Jerusa Maia e Sá
Engenheira agrônoma, doutora em Agronomia/Ciências do Solo e professora – Centro Universitário Arnaldo Horácio Ferreira (UNIFAAHF)
jerusamaiasa@gmail.com
Ceilla Mirian Paiva Santana
Engenheira agrônoma, mestra em Ciências Ambientais e professora – UNIFAAHF
ceillaprofciamb35@gmail.com
Ana Isabel Santos Grenho
Engenheira agrônoma, mestra em Ciências Agrárias e professora – UNIFAAHF
ana.isa.grenho@gmail.com
O Brasil segue absoluto como maior produtor mundial de cana-de-açúcar, movimentando uma das cadeias mais estratégicas do planeta.
Segundo o relatório “Agromensais”, do Cepea (Esalq/USP), para a safra 2026/27, o Centro-Sul deve moer entre 620 e 625 milhões de toneladas. Desse volume, cerca de 50,6% deve ser destinado ao açúcar, com produção estimada em aproximadamente 41,5 milhões de toneladas. O restante será direcionado majoritariamente ao etanol, em um cenário de mistura obrigatória de 30% de anidro na gasolina e atenção à dinâmica de preços.
Mercado externo
No mercado internacional, a projeção de superávit global entre 1,6 e 10,5 milhões de toneladas, reforçada por relatório da International Sugar Organization, indica oferta mais confortável e estoques mais folgados entre exportadores.
Energia renovável
Ainda assim, o verdadeiro diferencial competitivo do setor sucroenergético brasileiro vai além do volume: a cana se consolida como plataforma estratégica da bioeconomia, integrando biotecnologia, eficiência industrial, rastreabilidade digital e ativos ambientais, posicionando o Brasil não apenas como líder em produção, mas como protagonista global em energia renovável e bioprodutos.
Ecossistema de dados preserva valor e garante eficiência
Na cadeia produtiva da cana, tempo é variável econômica crítica. Após a colheita, o açúcar total recuperável, indicador que determina a qualidade industrial da matéria-prima, começa a se degradar. Cada hora adicional entre corte e moagem representa perda financeira e redução de eficiência.
Para mitigar esse risco, o setor incorporou ecossistemas de dados baseados em Big Data e inteligência artificial. Sensores de solo monitoram umidade e temperatura. Sensores de planta avaliam clorofila e teor de sacarose.
Drones capturam imagens NDVI para análise de vigor vegetativo. Sistemas de telemetria acompanham, em tempo real, pulverização, colheita e transporte.
Essa arquitetura tecnológica exige conectividade rural robusta, armazenamento em nuvem e processamento mesmo em áreas com sinal intermitente. O resultado é um fluxo contínuo de informações que orienta decisões agronômicas, logísticas e industriais.

Monitoramento em tempo real
Com monitoramento em tempo real, a usina otimiza o planejamento de entrega, reduz o intervalo entre corte e moagem, minimiza variabilidade no ATR e aumenta previsibilidade operacional. O sistema também eleva a resiliência, permitindo respostas rápidas a chuvas inesperadas, estradas bloqueadas ou falhas mecânicas.
A conectividade deixa de ser apenas ferramenta de coleta de dados e passa a ser mecanismo estratégico que sincroniza campo e indústria, garantindo que o valor do ATR seja preservado ao longo de toda a cadeia.
Biotecnologia amplia longevidade e valor do canavial
No campo, a estabilização do TCH em ciclos avançados tornou-se diferencial competitivo. Com o mercado de biológicos crescendo 13% ao ano, a safra 2025/26 consolida o domínio das tecnologias voltadas à soqueira de alta performance.
Solubilizadores de fósforo e bioinoculantes permitem romper a barreira do quinto corte com vigor vegetativo expressivo. Fertilizantes de liberação controlada fornecem nutrientes gradualmente, reduzindo perdas por lixiviação e volatilização.
Soluções híbridas que combinam controle químico e biológico da cigarrinha-das-raízes promovem proteção e recuperação radicular simultaneamente.
A consequência direta é a redução de reformas precoces do canavial, diluição de custos fixos e fortalecimento da saúde financeira das usinas. A biotecnologia deixa de ser apenas ferramenta agronômica e passa a ser instrumento financeiro.

Pioneirismo em tecnologia
O Brasil consolida seu pioneirismo com o desenvolvimento da Cana-Energia e com variedades editadas por CRISPR, tecnologia capaz de modificar genes específicos para aprimorar características desejáveis.
Instituições como a Embrapa e o Centro de Tecnologia Canavieira desenvolvem cultivares com paredes celulares de maior degradabilidade, ampliando a eficiência no aproveitamento da biomassa.

