Protetores solares de plantas: estratégia agronômica frente ao estresse climático

Ferramentas físicas e fisiológicas ganham protagonismo no manejo de estresses fotooxidativos e térmicos em sistemas agrícolas a pleno sol.
Young farmer woman checking out her coffee plantation. Brazilian farmer. Agronomist's day.

Publicado em 24 de fevereiro de 2026 às 06h22

Última atualização em 23 de fevereiro de 2026 às 15h39

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Bruno Neves
Engenheiro agrônomo, mestre em Solos e Nutrição de Plantas e doutor em Produção Vegetal

O aumento da frequência e da intensidade de ondas de calor, associado à radiação solar excessiva, tem ampliado a ocorrência de estresses fotooxidativos e térmicos em culturas agrícolas no Brasil, especialmente em sistemas conduzidos a pleno sol.

Nesse contexto, os chamados protetores solares de plantas surgem como ferramentas agronômicas relevantes para mitigar danos fisiológicos associados ao excesso de radiação, sobretudo à fração da radiação fotossinteticamente ativa absorvida (FAPAR), à radiação ultravioleta (UV) e às altas temperaturas superficiais de folhas e frutos.

A magnitude desses efeitos está diretamente relacionada ao índice de área foliar (IAF), que determina a capacidade do dossel em interceptar a radiação incidente, modulando tanto a quantidade quanto a distribuição espacial da FAPAR no interior da copa das plantas.

Esses insumos podem ser classificados, de forma complementar, em protetores solares físicos e fisiológicos, que atuam por mecanismos distintos, porém sinérgicos.

Protetores solares físicos: reflexão e redução térmica

Os protetores solares físicos, representados principalmente por filmes de partículas minerais à base de caulim, carbonato de cálcio e dióxido de titânio, formam uma película refletiva sobre folhas e frutos, aumentando o albedo da superfície vegetal.

Esse efeito resulta na redução da absorção de energia radiante e, consequentemente, na diminuição da temperatura foliar ou da superfície dos frutos, mitigando distúrbios como escaldadura solar, necrose térmica e danos fotooxidativos.

Estudos demonstram que, apesar de uma possível leve redução da fotossíntese em folhas individualmente expostas, ocorre melhoria da eficiência de uso da radiação em nível de dossel, devido à melhor distribuição da luz difusa no interior da copa, especialmente sob condições de alta irradiância e calor.

Protetores solares fisiológicos: proteção metabólica e celular

Os protetores solares fisiológicos, por sua vez, atuam modulando processos metabólicos e fisiológicos das plantas. Nesse grupo, destacam-se substâncias de ação bioquímica, como cálcio e silício aplicados via foliar, que fortalecem o sistema antioxidante, estabilizam membranas celulares e preservam a integridade do aparato fotossintético sob estresse térmico.

Também se incluem osmoprotetores, como glicina-betaína e prolina, que protegem proteínas, enzimas e fotossistemas contra a desnaturação induzida por calor e seca.

Além disso, substâncias antioxidantes presentes em extratos botânicos, como ascorbato, tocoferóis, terpenos, flavonoides, polifenóis e carotenoides, têm demonstrado efeitos agronômicos positivos na redução e mitigação de estresses ambientais, seja pela amplitude térmica ao longo do dia, seja pela capacidade de detoxificação de EROs (espécies reativas de oxigênio).

Aplicações no Brasil e respostas das culturas

No Brasil, a adoção desses insumos tem sido mais consistente em culturas perenes e de maior valor agregado, como café, citros, uva, manga, maçã e abacate. Na cafeicultura, o uso de filmes de caulim tem demonstrado redução significativa da temperatura foliar, melhora nas trocas gasosas, aumento da eficiência do uso da água e incrementos de produtividade e qualidade dos grãos.

Em citros e frutíferas tropicais, os protetores solares físicos reduzem a incidência de danos na casca dos frutos, melhoram a uniformidade e preservam atributos qualitativos. Já em uvas de mesa e maçã, esses insumos minimizam perdas comerciais decorrentes da escaldadura solar.

Benefícios agronômicos e produtivos

Para o agricultor, os benefícios se traduzem em maior estabilidade produtiva, redução de perdas associadas a estresses climáticos, melhoria da qualidade comercial e maior previsibilidade de rendimento em cenários de variabilidade climática, reduzindo gargalos produtivos em janelas críticas.

Para as plantas, essas tecnologias contribuem para a manutenção da atividade fotossintética, do equilíbrio hídrico e da integridade celular sob condições ambientais adversas.

Estratégia integrada de manejo

A adoção de protetores solares físicos e fisiológicos integra uma estratégia moderna de manejo de estresses abióticos em sistemas de produção intensivos, adicionando uma camada de proteção que atua tanto externa quanto internamente nas plantas.

O uso criterioso desses insumos pode aumentar significativamente a sustentabilidade, o desempenho agronômico e a rentabilidade econômica dos sistemas de produção.

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