de diferentes espécies vegetais em um ciclo de vários anos e dentro da mesma área.

Atenção aos detalhes

Ao selecionar as espécies para a rotação, especialmente na safrinha, o produtor deve estar ciente das particularidades ecofisiológicas de cada cultura, como sua demanda por água, exigências térmicas e sua interação com o manejo.

O feijão-comum, por exemplo, eleva o risco de insucesso devido à sua alta sensibilidade a restrições hídricas e geadas, demandando um planejamento rigoroso. Contudo, mesmo sendo uma leguminosa com baixa eficiência na fixação biológica de nitrogênio, sua inclusão na rotação ainda fornece um aporte residual desse nutriente que beneficia a cultura subsequente.

Em contrapartida, a introdução de gramíneas que geram resíduo expressivo, como milho, Urochloa ruziziensis, Urochloa brizantha, milheto e sorgo, promovem melhorias edáficas significativas, o que beneficia o desempenho das plantas e gera reflexos positivos na produtividade.

Girassol – adapta a baixa fertilidade

Além do sorgo, milheto e feijão-comum, outras culturas alternativas ao milho na safrinha são capazes de gerar receitas significativas e oferecer benefícios em programas de rotação, como é o caso do girassol e da canola.

O girassol apresenta tolerância à seca e pode se adaptar melhor em condições de baixa fertilidade do solo em comparação ao milho. A planta possui um sistema radicular profundo e vigoroso, conferindo-lhe maior capacidade em explorar o perfil do solo.

A escolha do híbrido também é fundamental. Além disso, o produtor deverá estar atento ao manejo de plantas daninhas e ao controle de percevejos e lagartas, que pode impactar significativamente a produtividade e a qualidade do óleo.

O capítulo (inflorescência) é sensível à umidade na fase final, podendo ser acometido por mofo-branco, causado por Sclerotinia sclerotiorum, o que exige planejamento para que a colheita ocorra em períodos mais secos.

Canola – sistema radicular vigoroso

A canola, por sua vez, é uma cultura que apresenta sistema radicular vigoroso e boa tolerância a temperaturas mais baixas, tornando-se uma boa opção em áreas com risco de geadas tardias e onde o milho já não seria viável devido ao fechamento da janela de plantio.

Seu menor ciclo permite que a planta complete sua maturação antes do período de seca extrema, otimizando o uso da umidade residual do solo deixada pela safra de verão. No manejo dessa cultura, deve-se buscar um estande uniforme e denso o suficiente para sombrear o solo rapidamente e auxiliar no controle de plantas daninhas, mas sem causar estiolamento ou excesso de competição.

É necessário que o produtor esteja atento a parte nutricional, pois a canola apresenta demanda elevada por nitrogênio, fósforo e enxofre, ocorrendo frequentemente deficiências desses nutrientes em solos ácidos ou com baixo teor de matéria orgânica, o que afeta negativamente a produtividade.

O cultivo da canola está concentrado predominantemente na Região Sul, especialmente nos estados do Rio Grande do Sul e Paraná. Contudo, há esforços por parte de instituições públicas e privadas para condução de pesquisas que visam a adaptação de novos materiais genéticos com viabilidade agronômica em outras fronteiras agrícolas, como o Cerrado brasileiro.

Os cinturões da safrinha no Brasil

Há regiões que se apresentam como “cinturões” da safrinha, sendo responsáveis pela maior parte da produção nacional de milho, sorgo, dentre outras culturas. Essas regiões se destacam devido à combinação de fatores climáticos favoráveis e avanços tecnológicos.

A região centro-oeste se consolidou como o maior polo produtor na safrinha, impulsionada pela produção em larga escala e pela janela de semeadura antecipada, cultivando majoritariamente milho e sorgo.

Historicamente, o estado de Mato Grosso (MT) se destaca como o principal produtor de milho safrinha no Brasil, sucesso este alcançado pela combinação de fatores técnicos e agronômicos, que resultam em práticas integradas que elevam as produtividades.

A região sul é caracterizada pelo foco em tecnologias e alto investimento. Embora o cultivo de milho de verão seja forte, a safrinha tem relevância em áreas específicas, apesar de ser comum, também, a escolha pelas culturas de inverno como o trigo, a aveia e a canola.

O Paraná (PR) é um estado que apresenta manejo tecnológico avançado, uso intensivo de fertilizantes e híbridos de alta performance que, apesar do risco de geadas tardias, frequentemente alcançam altos índices de produtividade.

O Matopiba (fronteira agrícola composta pelos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) tem apresentado um crescimento expressivo nas culturas de segunda safra.

Tradicionalmente, o milho safrinha é semeado após a soja, mas a janela de plantio está encolhendo devido ao atraso da safra de verão, levando o produtor a buscar alternativas, como o sorgo e o milheto, que oferecem maior resiliência e benefícios agronômicos para o ciclo de safrinha, especialmente em um cenário de clima incerto.

Amendoim e arroz: potenciais com alto grau de exigência

O amendoim e o arroz, embora sejam importantes opções de diversificação e rotação de culturas, exigem um olhar mais técnico e enfrentam desafios distintos em comparação com outras culturas.

O amendoim é uma cultura de alto valor, mas que impõe desafios relacionados às exigências de solo e ao manejo da colheita. Para o cultivo, é estritamente indicado que seja realizado em solos de textura arenosa ou franco-arenosa, férteis e bem drenados.

O arroz na safrinha, seja de sequeiro ou irrigado, é uma opção mais restrita a regiões com viabilidade hídrica garantida ou que se enquadrem em um sistema de rotação específico.

O arroz é uma cultura que demanda uma quantidade elevada de água, principalmente na fase de perfilhamento e enchimento de grãos. Na safrinha, o risco de déficit hídrico é alto e pode inviabilizar a cultura de sequeiro.

Dicas práticas

O cultivo na safrinha representa uma importante oportunidade de retorno econômico para o produtor. Essa estratégia fomenta a otimização do uso da área cultivada, promovendo maior eficiência na geração de receita dentro do mesmo talhão e ano agrícola.

Contudo, devido aos riscos agronômicos inerentes a essa época, principalmente climáticos, as chances de insucesso também aumentam. Isso reforça a necessidade de minimizar as falhas estratégicas que derivam diretamente de um planejamento inadequado, sendo este o ponto-chave para assegurar a rentabilidade.

Decisões estratégicas para não errar na safrinha

Planejar com precisão é o fator que mais pesa para transformar a safrinha em lucro. A escolha da cultura deve respeitar a data real de liberação da área e a janela de semeadura recomendada.

Quando o plantio atrasa, a decisão correta é migrar para espécies mais tolerantes à seca e ao frio de final de ciclo.

Também é crucial realizar uma análise econômica completa, e não apenas olhar para o preço de venda. O sorgo, por exemplo, custa menos para produzir e responde melhor ao estresse hídrico, mas possui preço de mercado inferior ao do milho. Cabe ao produtor avaliar se a segurança produtiva compensa a menor receita.

Outro ponto crítico é o manejo fitossanitário: muitas culturas alternativas têm menor investimento industrial em defensivos, o que reduz o número de ingredientes ativos registrados e aumenta o risco de falhas no controle de pragas, doenças e plantas daninhas.

Entender essas limitações é essencial para evitar erros caros e garantir que a safrinha cumpra seu papel: ampliar renda com segurança agronômica

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