O foco evolui do volume para a composição química da planta. Mais do que produzir massa vegetal, o objetivo é produzir biomassa de alto desempenho industrial.
Pesquisas publicadas na Nature Communications e conduzidas pelo Laboratório Nacional de Biorrenováveis, vinculado ao Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, indicam que o Brasil pode atender até 35% da demanda global por bioplásticos, como o bioPE, utilizando apenas fração de áreas de pastagem degradada.

Essa perspectiva transforma usinas em biorrefinarias capazes de produzir biocombustíveis, bioplásticos e químicos renováveis de alto valor agregado.
Economia circular e ativos ambientais de alta liquidez
A vinhaça e a torta de filtro, antes vistas como passivos ambientais, são hoje matérias-primas estratégicas. Tradicionalmente aplicadas no solo como biofertilizantes, essas substâncias possuem elevada carga orgânica e podem gerar emissões de metano e óxido nitroso.
A digestão anaeróbia permite converter essa carga em biogás, posteriormente refinado em biometano, sem comprometer o valor nutricional dos resíduos. O resultado é geração adicional de energia e redução de gases de efeito estufa.
A indústria sucroenergética torna-se referência em economia circular. Resíduos alimentam a própria usina e abastecem a rede elétrica, transformando passivos em fontes de receita.
Ferramentas de monitoramento via satélite e tecnologias como o laser LIBS, desenvolvido pela Embrapa em parceria com a Agrorobótica, aceleram a mensuração de carbono no solo.
Monetização da descarbonização
O RenovaBio estrutura a monetização dessa descarbonização, com meta de emissão de 48,1 milhões de CBIOs em 2026. Dados da B3 até o dia 04 de fevereiro indicam a emissão de 4,27 milhões de créditos pelos produtores de biocombustíveis. No momento, a quantidade de CBios disponível para negociação em posse da parte obrigada, não obrigada e dos emissores totaliza 21,71 milhões de créditos de descarbonização.
Conforme dados publicados pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), 99% da meta global de 2025 foi atingida e 88,2% das metas individuais foram cumpridas. Os dados mostram que cerca de 50% das 61 distribuidoras que apresentavam algum nível de inadimplência em 2024, regularizaram integralmente suas obrigações até o final de janeiro de 2026, resultado que reflete a consolidação do programa.
“Esse avanço é fundamental para promover isonomia concorrencial, fortalecimento da credibilidade regulatória e reforçar o papel do RenovaBio como política pública efetiva de descarbonização do setor de combustíveis”, complementa o diretor de Inteligência Setorial da UNICA, Luciano Rodrigues.
Rastreabilidade digital
A rastreabilidade digital, apoiada por sistemas como o RenovaCalc e dados de telemetria, amplia transparência e facilita acesso a Green Bonds, reduzindo custo de capital para operações de baixo carbono.
A máxima eficiência termodinâmica da cogeração, aliada à rastreabilidade digital do biocarbono, converte desempenho ambiental em ativo financeiro. A cana-de-açúcar deixa de ser apenas commodity agrícola e se consolida como base estratégica da economia regenerativa brasileira.
Indicadores estratégicos da cana-de-açúcar brasileira
| Indicador | Valor ou projeção | Impacto estratégico |
| Moagem safra 2024/25 | 676,96 milhões de toneladas | Liderança mundial em escala produtiva |
| Crescimento do mercado de biológicos | 13% ao ano | Intensificação sustentável do manejo |
| Aumento potencial do etanol com 2G | Até 50% por hectare | Maior produtividade sem expansão de área |
| Redução da pegada de carbono no 2G | 30% em relação ao 1G | Competitividade internacional em energia limpa |
| Ampliação da biomassa com uso de palha | 30 a 40% | Expansão da oferta energética |
| Participação na matriz elétrica nacional | 8% da eletricidade | Terceira maior fonte energética do país |
| Participação na matriz energética total | 19% | Pilar da segurança energética |
| Potencial de atendimento ao mercado global de bioplásticos | Até 35% | Inserção estratégica na bioeconomia global |
| Meta de CBIOs para 2026 | 48,1 milhões | Monetização estruturada da descarbonização |
O setor sucroenergético brasileiro demonstra que tecnologia, sustentabilidade e rentabilidade não são vetores concorrentes. Integrados, formam a base de uma bioestratégia capaz de posicionar o Brasil no centro da transição energética mundial.
